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Acho sublime aquela que vejo, cheiro, toco ou desejo

Acho o feminino  sublime. Não apenas a feminilidade que levo dentro de minha alma, mas toda aquela que vejo, cheiro, toco ou desejo. Personalidade é algo que não construímos intencionalmente, que se forma por si sem qualquer controle de quem quer que seja.

Orientação sexual e identidade de gênero são características individuais que fazem parte de nossa personalidade, como tantas outras características formadas por uma mescla de influências genéticas e experienciais de cada um, tão variáveis e únicas como as digitais humanas.

Por que desejo uma mulher que passa? Por que tocar a sua boca, seus cabelos ou sua pele parecem ser essenciais à minha existência? Que impulsos irresistíveis são esses e, mais incompreensível ainda, por que quero e preciso ser exatamente como ela, mesmo sabendo que a satisfação desse desejo tornará o outro quase impossível de ser realizado?

Aos 14, meu corpo não mudava como os das outras meninas

Minha identidade de gênero: feminina.

Eu nasci menino. Aos quatro anos, mexia nas coisas da minha mãe pela primeira vez. Aos sete, já usava as roupas dela escondida e aos 12 já me maquiava e desfilava pela casa quando estava sozinha.

Aos 14, meu corpo não mudava como os das outras meninas, as roupas não ficavam como eu queria, então perguntei a uma travesti o que ela tomava e comecei a tomar também.

Três meses depois, meus peitinhos começaram a crescer, meu pai percebeu e me levou a um médico para entender o que estava acontecendo. Tive que contar que queria ser uma menina, ao que me convenceram que era uma péssima ideia, principalmente porque ficaria estéril com a hormonização e as garotas não iriam me querer.

Travestilidade e transexualidade são características humanas como bondade ou nacionalidade

Eram os deuses astronautas? Talvez tenham sido médicos, afinal, tão investidos que são da legitimidade para decidir o ideal humano e seus limites de correção, o certo, o patológico. Alto demais, baixo demais, magro demais… gigantismos, nanismos, raquitismos e tantos outros “ismos” são denominações condenatórias de nossa humanidade.

Derrubar um desses e transformá-lo em homossexualidade, por exemplo, demandou não apenas uma forte manifestação social, mas todo um movimento multidisciplinar de cientistas apoiados em seus estudos campais e lógicos. Ainda temos o termo transgenerismo que inclui o transexualismo e o travestismo descritos na medicina, balançando entre as luta de forças de todo o mundo científico.

‘Quem sou, afinal, senão eu mesma?’

Quem sou eu? Sou homem, sou hétero e gay. Sou mulher, sou hétero e lésbica. Sou bissexual. Quem sou, afinal, senão eu mesma?

Ser travesti é ser homem e é ser mulher, tanto quanto é não ser uma coisa nem outra. Engano a um homem por não ser uma mulher, a uma mulher por não ser um homem ou na verdade enganava a todos enquanto negava quem realmente sou ao desempenhar o papel do modelo perfeito que era de enquadramento social?

Já escutei de um gay que eu não precisava virar uma mulher para conseguir homens, e já escutei de uma lésbica que sou homem demais para ela gostar de mim, como se minha existência pudesse depender do desejo do outro, da forma como ele me vê ou gostaria que eu fosse. Pai, mãe ou irmão: afinal de contas, quem é você? Você que me aponta é sincero com o mundo? O é consigo mesmo? O que esconde sob esse manto?

O que alimenta o preconceito contra transexuais?

 O tema “transexual” é com certeza um dos assuntos mais polêmicos na sociedade, que provoca fortes reações emocionais. Muitas vezes, essas reações têm tons predominantemente negativos, o que levanta a questão sobre a raiz da hostilidade quanto a esse tópico.

Segundo uma acadêmica que estuda atitudes e comportamentos sociais, o desconforto em relação às pessoas transexuais vem de convenções desafiadoras.

Diane Everett, professora de sociologia, diz que na cultura americana, sexo e gênero pertencem a uma de duas categorias. Assim que os seres humanos nascem, a primeira coisa que as pessoas perguntam é se o bebê é um menino ou menina.

“Temos a tendência, como sociedade, de colocar as pessoas em caixas”, disse ela. “Um transexual não só atravessa as fronteiras de gênero, mas também as desafia. Se as pessoas não veem você como ‘ou isso ou aquilo’, elas têm dificuldade em se relacionar com você em seu nível de conforto”, explica.

Depois, há pessoas que por razões religiosas acreditam que os transexuais são fundamentalmente “errados”, que Deus criou o homem e a mulher e, automaticamente, o homem é macho, a mulher é fêmea, e eles não devem cruzar essas linhas.

As questões geralmente acabam em um debate sobre qual banheiro as pessoas transexuais deveriam usar. Isso é um símbolo de toda a controvérsia, porque tem a ver com gênero, sexualidade e nível de conforto.

O desconforto decorre da visão de que uma pessoa é do sexo feminino ou masculino. Mudar o sexo com que você nasce é “basicamente automutilação”, disse Regina Griggs, diretora do grupo Parentes e Amigos de Ex-Gays & Gays. “É uma cirurgia que altera quem você realmente é do ponto de vista biológico”.

Segundo Regina, pessoas com transtorno de identidade de gênero merecem ajuda médica e psiquiátrica adequada. Transtorno de identidade de gênero é listado como doença no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a “bíblia” da psiquiatria.

Pessoas transexuais desafiam as ideias arraigadas na sociedade sobre gênero e sexo. As pessoas são ensinadas que meninos são meninos, meninas são meninas e meninos casam com meninas.

“Todas essas coisas são verdadeiras para a maioria das pessoas”, disse Mara Kiesling, diretora do Centro Nacional para a Igualdade Transexual. “É verdade que a maioria das pessoas é do sexo masculino ou feminino e isso é imutável para a maioria das pessoas. O que estamos aprendendo agora é que nenhuma dessas coisas é totalmente imutável”, explica.

Pessoas transexuais enfrentam um estresse de minoria, o que significa que elas se sentem indesejadas como uma minoria excluída. Elas também enfrentam o estigma, às vezes de suas próprias famílias, além de discriminação no trabalho e bullying.

A hostilidade pode vir, por vezes, de forma surpreendente. Uma mulher transexual, Amber Yust, que mudou seu nome de David, foi ao Departamento de Veículos Motorizados em San Francisco, EUA, para atualizar sua licença. Ela recebeu uma carta de um dos funcionários, acusando Yust de agir de uma maneira que é “uma abominação que leva para o inferno”. O empregado foi identificado e, posteriormente, se demitiu.

Ainda assim, nos dias de hoje, muitas manifestações contra transexuais são tornadas públicas e adquirem tamanha repercussão que oprimem ainda mais essas pessoas. O fim dessa discussão, no entanto, está muito longe – a mudança de pensamento vai demorar a chegar, tendo em vista o tamanho dos conceitos que precisam ser revisados para tanto.[CNN]

 

O Manifesto de SCUM - Sociedade for Cutting Up Men ( sociedade para a eliminação do homem)

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Sendo a vida nesta sociedade, na melhor das hipóteses, um tédio absoluto, e nenhum aspecto da sociedade tendo a menor relevância para as mulheres, só resta às fêmeas politizadas, conscientes, responsáveis, em busca de emoções, subverter o governo, eliminar o sistema monetário, instituir a automação completa e destruir o sexo masculino. A reprodução é hoje tecnicamente possível sem a ajuda dos machos e é possível produzir apenas fêmeas. Precisamos começar a fazer isso imediatamente. Conservar o sexo masculino não tem sequer o propósito duvidoso da reprodução.

