Como devo falar ao meu namorado que tenho hiv?

DÚVIDA:

Como devo falar ao meu namorado que tenho hiv? O namoro é recente e não sei como devo levar isso pra frente ainda não tivemos nada pois estou sempre adiando...Por favor, dê-me uma luz.
Grata pela atenção!

LETICIA LANZ RESPONDE:

Querida,

Eu queria muito ter uma fórmula mágica para dar a você nesse momento.
Posso imaginar como você se sente, tendo que revelar pra alguém que você quer muito que continue ao seu lado, uma verdade que pode colocar em risco a própria relação amorosa entre vocês.

Mas rejeição é apenas uma das inúmeras possibilidades que podem surgir da conversa que você tiver com ele. E não há razão nenhuma para você, antecipadamente, ficar pensando que é a única coisa que pode acontecer. É isso que tem feito você adiar uma conversa muito necessária para uma saudável continuidade do seu namoro.

Portanto, aposte no melhor, em vez de colocar todas as suas fichas numa rejeição antecipada. Acredite num bom desfecho para a sua conversa, sobretudo se, até agora, você agiu com ele de forma honesta e segura, procurando preserva-lo ao máximo de qualquer possibilidade de contágio do vírus através de você. Se ele for uma pessoa bem informada, saberá que, hoje em dia, as pessoas soro-positivas têm plenas condições de viver uma vida normal, desde que usem os medicamentos necessários, que o Brasil, por sinal, é referência mundial na fabricação e distribuição através da rede pública de saúde.
Mas a verdade é que não é nada fácil nem agradável a gente ter que revelar verdades ao nosso respeito que podem ser desconcertantes para as outras pessoas.

Eu vivi uma situação semelhante à sua quando, depois de 25 anos vivendo com a mulher que eu sempre amei e amo, percebi que não podia mais segurar a minha condição de pessoa transgênera, que eu havia abafado a vida inteira dentro de mim. Como você, eu também senti que não poderia mais ocultar dela um fato tão fundamental da minha vida.
Desde que tomei a decisão de me abrir com ela, fui arrastada por um turbilhão de emoções muito confusas e angustiantes. Provavelmente muito semelhantes às suas próprias emoções nesse momento. No centro das minhas preocupações estava o medo da minha revelação ser o fim de um lindo romance, vivido por mais de um quarto de século - e que eu não queria terminar de jeito nenhum. Mas que mulher poderia aceitar a revelação de que o homem da vida dela era meio-mulher? Como ela iria entender que essa quase-mulher ainda continuava amando-a e desejando-a sexualmente, como sempre? Será que iria entender que seu marido quase-mulher não era homossexual, mas lésbica?

Depois de muitos dias vivendo no vale de lágrimas do “conto” ou “não conto”, infelizmente a coragem não veio. Em vez de contar, saí de casa. Queria sumir da vida dela, da vida dos filhos, da vida de todo mundo que eu amava. Fugindo daquela maneira eu me sentia a pior e a mais indigna criatura da face da terra. Mas, mesmo sofrendo, eu estava fugindo para não ter que enfrentar a possibilidade de sofrer mais ainda, diante da possibilidade de ser repudiado e excluído pela pessoa que eu mais amei em toda a minha vida.

Ela foi em meu encalço, até me encontrar. E quando me encontrou, quis que eu lhe contasse a verdade, fosse qual fosse. E sabe o que ela imaginava ser a minha verdade? Que eu tivesse encontrado outra mulher! Na verdade eu tinha sim; só que a “outra” mulher era eu mesma. Ao vê-la torturada pela idéia de que eu a tivesse trocado por outra, reuni as poucas forças que ainda me restavam e contei pra ela tudo sobre mim. Minha pressão arterial, que sempre tinha sido baixa, tinha ido a 24 por 16 naquele dia e minha cabeça parecia um barril de pólvora com o pavio aceso, quase no fim.

Nunca vivi momento tão difícil e tão cruel em toda a minha vida. Era a minha verdade, a verdade de uma vida inteira, colocada na mesa, diante da pessoa que eu mais amo na vida. Mas o que ela faria com a minha verdade já não me importava mais, diante do alívio que senti de ter tirado aquele peso da minha cabeça. O pavio apagou-se, mas o barril de pólvora se transformou num balde cheio de tristezas. Chorei.

Só me lembro dela ter acariciado meus cabelos, como sempre faz quando me vê desamparada e sem rumo, e ter dito essas quatro palavras que nunca deixaram de ecoar na minha cabeça: - mas é só isso?

Só isso! Ela pensava que o meu enorme “isso” era um “só isso”! Ela estava vendo como uma coisa pequena, como um “só isso, a coisa “mais maior de grande”, o fantasma que tinha me apavorado a vida inteira!

Já se passaram muitos anos desde que isso aconteceu e nós continuamos juntas, cada vez mais amorosas, cada vez mais cúmplices, mais amigas e mais inseparáveis uma da outra. Pode ter certeza que não é nada fácil e que estamos muito longe de “viver nas nuvens” o tempo inteiro. Transgeneridade não é uma “coisa pequena” como ela pensava. E ser casada com uma pessoa transgênera é uma estrada cheia de surpresas, medos e preocupações. Não é nada fácil, nem pra ela, nem pra mim, nem para os filhos, que hoje já conhecem toda a minha história e ainda me amam e me respeitam.

Como eu disse lá no início, infelizmente não tenho uma fórmula mágica com a qual lhe presentear nesse momento e que pudesse livra-la de todo o desconforto e desamparo que você está vivendo neste momento.

Mas você tampouco precisa de fórmulas mágicas porque já sabe o que tem que fazer e já decidiu que tem que ser feito. Honestidade, clareza, objetividade, calma e uma conversa sem meias palavras. A hora virá. Cabe a você identificar a sua chegada.

Pode ser que não haja compreensão por parte dele. Ouço muitos casos em que realmente não houve. Foi nesses casos que eu pensava quando fugi, com medo de expor a minha verdade. Infelizmente, coisas primitivas como a ignorância e o preconceito ainda são muito comuns em pleno século XXI. Se ele não demonstrar compreensão, querida, não deixe de se amar por causa disso. Continue se amando muito e acreditando que você é uma pessoa digna, um ser humano lindo, cheio de vida e com muita vontade de viver.

Mas pode ser que haja compreensão da parte dele. Não sei por quê, mas os casos de compreensão são também muito comuns, só que não recebem tanta publicidade quanto os casos de intolerância e rejeição. Talvez porque, como diz um amigo meu, jornal com notícia boa não vende...

E pode ser que, além de compreensão, você receba aceitação e apoio. Acredite! Isso existe! E foi por isso que eu lhe dei o meu testemunho acima. Para que você não duvide que o amor existe mesmo e que ele é lindo. É esse amor pela pessoa – e não o medo de perde-la – que deve nortear a conversa que você vai ter.

Qualquer que seja o resultado da exposição da sua verdade - não só a esse seu novo namorado como a qualquer pessoa com quem você queira estreitar suas relações - é você que sempre estará colhendo o melhor dos resultados que alguém pode aspirar nesse mundo: - o prazer de estar vivendo uma vida pautada no amor, na ética e na verdade. Nada substitui a sensação de estar em paz com a gente mesma.

Beijos

Letícia Lanz
30-04-2009

 Se você tem alguma dúvida..... mande seu relato, com o maior número de detalhes possíveis e seja atendida no Divã da LANZ - um lugar especial que irá acolher seu coração e te mostrar novos horizontes. Escreva para casadamaite@gmail.com

 

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namorado

meu namorado é gostoso e n sai da academia,tenho siumes!!

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