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Os direitos a Que Temos Direito
Em uma sociedade livre e aberta, todo cidadão tem o direito de fazer um monte de coisas sem ter que dar explicação a quem quer que seja da razão pela qual ele está fazendo. Ninguém precisa de “entender” antecipadamente por que é que a gente está fazendo isso ou aquilo, se aquilo que a gente está fazendo está dentro da lei e não causa nenhuma espécie de dano a ninguém.
Não temos que entender "por que" alguém reza, a fim de respeitar o seu direito de rezar. Não temos que entender por que alguém prefere morar em apartamentos – e não em casas - para respeitar o seu direito de morar onde quiser e puder. Assim como alguém que odeia futebol (feito eu), não tem o direito de pedir explicações aos jogadores e aos torcedores do "por que" eles se reúnem naquele gramado imenso e executam estranhos rituais correndo atrás de uma bola de couro.
Mesmo quando uma certa religião é praticada pela maioria da população, seus praticantes não têm o direito de impedir que as minorias pratiquem suas próprias religiões. Ninguém está em posição de exigir primeiro “entender” por que eles praticam aquela religião a fim de lhes conceder "autorização" para a sua prática. Todo mundo é livre para rezar do jeito que quiser, pra que deuses quiser.
Não sei porque só nós, transgêneros, somos obrigados a justificar-nos o tempo todo, explicando pra todo mundo, interminavelmente, o que somos e por que somos quem somos. Até hoje não entendi a razão de precisarmos de fornecer “explicações convincentes” às outras pessoas (particularmente às pessoas mais próximas de nós) a fim de que elas "se convençam" de que é isso que queremos para nossas vidas, se é assim, como membros do gênero oposto ao nosso, que desejamos conviver em sociedade, seja por algumas horas, seja pela vida inteira.
Afinal, o que devemos dizer a eles a fim de que não atrapalhem nossos planos, de que não consigam “melar” nossas expectativas, de que não zombem de nós, dos nossos sonhos, das nossas fantasias, propósitos e ideais de vida? O que contar a uma esposa, a uma mãe, pai, irmão a fim de que eles nos compreendam, nos aceitem e nos deixem em paz, rezando o credo da nossa própria “religião”?
Mas, pergunto eu, alguma vez você pediu a eles que lhe dissessem porque é que eles são do jeito que são? Você já teve a ousadia de perguntar a alguém (seria de muitos maus bofes...) porque é que ele é judeu e não muçulmano ou evangélico e não umbandista ou hetero e não homo ou bi?
Pois é. Os direitos a que temos direito são os mesmos direitos a que eles têm direito. Dentre os muitos direitos que são garantidos a todos os cidadãos pela própria Constituição do País, temos o direito de não ser discriminados por sermos quem nós somos; o direito de não sermos alvo de zombaria gratuita por parte de pessoas arrogantes e preconceituosas; o direito de não sermos molestados em nossas escolhas pessoais, o direito de não termos a nossa intimidade violada, vasculhada e vilipendiada. Acima de tudo, o direito de realizarmos os nossos desejos, tendo como única restrição o respeito ao espaço dos outros, não prejudicando deliberadamente a quem quer que seja.
Mas, acima de todos, o direito número um na vida de qualquer pessoa é o direito de viver a própria vida do jeito que melhor nos aprouver, sem ter que justificar-nos com quem quer que seja, desde o momento que estamos agindo dentro da lei e da ordem. O direito de NÃO DEPENDER que os outros primeiro NOS ENTENDAM – e nos aceitem – a fim de começarmos a ser o que a gente já é.
Não devemos estar em busca de piedade ou de compaixão ou de “tolerância” de quem quer que seja. Ao contrário, devemos afirmar o nosso direito de ser diferente, de termos nossos próprios desejos, de levarmos o nosso próprio modo de vida.
Precisamos ter sempre em mente que o medo que temos de perder algumas posições, duramente alcançadas na nossa vida em sociedade, é o mesmo que eles têm de nos perder, de perder a nossa amizade, o nosso carinho, a nossa participação e até os nossos recursos... Os desejos deles precisam do nosso apoio, da mesma forma que os nossos desejos precisam do apoio deles. No mínimo, essa é uma troca justa e necessária.
Apenas esse gesto de auto-afirmação já é o bastante para libertar a maioria dos transgêneros que hoje vivem presos em seus próprios grilhões, esperando que os outros primeiro reconheçam e legitimem seus desejos para então realiza-los...







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