O macho é um acidente biológico: o gene Y (macho) é um X (fêmea) incompleto, ou seja, tem um conjunto incompleto de cromossomos. Em outras palavras, o macho é uma fêmea incompleta, um aborto ambulante, mutilado no estágio de gene. Ser macho é ser deficiente, limitado emocionalmente; a condição masculina é uma deficiência, e os machos são emocionalmente inválidos. O macho é completamente egocêntrico, preso em si mesmo, incapaz de ter empatia ou de se identificar com outros, de amar, de sentir amizade, afeição ou ternura. Ele é uma unidade completamente isolada, incapaz de se relacionar com alguém. Suas reações são totalmente viscerais, não cerebrais; sua inteligência é uma mera ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades; ele é incapaz de paixão mental, de interação mental; não consegue se relacionar com nada além de suas próprias sensações físicas. Ele é um semimorto, uma excrescência apática, incapaz de dar ou receber prazer ou felicidade; conseqüentemente, ele é, na melhor das hipóteses, um tédio absoluto, uma bolha inofensiva, já que somente quem é capaz de se concentrar nos outros pode ter encanto. Ele está preso numa zona crepuscular a meio caminho entre seres humanos e macacos, e é bem pior que estes, porque, ao contrário dos macacos, ele é capaz de uma série de sentimentos negativos – ódio, ciúme, desprezo, repugnância, culpa, vergonha, incerteza – e além do mais, está ciente do que ele é e do que ele não é. Apesar de completamente físico, o macho é impróprio até para o serviço de garanhão.

Mesmo admitindo a competência mecânica, que poucos homens têm, ele é, em primeiro lugar, incapaz de agarrar e gozar com entusiasmo, prazerosamente, sensualmente. Em vez disso, é consumido pela culpa e pela vergonha, pelo medo e pela insegurança: sentimentos enraizados na natureza masculina, que até o mais esclarecido dos treinamentos só consegue minimizar. Em segundo lugar, a sensação física que ele consegue atingir está perto do nada. E em terceiro, ele não sente empatia pela parceira, mas fica obcecado pela idéia de como está se saindo, tentando obter um desempenho nota 10, fazendo um bom trabalho de encanamento. Chamar um homem de animal é elogiá-lo. Ele é uma máquina, um vibrador ambulante. Freqüentemente é dito que os homens usam as mulheres. Usam-nas para quê? Certamente não é para o prazer. Consumido pela culpa, pela vergonha, por medos, por inseguranças e obtendo, se ele tiver sorte, uma sensação física somente perceptível, o macho está, contudo, obcecado por sexo; ele nadará um rio de catarro, atravessará mais de um quilômetro com vômito até o nariz, se pensar que do outro lado há uma vagina acolhedora à sua espera. Ele foderá uma mulher que ele despreza, qualquer velha rabugenta e desdentada e, além disso, pagará pela oportunidade. Por quê? Aliviar a tensão física não é a resposta, já que a masturbação é suficiente para isso. Também não é para a satisfação do ego, isso não explica que foda cadáveres e bebês. Completamente egocêntrico, incapaz de se relacionar, de ter empatia ou de se identificar, e preenchido com uma sexualidade onipresente, o macho é psiquicamente passivo. Como odeia sua própria passividade, ele a projeta nas mulheres,. Define o macho como ativo e então tenta demonstrá-lo (“provar que ele é um Homem”). Foder é o seu principal recurso para tentar provar isto (o Grande Homem com uma Grande Pica comendo uma Mulher Gostosa). Já que está tentando provar um engano, ele precisa “comprová-lo” repetidamente, interminavelmente. Então, foder é uma tentativa compulsiva e desesperada de provar que ele não é passivo, que não é mulher; mas na verdade, ele é passivo e quer ser mulher. Sendo uma fêmea incompleta, o macho passa a vida tentando completar-se, tornar-se fêmea. Ele tenta fazer isso procurando constantemente a fêmea, confraternizando-se, tentando viver através dela e fundir-se nela, e reivindicando como suas todas as características femininas – força emocional e independência, vigor, dinamismo, decisão, tranqüilidade, objetividade, segurança, coragem, integridade, vitalidade, intensidade, profundidade de caráter, excelência, etc.– e projetando nas mulheres todos os traços masculinos – vaidade, frivolidade, trivialidade, fraqueza, etc. Deve ser dito, entretanto, que o macho possui uma área de evidente superioridade sobre a fêmea: – a de relações públicas. Ele realizou um trabalho brilhante convencendo milhões de mulheres de que os homens são mulheres e as mulheres são homens.

A afirmação masculina que as fêmeas se realizam através da maternidade e da sexualidade reflete o que os machos pensam que seria a realização deles se eles fossem fêmeas. As mulheres não têm inveja do pênis: - os homens é que invejam a vagina. Quando o macho aceita sua passividade, define-se como mulher, (os machos, assim como as fêmeas, pensam que os homens são mulheres e as mulheres são homens) e se torna um travesti: ele perde o desejo de foder (ou de fazer qualquer outra coisa, aliás; ele só se realiza como drag queen) e faz com que lhe cortem o pinto. Então, ele adquire um sentimento sexual contínuo e difuso de “ser mulher”. Foder é, para o homem, uma defesa contra o seu desejo de ser fêmea. O sexo em si é uma sublimação. O macho, por causa da sua obsessão em se compensar por não ser fêmea, combinada à sua incapacidade de se relacionar e de sentir compaixão, fez do mundo um monte de merda. Ele é responsável por: Guerra O método masculino normal de se compensar por não ser fêmea, a saber, disparar sua Grande Arma. Método totalmente inadequado, já que ele só pode fazer isso poucas vezes. Então, ele a dispara em uma escala realmente massiva e prova ao mundo inteiro que é um “Homem”. Já que ele não tem compaixão nem é capaz de ter empatia ou identificação, vale a pena causar uma enorme quantidade de mutilação e sofrimento e destruir um número infinito de vidas, inclusive a dele mesmo, para provar a sua virilidade – sendo sua própria vida sem valor, ele preferiria partir num esplendor de glória a se arrastar rigidamente por mais cinqüenta anos. Amabilidade, Delicadeza e “Dignidade” Todo homem, bem no fundo, sabe que não passa de um desprezível pedaço de merda. Oprimido por um sentimento de bestialidade e profundamente envergonhado por isso; querendo não se expressar, mas esconder dos outros que ele é totalmente físico, totalmente egocêntrico, ele procura disfarçar o ódio e o desprezo que sente pelos outros homens, e esconder de si o ódio e o desprezo que suspeita que outros homens sintam por ele; tendo um sistema nervoso grosseiramente construído, que é facilmente perturbado pela menor demonstração de emoção ou de sentimento, o macho tenta forçar um código “social” que garanta uma perfeita brandura, sem a mancha do menor traço de sentimento ou opinião inquietadora.

Ele usa expressões como “copular”, “contato íntimo”, “ter relações com” (para os homens, “relações sexuais” é redundância), revestidas de modos afetados; o terno no macaco. Dinheiro, Casamento e Prostituição, Trabalho e Impedimento de uma Sociedade Automatizada Não há razão humana para o dinheiro ou para alguém trabalhar mais de duas ou três horas por semana, no máximo. Todos os trabalhos não criativos (praticamente todos os trabalhos feitos atualmente) já poderiam ter sido automatizados há muito tempo, e numa sociedade sem dinheiro todas poderiam ter tudo do melhor que quisessem. Mas há razões não humanas, razões masculinas, para a manutenção do sistema monetário:

1. Vagina. Desprezando seu eu altamente inadequado, dominado por uma intensa ansiedade e uma solidão profunda, extrema, quando só com seu eu vazio, desesperado para se amarrar a qualquer fêmea na tola esperança de se completar, na crença mística de que tocando o ouro ele se transformará em ouro, o macho almeja o convívio contínuo ao lado das mulheres. A companhia da mais baixa das fêmeas é preferível à sua própria ou à de outro homem, que só serve para lembrá-lo de sua repugnância. Mas as fêmeas, a menos que sejam muito jovens ou muito doentes, precisam ser coagidas ou subornadas para conviver ao lado dos machos.

