Demônios de Nabukov
Gritos.
Gritos de agonia.
Ou de prazer: Ele não sabe.
Ele
os ouve todos os dias: é só encostar a cabeça num travesseiro que eles
os ouve. O desespero grita à sua porta, louco por se apossar de sua
alma, deixá-la penada, transformá-lo num louco. E a dor? A dor de saber
de seus erros e deles não conseguir escapar. E continua cometendo
barbaridades, estuprando a moral e a inocência. Sente vergonha, nojo de
si mesmo, mas não consegue escapar à tentação quando as vê. Vestidas em
túnicas brancas, denunciando sua virgindade e pureza, elas o
atormentam, vindo em seus sonhos prometer um paraíso, um ninho de amor.
Mas
ele há de escapar, ah, sim. Descobriu um modo de se enganar, sentir os
prazeres sem estar na vergonha. Navegando na Internet, sem sossego,
numa madrugada de tormentos, ele encontrara: um site com pequenas
ninfetas, demônios de Nabukov, que não abriram mão de atormentar almas
mundo afora e que pararam no tempo, mantendo o poder dominador, que faz
homens e homens, por mais fortes que sejam, seus escravos. Passa horas
e horas, madrugada adentro, apreciando as formas pueris, sentindo o
desejo esmagando qualquer outro pensamento, mais racional. Ah, por
quanto tempo ficou ali, naquela esperança de manter o mal longe do
mundo físico, fora da irrealidade da Internet? Não sabe, não consegue
lembrar. O feitiço virou contra o feitiçeiro, a espada contra o
cavalheiro, com ele não poderia ser diferente. Ah, como pôde achar que
enganaria aquele mal enraizado, que o puxava para o mundo real, fazendo
sua carne queimar, ansiando pela pele macia e pelo toque infantil, sem
experiência. Tentou fugir, tentou... Corria dos vestidinhos curtos, das
meninas que por ele passavam, na rua. Tentou ignorar o roçar, de leve,
das garotas que voltavam da escola, no ônibus. Tentou não ver as pernas
que se mostravam, na biblioteca, quando as saias subiam às coxas, numa
cruzada. Mas não pôde. Não pôde deixar de ver, e seu coração disparava,
sua doença (ah, sim, podia ser) se manifestava. Sentia a garganta seca,
os olhos queimando e o sexo latejando. Mas não ia em frente, isso, não.
Madrugada,
umas duas horas da manhã. Ele está acordado, em frente ao computador,
no tão visitado site. Já viu todas as fotos, não acha nada de novo. Já
viu a Lia, 19 anos, parece ter 13; já viu a Yara, 18, parece ter 12. Já
viu todas elas. Imaginou seu toque em todos aqueles corpos pueris, o
beijo quente em toda a sua extensão. Sentiu o gosto e maciez daqueles
sexos desprovidos de pêlos, tão quentes. Foi até onde sua fértil
imaginação o pôde levar. Mas não era real, e seu corpo pedia algo
assim. Ansiava pela menina loira, de fartas nádegas, que via na
biblioteca. Ansiava pela moreninha de boca sensual, de uniforme
escolar. Queria, e não havia como fugir mais.
Mesma
madrugada. Novamente em frente ao computador, depois de um café, para
não dormir. A excitação está alta nele. Enquanto vê as fotos, ele alisa
seu membro, por dentro da calça. As pernas, os peitinhos, as posições
incita à masturbação. E ele aceita o estímulo, o prazer toma conta.
"Seu
cachorro, depravado, doente." Sua consciência o agride, chama a
vergonha para ajudar. E ela vem, prazeirosa com tudo aquilo. Quer seu
quinhão. Ele tem medo, recua, cai na cama. Seu rosto está enterrado nos
cobertores, entre soluços e lágrimas. Não quer ser chingado, visto como
imoral. O desespero se achega, ronda, escarnecendo dele, sabe que sua
hora chegou. E ele também sabe. Ele sabe o que fazer, o mal não se
apossará dele, nem a loucura.
Manhã,
dois dias depois. A diarista chegou, o apartamento está trancado. O sr.
que lhe paga não ligou, mas ela foi assim mesmo. Procurou com os
vizinhos, saber se o homem estava em casa. Fazia um dois, três dias que
ele não era visto. O porteiro, com quem sempre era deixada a chave, a
fim de ser feita a limpeza do apartamento, quando ele viajava, não o
havia visto, também. Ele não havia viajado. Esperaram mais um dia e não
houve notícias. Não se sabia de parentes e nem de amigos. O homem era
sozinho e podia ser que estivesse lá dentro. Andava sempre tão fechado,
acabrunhado, podia ser até que estivesse doente.
Estouraram
a porta. Na sala, tudo em ordem; cozinha, tudo, também. Ao abrir a
porta do quarto, acharam ele. Estava quase que deitado, apoiado na
cadeira em frente ao computador. Em cima da mesa, ao lado do monitor,
um frasco, quase vazio, de comprimidos. Em seu rosto, apesar da boca um
pouco retorcida, uma expressão de alívio. Na tela do computador, uma
foto.
Manchete, nos jornais, no dia seguinte:
" Pedófilo é encontrado morto dentro de seu apartamento"
"Se suicidou enquanto acessava fotos em um site de pornografia infantil"
Autor: Puzo
Blog: louquinho.blogspot.com