2. Dar ao macho a ilusão de utilidade e a possibilidade de tentar justificar a sua existência cavando buracos e enchendo-os. O tempo de lazer horroriza o macho, que não terá nada para fazer a não ser contemplar seu eu grosseiro. Incapaz de se relacionar ou de amar, o macho precisa trabalhar. As fêmeas almejam uma atividade absorvente, que tenha sentido e seja emocionalmente satisfatória, mas se não têm oportunidade ou habilidade para isso, elas preferem ficar ociosas e passar o tempo da maneira que preferirem – dormindo, fazendo compras, jogando boliche, sinuca, cartas e outros jogos, procriando, lendo, caminhando, sonhando acordadas, comendo, brincando consigo mesmas, tomando pílulas, indo ao cinema, fazendo terapia, viajando, cuidando de gatos e cachorros, refestelando-se na praia, nadando, assistindo à televisão, ouvindo música, decorando a casa, fazendo jardinagem, costurando, indo a boates, dançando, fazendo visitas, “aperfeiçoando suas mentes” (freqüentando cursos) e absorvendo “cultura” (conferências, peças, concertos, filmes de “arte”). Por isso, muitas fêmeas prefeririam, mesmo supondo a total igualdade econômica entre os sexos, viver com machos ou vender a bunda na rua, para terem a maior parte do seu tempo para si próprias, em vez de passarem muitas horas dos seus dias fazendo para outra pessoa um trabalho tedioso, imbecilizante, não criativo, funcionando como menos que animais, como máquinas ou, na melhor das hipóteses – se forem capazes de obter um “bom” trabalho – co-administrando o monte de merda. Portanto, o que vai liberar as mulheres do controle dos machos é a total eliminação do sistema dinheiro-trabalho, não a obtenção da igualdade econômica com os homens neste sistema.

3. Poder e controle. Incapaz de ser soberano em suas relações pessoais com as mulheres, o macho alcança a soberania geral manipulando o dinheiro e tudo o que é controlado pelo dinheiro, em outras palavras, tudo e todo o mundo.

4. Substituto do amor. Incapaz de dar amor e afeição, o macho dá dinheiro. Isso faz com que se sinta maternal. A mãe dá leite; ele dá pão. Ele é o Provedor.

5. Dá ao macho um objetivo. Incapaz de apreciar o momento, o macho precisa de algo para aguardar ansiosamente, e o dinheiro lhe fornece um objetivo eterno, interminável: Imagine o que você poderia fazer com 80 trilhões de dólares – Invista-os! E dentro de três anos você terá 300 trilhões de dólares!!! 6. Fornece ao macho a base para a sua maior oportunidade de controlar e manipular – a paternidade. Paternidade e Doença Mental (medo, covardia, timidez, humildade, insegurança, passividade) A Mãe quer o melhor para suas crianças; o Papai só quer o que é melhor para o Papai, ou seja, paz e sossego, alimentando a sua ilusão de dignidade (“respeito”), de uma boa imagem de si mesmo (status) e dando-lhe a oportunidade de controlar e manipular, ou, se ele é um pai “esclarecido”, de “dar orientação”. Além disso, ele deseja sexualmente sua própria filha – dá a mão dela ao futuro marido, o restante é para ele próprio. Papai, ao contrário da Mãe, nunca pode ceder para suas crianças, já que precisa, a todo custo, conservar a sua ilusão de determinação, firmeza, de estar sempre com a razão e força. Nunca fazer o que se tem vontade leva à falta de confiança na própria capacidade de enfrentar o mundo e a uma aceitação passiva do status quo. A Mãe ama suas crianças, embora às vezes se zangue. Mas a raiva passa rápido e, mesmo enquanto perdura, não impede o amor e a aceitação básica. Emocionalmente doente, Papai não ama suas crianças; ele as aprova – se forem “boas”, ou seja, se forem bem-comportadas, “respeitosas”, obedientes, subservientes à sua vontade, quietas e não inclinadas a demonstrações inconvenientes de irritação que seriam muitíssimo danosas para o sistema nervoso masculino do Papai, que se perturba com muita facilidade – em outras palavras, se forem vegetais passivos. Se não forem “boas”, ele não fica zangado – não se for um pai moderno, “civilizado” (o bruto descontrolado, furioso, hoje fora de moda, é preferível, pois, sendo tão ridículo, pode ser facilmente desprezado) – em vez disso, manifesta desaprovação, um estado que, diferente da raiva, persiste e impede uma aceitação básica, deixando a criança com um sentimento de inutilidade e uma obsessão vitalícia por aprovação. O resultado é o temor ao pensamento independente, pois este leva à opiniões e modos de vida não convencionais, desaprovados. Para que a criança obtenha a aprovação do Papai, ela precisa respeitá-lo e, sendo um lixo, o Papai só pode garantir que é respeitado permanecendo indiferente, pela distância, agindo de acordo com o preceito de que “a intimidade gera o desprezo”, o que evidentemente é verdade, se alguém é desprezível. Sendo indiferente e distante, ele é capaz de permanecer desconhecido, misterioso, e assim inspirar medo (“respeito”).

A desaprovação de “cenas” emocionais gera o temor por emoções fortes, o medo dos seus próprios sentimentos de raiva e de ódio e o medo de encarar a realidade, já que encará-la leva inicialmente à raiva e ao ódio. O medo da raiva e do ódio, aliado à falta de confiança na sua própria capacidade de lidar com o mundo e de mudá-lo, ou até de afetar por pouco que seja o próprio destino, leva a uma crença insensata de que o mundo e a maioria das pessoas que vivem nele são bons e de que as distrações mais banais, triviais, são profundamente aprazíveis e uma grande diversão. O resultado da paternidade nos machos, especificamente, é torná-los “Homens”, ou seja, altamente defensivos em relação a todos os impulsos de passividade, viadagem, e aos desejos de ser fêmea. Todo menino quer imitar a mãe, ser ela, fundir-se com ela, mas o Papai proíbe isso; ele é a mãe; ele se funde com ela. Assim, ele tenta convencer o menino, às vezes diretamente, outras indiretamente, a não ser um maricas, a agir como um “Homem”. O menino, borrando-se de medo e “respeitando” o pai, obedece e torna-se exatamente como o Papai, esse modelo de virilidade, o ideal Americano – o imbecil heterossexual bem-comportado. O resultado da paternidade nas fêmeas é torná-las masculinas – dependentes, passivas, domésticas, bestiais, boazinhas, inseguras, em busca de aprovação e segurança, covardes, humildes, “respeitosas” em relação às autoridades e aos homens, fechadas, com dificuldade de reação, semimortas, triviais, tolas, convencionais, desinteressantes e completamente desprezíveis. A Menina do Papai, sempre tensa e medrosa, intranqüila, não analítica, carente de objetividade, aprecia o Papai, e conseqüentemente, os outros homens, num contexto de medo (“respeito”) e não só é incapaz de ver a concha vazia que está por trás da fachada indiferente, como também aceita a definição masculina dele mesmo como superior, como uma fêmea, e dela mesma como inferior, como um macho – o que, graças ao Papai, ela realmente é. Foi o crescimento da paternidade – resultado do aumento e difusão da riqueza que a paternidade necessita para prosperar – que causou o aumento geral da estupidez e o enfraquecimento das mulheres nos Estados Unidos desde a década de 1920. A estreita ligação da riqueza com a paternidade, fez com que quase sempre, apenas as meninas erradas, ou seja, as meninas da classe média “privilegiada”, fossem “educadas”. O resultado da paternidade, em suma, tem sido a corrosão do mundo pela masculinidade.

O macho tem um toque de Midas negativo – tudo o que ele toca transforma-se em merda. Supressão da Individualidade, Bestialidade (domesticidade e maternidade) e Funcionalismo O macho não passa de um feixe de reflexos condicionados, incapaz de uma reação mentalmente livre; ele é atado ao condicionamento que recebeu nos primeiros anos de vida, determinado completamente pelas experiências passadas. Suas experiências mais antigas são com a sua mãe, e por toda a vida ele fica atado a ela. Nunca fica iteiramente claro para o macho que ele não é parte de sua mãe, que ele é ele e ela é ela. Sua maior necessidade é ser guiado, abrigado, protegido e admirado pela Mamãe (os homens esperam que as mulheres adorem aquilo que eles têm mais pavor – eles mesmos) e, sendo apenas físico, anseia por passar o tempo (que não é passado “fora, no mundo”, defendendo-se severamente de sua passividade) chafurdando em atividades animais básicas – comer, dormir, cagar, relaxar e ser confortado pela Mamãe. A tola e passiva Menina do Papai, sempre em busca de aprovação, de um afago na cabeça, do “respeito” de qualquer pedaço de lixo que passe por seu caminho, é facilmente reduzida a Mamãe, assistente estúpida das necessidades físicas, confortadora do enfadonho, das sobrancelhas de macaco, promotora do ego débil, apreciadora do desprezível, uma garrafa de água quente com tetas.

A redução à condição animal sofrida pelas mulheres do segmento mais atrasado da sociedade – a classe média “privilegiada, educada”, o remanso da humanidade –, onde o Papai reina soberano, foi tão completa que elas tentam curtir as dores do trabalho de parto e se encontram pelo país mais avançado do mundo, no meio no século vinte, com bebês mascando suas tetas. Não é pelo bem das crianças que os “especialistas” dizem às mulheres que a Mamãe deve ficar em casa e se aviltar em bestialidade, e sim pelo bem do Papai; a teta é para o Papai se pendurar nela; as dores do parto são para o Papai curtir de modo vicário (semimorto, ele precisa de estímulos terrivelmente fortes para fazê-lo reagir). A redução da fêmea a um animal, à Mamãe, a um macho, é necessária por razões psicológicas e também práticas: o macho é um mero membro da espécie, permutável com qualquer outro macho. Ele não tem nenhuma individualidade profunda, que se origina do que lhe interessa, do que é exterior e lhe absorve, aquilo com que você se relaciona. Completamente concentrados em si mesmos, capazes de se relacionar apenas com seus corpos e com sensações físicas, os machos diferem uns dos outros apenas quanto ao grau e aos modos como tentam se defender contra sua passividade e seu desejo de ser fêmea. A individualidade da fêmea – que ele percebe acentuadamente, mas não compreende ou apreende emocionalmente, e com a qual não é capaz de se relacionar – amedronta-o, perturba-o e o enche de inveja. Assim, ele nega a individualidade da fêmea e prossegue definindo todo mundo em termos da função ou do uso que ele ou ela tem, atribuindo para si mesmo, evidentemente, as funções mais importantes – médico, presidente, cientista – e por meio disso, obtém uma identidade, se não uma individualidade, e tenta convencer a si mesmo e às mulheres (teve melhor êxito convencendo as mulheres) de que a função da fêmea é parir e criar filhos e relaxar, confortar e promover o ego do macho – função esta que a torna permutável com qualquer outra fêmea. Na verdade, a função da fêmea é se relacionar, curtir, amar e ser ela própria, insubstituível; a função do macho é produzir esperma. Porém, agora temos bancos de esperma. Na verdade, a função da fêmea é investigar, descobrir, inventar, solucionar problemas, contar piadas, fazer música – tudo com amor. Por outras palavras, criar um mundo mágico.

Impedimento da Privacidade Embora o macho, tendo vergonha do que é e de quase tudo o que faz, insista na privacidade e no sigilo em todos os aspectos de sua vida, ele não tem verdadeiro apreço pela privacidade. Sendo vazio, não sendo um ser completo, separado, não tendo um eu do qual goste e precisando constantemente da companhia feminina, ele não vê nada de errado em se intrometer nos pensamentos de qualquer mulher, até mesmo nos de uma desconhecida, em qualquer lugar e a qualquer hora. No entanto, quando o rebaixam por fazer isso, ele se sente indignado, insultado e também confuso – ele não consegue, por mais que tente, compreender como alguém pode preferir muito mais um minuto de solidão em vez da companhia de qualquer idiota que esteja por perto. Com uma vontade intrínseca de se tornar mulher, ele faz o possível para estar constantemente por perto das fêmeas, que é o mais próximo que ele consegue chegar de ser uma. Para isso criou uma “sociedade” baseada na família – um casal macho-fêmea e suas crianças (a desculpa para a existência da família), que vivem controlando uns aos outros, violando inescrupulosamente os direitos, a privacidade e a sanidade da fêmea. Isolamento, Subúrbios e Rejeição da Comunidade Nossa sociedade não é uma comunidade, mas apenas uma coleção de unidades familiares isoladas. Desesperadamente inseguro, temendo que sua mulher o abandone caso esteja exposta aos outros homens ou a qualquer coisa remotamente semelhante à vida, o macho procura isolá-la dos outros homens e da pouca civilização que exista, decide viver em subúrbios, que são agrupamentos de casais voltados para si próprios e suas crianças. O isolamento lhe possibilita a tentativa de manter a sua simulação de ser um indivíduo tornando-se um “individualista severo”, um solitário, que equipara a não-cooperação e a solidão com a individualidade. Há ainda uma outra razão para o macho se isolar: todo homem é uma ilha. Preso em si mesmo, emocionalmente isolado, incapaz de se relacionar, o macho tem horror à civilização, às pessoas, às cidades, às situações que exigem uma habilidade de compreender e se relacionar com as pessoas.

Assim, como um coelho assustado, ele sai correndo, arrastando consigo a idiotinha do Papai para o mato, para os subúrbios ou, no caso do “hippie” – ele está em vias de extinção, Cara! –, até para o pasto, onde pode trepar e procriar sem ser perturbado e ficar à toa com os seus colares e sua flauta. O “hippie”, cujo desejo de ser um “Homem”, um “individualista severo”, não é tão forte quanto o do homem médio, e que, além disso, se entusiasma com a idéia de ter várias mulheres à disposição dele, se rebela com o rigor da vida de um Provedor e a monotonia de uma única mulher. Em nome da divisão e da cooperação, ele forma a comuna ou a tribo que, com toda a sua intimidade familiar, e em parte por causa dela (a comuna, sendo uma família extensa, é uma violação extensa dos direitos, da privacidade e da sanidade da fêmea), tem tanto de uma comunidade quanto a “sociedade” normal. Uma verdadeira comunidade compõe-se de indivíduos – não de meros membros de espécies, não de casais – que respeitam a individualidade e a privacidade uns dos outros, ao mesmo tempo em que interagem mentalmente e emocionalmente uns com os outros – espíritos livres em relações mútuas livres – e cooperam uns com os outros para atingir fins comuns. Tradicionalistas dizem que a unidade básica da “sociedade” é a família; “hippies” dizem que é a tribo; ninguém se refere ao indivíduo. O “hippie” tagarela sobre individualidade, mas não a compreende mais do que qualquer outro homem. Ele deseja voltar para a Natureza, voltar para o mato, voltar para o lar dos animais peludos, pois é um deles, distanciar-se da cidade, onde há pelo menos um sinal, um mero início de civilização, para viver no nível da espécie, ocupando seu tempo com atividades simples, não intelectuais – cultivar, trepar, fazer colares de contas. A atividade mais importante da comuna, que constitui a sua base, é a suruba.

O “hippie” se sente atraído pela comuna principalmente devido à perspectiva da gratuidade de todas as vaginas – o principal produto a ser compartilhado, que é obtido com um simples pedido – mas, cego pela ganância, ele deixa de imaginar todos os outros homens com quem tem de dividir as vaginas, ou o ciúme e a possessividade delas. Os homens não podem cooperar para atingir um fim comum, porque o objetivo de todo homem é ter todas as vaginas para si. Portanto, a comuna está fadada ao fracasso: cada “hippie”, em pânico, agarrará a primeira tola que gostar dele e correrá com ela o mais rápido possível para os subúrbios. O macho não pode progredir socialmente, apenas oscila para frente e para trás, do isolamento para a suruba. Conformidade Apesar de querer ser um indivíduo, o macho tem medo de qualquer coisa que o diferencie minimamente dos outros homens; levando-o a suspeitar que ele não seja realmente um “Homem”, que ele é passivo e totalmente sexual, uma suspeita altamente perturbadora. Se os outros homens são “A” e ele não, então pode não ser um homem; deve ser uma bicha. Assim, ele tenta afirmar a sua “Masculinidade” sendo como todos os outros homens. Qualquer diferença nos outros homens, assim como nele próprio, o ameaça: significa que eles são bichas, que precisam ser evitados a qualquer custo, então ele tenta garantir que todos os outros homens se enquadrem.

O macho ousa ser diferente na medida em que aceita sua passividade e seu desejo de ser fêmea, sua bichice. O macho mais divergente é a drag queen, mas este, embora diferente da maioria dos homens, é exatamente como todas as outras drag queens; como o funcionalista, ele tem uma identidade – é uma fêmea. Ele tenta afastar todas as suas dificuldades – mas a individualidade ainda inexiste. Não estando completamente convencido de que ele é uma mulher, altamente inseguro quanto a ser suficientemente fêmea, ele se ajusta compulsivamente ao estereótipo feminino feito pelo homem, e no fim das contas não é mais que um feixe de modos afetados. Para ter certeza de que é um “Homem”, o macho precisa garantir que a fêmea seja claramente uma “Mulher”, o oposto de um “Homem”, ou seja, a fêmea precisa agir como uma bicha. E a Menina do Papai, que teve todos os seus instintos de fêmea arrancados de si quando pequena, adapta-se fácil e obsequiosamente ao papel. Autoridade e Governo Não tendo nenhum senso do certo e do errado, nenhuma consciência, que só pode derivar da capacidade de se colocar no lugar do outro… não tendo nenhuma fé em seu eu inexistente, sendo desnecessariamente competitivo, e por natureza, incapaz de cooperar, o macho sente necessidade de orientação externa e controle. Assim, ele criou autoridades – padres, especialistas, chefes, líderes, etc. – e o governo. Com o desejo de ser guiado pela fêmea (Mamãe), mas incapaz de aceitar esse fato (afinal de contas, ele é um HOMEM), desejando representar o papel da Mulher, usurpar a função dela como Guia e Protetora, o macho providencia que todas as autoridades sejam machos. Não há razão alguma para que uma sociedade composta de seres racionais capazes de ter empatia uns com os outros, completos e sem nenhuma razão natural para competir, precise de governo, leis ou líderes. Filosofia, Religião e Moralidade Baseada no Sexo A incapacidade do macho de se relacionar com alguém ou com qualquer coisa torna a sua vida inútil e sem significado (a percepção masculina básica é de que a vida é absurda), assim, ele inventou a filosofia e a religião. Sendo vazio, ele se volta para o mundo exterior, não apenas para ter orientação e controle, mas para se salvar e buscar o significado da vida. Sendo impossível para ele a felicidade nesta terra, ele inventou o Céu.

Para um homem, incapaz de ter empatia com os outros e sendo totalmente sexual, “errado” é a “licenciosidade” sexual e a adoção de práticas sexuais “diferentes” (“indignas do homem”), ou seja, não se defender contra a sua passividade e total sexualidade que, se satisfeitas, destruiriam a “civilização”, já que a “civilização” é baseada inteiramente na necessidade masculina de se defender contra essas características. Para uma mulher (de acordo com os homens), “errado” é qualquer comportamento que induziria os homens à “licenciosidade” sexual – ou seja, não colocar as necessidades do macho acima das dela e não ser uma bicha. A religião, não somente proporciona aos homens um objetivo (o Céu) e ajuda a manter as mulheres atadas a eles, mas oferece rituais por meio dos quais eles podem tentar expiar a culpa e a vergonha que sentem por não se defenderem o suficiente de seus impulsos sexuais; essencialmente, a culpa e a vergonha que sentem de serem machos. A maioria dos homens, totalmente covarde, projeta nas mulheres as suas fraquezas inerentes, chama-as de fraquezas femininas e acredita ter forças femininas; a maioria dos filósofos, não tão covardes, embora encare o fato de os homens terem deficiências masculinas, não pode admitir que elas só existem nos homens. Assim, esses filósofos chamam a condição masculina de Condição Humana e apresentam o problema da sua nulidade, que os aterroriza, como um dilema filosófico, conferindo assim envergadura à sua bestialidade. Com grandiloqüência, eles chamam sua nulidade de “Problema de Identidade” e então tagarelam pomposamente sobre a “Crise do Indivíduo”, a “Essência do Ser”, “Existência precedendo a Essência”, “Modos de Ser Existenciais”, etc., etc.

Uma mulher não apenas conta com sua identidade e individualidade como também sabe instintivamente que a única coisa errada é causar dano aos outros e que o significado da vida é o amor. Preconceito (racial, étnico, religioso, etc.) O macho precisa de bodes expiatórios sobre os quais ele possa projetar suas deficiências e inadequações e sobre os quais possa dar vazão à frustração que sente por não ser fêmea. E as várias discriminações têm a vantagem prática de aumentar substancialmente a quantidade de vaginas disponíveis para os homens no topo. Competição, Prestígio, Status, Educação Formal, Ignorância e Classes Sociais e Econômicas Tendo um desejo obsessivo de ser admirado pelas mulheres, mas sendo desprovido de valor intrínseco, o macho constrói uma sociedade altamente artificial, que lhe permite apropriar-se de uma aparência de valor através do dinheiro, prestígio, “alta” classe social, diplomas, posição profissional e conhecimento, derrubando profissionalmente, socialmente, economicamente e educacionalmente tantos outros homens quanto puder. O objetivo da educação superior não é educar, mas excluir das várias profissões o maior número possível de pessoas.

O macho, totalmente físico, incapaz de relação mental, embora possa compreender e usar conhecimentos e idéias, é inábil para se relacionar com eles, apreendê-los emocionalmente; ele não valoriza o conhecimento e as idéias por si próprios (considera-os apenas meios para chegar a fins) e, conseqüentemente, não tem necessidade de companhias mentais, nem de cultivar as potencialidades intelectuais dos outros. Pelo contrário, o macho tem um interesse investido na ignorância, que garante aos poucos homens instruídos uma vantagem decisiva sobre os não instruídos e, além disso, o macho sabe que uma população de fêmeas esclarecidas, conscientes, significará o seu fim. A fêmea saudável, orgulhosa, quer a companhia de iguais, que ela possa respeitar e curtir; o macho e a fêmea masculina doente, insegura e sem autoconfiança, anseiam pela companhia de vermes. Nenhuma revolução social genuína pode ser realizada pelo macho, pois o macho que está no alto quer a permanência do status quo, e tudo o que o macho que está na base quer é ser o macho que está no alto. O macho “rebelde” é uma farsa; esta é a “sociedade” do macho, feita por ele para satisfazer às necessidades dele. Ele nunca está satisfeito, porque não é capaz de se satisfazer. O macho “rebelde” revolta-se basicamente contra o fato de ser macho. O macho só muda quando é forçado a isso pela tecnologia, quando não tem escolha, quando a “sociedade” atinge o estágio em que ele precisa mudar para não morrer. Nós estamos nesse estágio agora; se as mulheres não se mexerem rapidamente, poderemos todos morrer. Rejeição do Diálogo Sendo completamente autocentrado e incapaz de se relacionar com qualquer coisa além de si mesmo, a “conversa” do macho, quando não gira em torno dele mesmo, é uma lengalenga impessoal, sem nenhum conteúdo de valor humano. A “conversa intelectual” do macho é uma tentativa forçada, compulsiva, de impressionar a fêmea. A Menina do Papai, passiva, adaptável, respeitosa e amedrontada pelo macho, permite que ele lhe imponha a sua conversa terrivelmente insípida. Para ela isso não é muito difícil, uma vez que a tensão, a ansiedade, a intranqüilidade, a insegurança e a incerteza quanto a seus próprios sentimentos e sensações – que o Papai instilou nela – tornam superficiais as suas percepções e a incapacitam de ver que a arenga do macho é uma arenga; como o esteta “apreciando” a bolha que é chamada de “Grande Arte”, ela acredita estar curtindo a chatice do bobalhão ao seu lado. Além de permitir que a arenga dele domine, a fêmea faz com que a sua própria “conversa” se adapte a ela. Treinada desde a primeira infância para ser amável, delicada e digna, para alimentar a necessidade masculina de disfarçar a bestialidade dele, ela obsequiosamente reduz sua “conversa” a um diálogo mole, insípido, evitando qualquer assunto fora do estritamente trivial – ou, se é “educada”, para a discussão “intelectual”, ou seja, um discurso impessoal sobre abstrações irrelevantes – o Produto Interno Bruto, o Mercado Comum, a influência de Rimbaud na pintura simbolista. Sua perícia em alimentar o ego do macho é tanta que isso acaba por ser uma segunda natureza, e ela continua a fazê-lo até quando só há mulheres à sua volta. À parte disso, sua “conversa” também é limitada pelo temor de manifestar opiniões próprias, diferentes ou originais, e por estar voltada apenas para si devido à sua insegurança, e isso impede a sua conversa de ter encanto.

Dificilmente a amabilidade, a delicadeza, a “dignidade”, a insegurança e voltar-se apenas para si podem levar à intensidade e ao espírito, qualidades que uma conversa precisa ter para merecer esse nome. É improvável que tal conversa seja arrebatadora, pois só as fêmeas completamente autoconfiantes, arrogantes, expansivas, orgulhosas, decididas são capazes de uma conversa intensa, maliciosa, espirituosa. Rejeição à Amizade (Amor) Os homens desprezam a si mesmos, a todos os outros homens – a quem dispensam pouco mais do que um olhar displicente e a quem não consideram fêmeas (por exemplo, terapeutas “simpáticos” e “Grandes Artistas”) ou agentes de Deus – e a todas as mulheres que os respeitam e alimentam seu ego; as fêmeas masculinas inseguras, em busca de aprovação, que alimentam o ego masculino, desprezam a si mesmas e a todas as mulheres que se parecem com elas; as fêmeas femininas autoconfiantes, vibrantes, em busca de emoções, desprezam os homens e as fêmeas masculinas que alimentam o ego deles. Resumindo, o desprezo está na ordem do dia. Amor não é dependência nem sexo, mas sim amizade, e portanto, o amor não pode existir entre dois machos, entre um macho e uma fêmea ou entre duas fêmeas, situações em que um ou ambos são machos estúpidos, inseguros, alimentadores do ego masculino; assim como a conversa, o amor só pode existir entre fêmeas femininas seguras, livres, independentes, vibrantes, uma vez que a amizade se baseia no respeito e não no desprezo.

Até mesmo entre fêmeas vibrantes, as amizades profundas raramente ocorrem na idade adulta, quando quase todas elas já estão atadas aos homens para sobreviver economicamente, ou atoladas na lama lutando para abrir caminho na selva e tentando manter a cabeça acima da massa amorfa. O amor não pode florescer numa sociedade baseada no dinheiro e no trabalho sem sentido; ele exige total liberdade econômica e pessoal, tempo de lazer e oportunidade de se empenhar em atividades profundamente absorventes, emocionalmente satisfatórias, que, ao serem compartilhadas com quem se respeita, levam à amizade profunda. Nossa “sociedade” praticamente não oferece oportunidade para nos empenharmos nessas atividades. Tendo varrido do mundo o diálogo, a amizade e o amor, o macho nos oferece estes substitutos desprezíveis: “Grande Arte” e “Cultura” O “artista” masculino tenta resolver seu dilema de não ser capaz de viver, de não ser fêmea, construindo um mundo altamente artificial onde o macho se torna herói, ou seja, exibe traços femininos, e a fêmea é reduzida a papéis altamente limitados, insípidos e subordinados, ou seja, a ser macho. Sendo que o objetivo “artístico” do macho não é comunicar-se (com seu vazio interior ele não tem nada para dizer) e sim disfarçar sua bestialidade, ele recorre ao simbolismo e à obscuridade (“obra profunda”).

A grande maioria das pessoas, sobretudo as “educadas”, não acredita no próprio julgamento, é humilde e respeita a autoridade (“Papai sabe mais” é traduzido para a linguagem adulta como “O crítico sabe mais”, “O escritor sabe mais”, “O Ph.D sabe mais”). Assim, são levadas facilmente a acreditar que a obscuridade, a conduta evasiva, o hermetismo, o modo indireto, a ambigüidade e a chatice são marcas de profundidade e brilho. A “Grande Arte” prova que os homens são superiores às mulheres, que os homens são mulheres, uma vez que quase toda a chamada “Grande Arte”, como os antifeministas adoram nos lembrar, foi criada pelos homens. Sabemos que a “Grande Arte” é grande porque as autoridades masculinas nos disseram isso e não podemos afirmar o contrário, pois apenas aqueles que têm uma sensibilidade extraordinária, muito superior à nossa, podem perceber e apreciar tal grandeza, sendo fato deles apreciarem essa baboseira a prova da superioridade da sua sensibilidade. Apreciar é a única diversão dos “cultos”; passivos e incompetentes, sem imaginação nem espírito, eles precisam se virar desse jeito; incapazes de criar suas próprias diversões, de criar um mundinho seu, de afetar da menor maneira seu meio ambiente, eles têm de aceitar o que lhes é dado. Incapazes de criar ou de se relacionar, eles assistem. Absorver “cultura” é uma tentativa desesperada, frenética, de gostar de um mundo insípido, de fugir ao horror de uma existência idiota. A “cultura” fornece um suborno para o ego dos incompetentes, um meio de racionalizar a observação passiva; eles podem se orgulhar de sua capacidade de apreciar as coisas “mais finas”, de ver uma jóia onde há apenas um cocô (querem ser admirados por admirar). Não acreditando em sua capacidade de mudar o que quer que seja, resignados com o status quo, eles têm de achar o cocô bonito porque, até onde vai a sua visão de mundo, a única coisa que terão é mesmo o cocô. A veneração pela “Arte” e pela “Cultura” – além de levar muitas mulheres para atividades enfadonhas, passivas, que as desviam de atividades mais importantes e gratificantes e do cultivo de suas potencialidades – leva à constante intromissão em nossa sensibilidade de pomposas dissertações sobre a profunda beleza desse e daquele cocô. Isso permite que o “artista” seja instituído como detentor de sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos superiores, e por meio disso minando a fé das mulheres inseguras do valor e da validade dos seus próprios sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos.

O macho, tendo uma extensão muito limitada de sentimentos e, conseqüentemente, percepções, compreensões e julgamentos muito limitados, precisa do “artista” para guiá-lo, para dizer-lhe sobre o que há na vida. Mas o “artista” masculino, sendo totalmente sexual, incapaz de se relacionar com qualquer coisa a não ser com suas próprias sensações físicas e não tendo nada para expressar além da compreensão de que para o macho a vida é sem sentido e absurda, não pode ser artista. Como pode ele, que não é capaz de vida, nos dizer o que há na vida? Um “artista masculino” é uma contradição de termos. Um degenerado só pode produzir “arte” degenerada. A verdadeira artista é toda fêmea autoconfiante, saudável, e, numa sociedade feminina, a única Arte, a única Cultura, serão as fêmeas orgulhosas, excêntricas e originais se curtindo e curtindo tudo mais no universo. Sexualidade O sexo não faz parte de um relacionamento; pelo contrário, é uma experiência solitária, não criativa, uma total perda de tempo. A fêmea pode facilmente – muito mais facilmente do que pensa – condicionar-se para afastar seu impulso sexual, ficando totalmente tranqüila e cerebral e livre para perseguir relacionamentos e atividades com algum valor real; mas o macho, que parece gostar sexualmente das mulheres e que procura sempre excitá-las, estimula as fêmeas altamente sexuais a frenesis de desejo, enfiando-as num pacote de sexo do qual poucas escapam. O macho lascivo excitou a fêmea sensual; ele precisa fazer isso – quando a fêmea transcende seu corpo, e se eleva acima da bestialidade, o macho, que tem seu ego constituído pelo pênis, desaparecerá. Sexo é o refúgio dos tolos. E quanto mais tola é a mulher, quanto mais profundamente ela é encaixada na “cultura” masculina, em resumo, quanto mais amável ela é, mais sexual ela é.

As mulheres mais amáveis em nossa “sociedade” são as maníacas sexuais furiosas. Mas sendo realmente muito amáveis, as mulheres não descem ao nível da transa – o que seria grosseiro – em vez disso elas fazem amor, comungam por meio do seu corpo e estabelecem uma relação sensual; as literatas se sintonizam com a pulsação de Eros e conseguem abraçar o Universo; as religiosas entram em comunhão espiritual com o Sensualismo Divino; as místicas se fundem com o Princípio Erótico e se unem ao Cosmo; e as mentes adeptas do ácido entram em contato com suas células eróticas. Do outro lado estão as fêmeas menos encaixadas na “cultura” masculina, as menos amáveis, essas almas simples e grosseiras que reduzem transar a transar, que são infantis demais para o mundo adulto dos subúrbios, das hipotecas, das vassouras e do cocô de bebê, egoístas demais para criar filhos e maridos, incivilizadas demais para dar ouvidos à opinião dos outros sobre elas, arrogantes demais para respeitar o Papai, os “Grandes” ou a profunda sabedoria dos Anciões, que confiam somente nos instintos animais de suas entranhas, que igualam Cultura a garotas, que têm como única diversão rondar à procura de emoções e agitação, que estão dispostas a fazer “cenas” repugnantes, desagradáveis, perturbadoras, cadelas violentas, odiosas, que tendem a bater com a porta na cara de quem as irrita demais, que afundariam um punhal no peito de um homem ou enterrariam um furador de gelo em seu cu logo que o vissem, caso soubessem que poderiam fazer isso sem serem punidas, em resumo, as fêmeas que, pelos padrões da nossa “cultura” são a escória: SCUM… essas fêmeas são tranqüilas, relativamente cerebrais e margeiam a assexualidade.

Livres do decoro, da amabilidade, da discrição, da opinião pública, da “moralidade”, do “respeito” dos idiotas, as sempre originais, sujas, sórdidas, SCUM estão por todos os lados… por todos… elas já viram o show inteiro – pedaço por pedaço – a cena da transa, a cena da chupada, a cena da sapatão – já cobriram todo o cais, passaram por debaixo de todas as docas e quebra-mares – o quebra-mar do pênis, o quebra-mar da vagina… é preciso ter passado por muito sexo para vir a ser anti-sexo, e SCUM, depois de terem experimentado tudo, estão prontas para outro show; elas querem sair rastejando de sob a doca, mover, decolar, ressurgir. Mas SCUM ainda não prevalece; SCUM ainda está na valeta da nossa “sociedade” que, se não for desviada da sua rota atual e se a Bomba não cair sobre ela, se precipitará para a morte. Tédio A vida numa “sociedade” feita por e para seres que, quando não estão severos e deprimidos, são uma chatice sem fim, só pode ser, quando não severa e deprimida, uma chatice sem fim. Segredo, Censura, Supressão do Conhecimento e de Idéias, e Exposições O medo mais profundo, secreto e terrível de todo macho é o medo da descoberta de que ele não é fêmea e sim macho, um animal subhumano. Embora a amabilidade, a delicadeza e a “dignidade” sejam suficientes para evitar a sua exposição num nível pessoal, a fim de evitar a exposição geral do sexo masculino e de manter a sua posição artificialmente dominante na “sociedade”, o macho precisa apelar para:

1. Censura. Respondendo por reflexo a palavras e frases isoladas, em vez de racionalmente ao sentido geral, o macho tenta impedir que sua bestialidade desperte e seja descoberta censurando não apenas “pornografia” como também qualquer obra que contenha “palavrões”, independentemente do contexto em que são usados.

2. Supressão de todas as idéias e do conhecimento que possam expô-lo ou ameaçar a sua posição dominante na “sociedade”. Grande parte dos dados biológicos e psicológicos é suprimida porque prova a total inferioridade do macho em relação à fêmea. Além disso, o problema da doença mental jamais será resolvido enquanto os machos mantiverem o controle, porque, em primeiro lugar, os homens têm um interesse investido nela – somente as fêmeas com vários parafusos a menos permitirão que os machos tenham um pouquinho de controle sobre qualquer coisa – e, em segundo, o macho não pode admitir o papel da paternidade na origem da doença mental.

3. Exposições.

O principal prazer na vida do macho – na medida em que é possível dizer que o macho obtuso, severo, consegue ter prazer com alguma coisa – é expor as pessoas. Não tem muita importância o que ele expõe, desde que as pessoas sejam expostas; isso desvia a atenção de si mesmo. Expor os outros como agentes inimigos (Comunistas e Socialistas) é um dos passatempos preferidos dele, pois com isso o que o ameaça é retirado não apenas dele mas do país e do mundo ocidental. O grande problema não está nele; e sim na Rússia. Desconfiança Incapaz de ter empatia ou de sentir afeição ou lealdade, pensando exclusivamente em si mesmo, o macho não tem senso de jogo limpo; covardemente, necessitando bajular a fêmea constantemente para ganhar a aprovação dela – sem a qual ele está perdido –, sempre tenso, temendo que sua bestialidade, sua masculinidade, seja descoberta, sempre precisando disfarçar, ele não pára de mentir; sendo vazio, não tem honra nem integridade – ele desconhece o que estas palavras significam. O macho, em resumo, é traiçoeiro, e a única atitude adequada numa “sociedade” masculina é o cinismo e a desconfiança. Feiúra Sendo totalmente sexual, incapaz de respostas cerebrais ou estéticas, totalmente materialista e ganancioso, o macho, além de impor ao mundo a “Grande Arte”, tem decorado suas cidades sem paisagens, com um esbanjamento de feiúra: ela está nos prédios (tanto por dentro quanto por fora), nos cenários, nos outdoors, nas rodovias, nos carros, nos caminhões de lixo e sobretudo em seu próprio eu podre. Ódio e Violência O macho se consome na tensão, na frustração de não ser fêmea, na incapacidade de jamais alcançar qualquer tipo de satisfação ou prazer; é consumido pelo ódio – não o ódio racional dirigido contra aqueles que te maltratam ou te insultam –, mas um ódio irracional, indiscriminado… que no fundo é o ódio pelo seu próprio eu inútil. A violência gratuita que pratica, além de “provar” que ele é um “Homem”, serve como vazão para o seu ódio e ainda – sendo o macho capaz apenas de respostas sexuais e precisando de estímulos muito fortes para animar seu eu semimorto – lhe proporciona um pouco de excitação sexual. Doença e Morte Todas as doenças são curáveis, e o processo de envelhecimento e morte deve-se à doença; é possível, portanto, nunca envelhecer e viver para sempre. De fato, os problemas do envelhecimento e da morte poderiam ser resolvidos em poucos anos caso se investisse largamente numa pesquisa científica sobre eles.

Entretanto, isso não é possível dentro do estabelecimento masculino, pois: 1. Muitos cientistas masculinos fogem da pesquisa científica, apavorados com a descoberta de que os machos são fêmeas, e mostram uma nítida preferência por programas viris, “másculos”, de guerra e morte. 2. Muitos cientistas em potencial são desencorajados a seguir carreiras científicas devido à rigidez, à chatice, às despesas, ao longo tempo necessário e à injusta exclusividade do nosso sistema educacional “superior”. 3. A propaganda disseminada por profissionais masculinos inseguros, que protegem ciosamente suas posições para que apenas um pequeno grupo altamente seleto possa compreender conceitos científicos abstratos. 4. A falta generalizada de autoconfiança gerada pelo sistema patriarcal, que desestimula a formação científica em muitas jovens talentosas. 5. Falta de automação. Hoje já existe uma grande quantidade de dados que, se ordenada e correlacionada, revelaria a cura do câncer, de muitas outras doenças e possivelmente até forneceria a chave para a própria vida. Mas os dados são tão numerosos que sua correlação completa exige computadores de alta velocidade. A instituição dos computadores será adiada interminavelmente sob o sistema de controle masculino, pois o macho tem horror à idéia de ser substituído por máquinas. 6. A necessidade insaciável que o sistema monetário tem de novos produtos. A maioria dos poucos cientistas disponíveis que não está trabalhando em programas de morte encontra-se vinculada a pesquisas para empresas. 7. O macho gosta da morte – ela o excita sexualmente e, já morto por dentro, ele quer morrer. 8. A preferência do sistema monetário pelos cientistas menos criativos. A maioria dos cientistas vem de famílias no mínimo relativamente ricas, onde o Papai reina soberano. Incapaz de um estado positivo de felicidade, única coisa que pode justificar a existência de alguém, o macho, na melhor das hipóteses, está relaxado, confortável, neutro, e essa condição dura pouquíssimo, pois o tédio, um estado negativo, logo se instala.

Portanto, ele está fadado a uma existência de sofrimento, aliviado apenas por intervalos ocasionais e fugazes de tranqüilidade – estado que atinge apenas às custas de alguma fêmea. O macho é, por sua própria natureza, um sanguessuga, um parasita emocional e, portanto, não tem direito ético à vida, já que ninguém tem direito à vida às custas de outra pessoa. Assim como os seres humanos, em relação aos cachorros, têm um direito prioritário à existência por serem mais desenvolvidos e dotados de uma consciência superior, também as mulheres têm um direito prioritário à existência em relação aos homens. A eliminação de qualquer macho é, portanto, um ato justo e bom, um ato altamente benéfico para as mulheres e também um ato de misericórdia. De qualquer modo, essa questão moral conseqüentemente se tornará acadêmica, pelo fato do macho estar, pouco a pouco, eliminando a si próprio. Além de se dedicar às clássicas guerras e aos tradicionais tumultos raciais, os homens estão cada vez mais se tornando bichas ou se destruindo através das drogas. A fêmea, queira ou não queira, acabará assumindo completamente o comando, se não por outra razão, porque não terá alternativa – o macho, para todos os efeitos práticos, não existirá. O fato de um número cada vez maior de machos estar adquirindo um interesse pessoal esclarecido acelera essa tendência; eles estão percebendo cada vez mais que o interesse da fêmea é o interesse deles, que eles só podem viver por intermédio da fêmea e que, quanto mais a fêmea for incentivada a viver, a se realizar, a ser uma fêmea e não um macho, tanto mais próximo ele estará da vida. Ele está prestes a perceber que é mais fácil e satisfatório viver por intermédio dela do que tentar se tornar ela e usurpar suas qualidades, reivindicando-as como suas, empurrá-la para baixo e afirmar que ela é macho. A bicha, que aceita a sua masculinidade, ou seja, sua passividade e total sexualidade, sua efeminação, também é mais bem servida por mulheres que sejam verdadeiramente fêmeas, pois assim seria mais fácil para ele ser macho, feminino.

Se os homens fossem sábios tentariam se tornar realmente fêmeas, concentrando esforços numa pesquisa biológica intensa que os levaria à possibilidade de, por meio de operações no cérebro e no sistema nervoso, se transformarem psicologicamente, assim como fisicamente, em mulheres. Continuar a usar fêmeas para reprodução ou reproduzir em laboratório também se tornará uma questão acadêmica: o que acontecerá quando todas as fêmeas, à partir dos vinte anos estiverem tomando pílula e não houver mais nenhum acidente? Quantas mulheres irão deliberadamente engravidar ou (se houver um acidente) permanecer grávidas? Não, as mulheres não adoram ser éguas reprodutoras, apesar de toda a baboseira dita pelas fêmeas robotizadas, que sofreram lavagem cerebral. Numa sociedade composta apenas de mulheres totalmente conscientes, a resposta será: nenhuma. Uma parcela delas deverá ser reservada compulsoriamente para servir como reprodutoras da espécie? Isso obviamente não dará certo. A resposta é a reprodução de bebês em laboratórios.

Quanto à questão de continuar ou não a reproduzir machos: do fato de que o macho, como a doença, sempre existiu entre nós não se depreende que ele deva continuar a existir. Quando o controle genético for possível – e logo será – nem é preciso dizer que deveremos produzir apenas seres completos, íntegros, e não defeitos físicos ou deficiências, inclusive as emocionais, tais como a masculinidade. Assim como seria altamente imoral a produção deliberada de pessoas cegas, o mesmo se aplicaria à produção deliberada de aleijados emocionais. Por que produzir até mesmo fêmeas? Por que deve haver gerações futuras? Qual seria o objetivo delas? Quando o envelhecimento e a morte forem eliminados, por que continuar a reproduzir? Por que deveríamos nos importar com o que acontece quando morremos? Por que deveríamos nos importar com o fato de não haver geração mais jovem para nos suceder? O curso natural dos acontecimentos, da evolução social, conseqüentemente levará ao total controle feminino do mundo e depois à cessação da produção de machos, para finalmente levar à cessação da produção de fêmeas. Mas SCUM é impaciente; SCUM não se consola com a idéia de que as gerações futuras prosperarão e quer ter alguma emoção em sua vida. E, se uma grande maioria de mulheres fossem SCUM, elas poderiam adquirir o total controle deste país dentro de poucas semanas, apenas suspendendo sua força de trabalho e com isso paralisando toda a nação. Outras medidas – qualquer uma delas seria suficiente para desintegrar completamente a economia e tudo o mais – seriam as mulheres se declararem fora do sistema monetário, pararem de comprar e somente saquear e simplesmente se recusarem a obedecer a todas as leis que não acham importantes. A força policial, a Guarda Nacional, o Exército, a Marinha de Guerra e os Fuzileiros Navais juntos não poderiam dominar uma rebelião de mais da metade da população, sobretudo quando é feita por pessoas sem as quais eles não conseguem sobreviver. Se todas as mulheres simplesmente abandonassem os homens, recusando-se a ter qualquer relação com eles, todos os homens, o governo e a economia nacional desmoronariam completamente. Mesmo sem deixar os homens, as mulheres conscientes da extensão de sua superioridade e de seu poder sobre eles poderiam adquirir controle absoluto sobre tudo dentro de poucas semanas, realizando a total submissão dos machos às fêmeas. Numa sociedade sã, o macho trotaria obediente atrás da fêmea.

O macho é dócil e facilmente conduzido, submetido sem esforços ao domínio de qualquer fêmea que queira dominá-lo. Na verdade, o macho quer desesperadamente ser conduzido pelas fêmeas, quer a Mamãe no comando, quer abandonar-se aos cuidados dela. Mas esta não é uma sociedade sã, e a maioria das mulheres não é, nem vagamente, consciente de sua situação em relação aos homens. Portanto, o conflito não é entre fêmeas e machos, e sim entre SCUM – fêmeas dominadoras, seguras, autoconfiantes, desagradáveis, violentas, egoístas, independentes, orgulhosas, em busca de emoção, que vão aonde querem, arrogantes, que se consideram preparadas para dominar o universo, que já percorreram livremente os limites desta “sociedade” e estão prontas para experimentar algo muito além do que ela tem para oferecer – e as amáveis, passivas, aprovadas, “cultas”, delicadas, dignas, reprimidas, dependentes, assustadas, tolas, inseguras, Filhinhas do Papai carentes de aprovação, que não conseguem enfrentar o desconhecido, que querem continuar chafurdando no esgoto, pois pelo menos elas o conhecem, que hesitantes, querem ficar para trás junto com os macacos, que só se sentem seguras com o Poderoso Papai ao seu lado, com um homem grande e forte em quem se apóiam e com uma cara gorda e peluda na Casa Branca, que são covardes demais para encarar a horrível realidade do que é um homem, do que é o Papai, que lançaram sua sorte ao lado do suíno, que adaptaram-se à bestialidade, sentindo-se superficialmente confortáveis com ela e desconhecendo qualquer outro modo de “vida”, que reduziram a mente, os pensamentos e as opiniões ao nível do macho, que, sem senso, imaginação e perspicácia, só podem ter valor numa “sociedade” masculina, que só conseguem ter um lugar ao sol, ou melhor, na lama, como bajuladoras, alimentadoras do ego, tranqüilizadoras e reprodutoras, que são descartadas como inconseqüentes por outras fêmeas, que projetam suas deficiências, sua masculinidade, sobre todas as fêmeas e vêem a fêmea como um verme.

Mas SCUM é impaciente demais para ter esperança e aguardar a neutralização do efeito da lavagem cerebral em milhões de babacas. Por que as fêmeas vibrantes precisam continuar a se arrastar melancolicamente ao lado dos machos estúpidos? Por que o destino daquela que é vibrante deve ser entrelaçado ao daquele que é rastejante? Por que aquela que é ativa e imaginativa deve consultar, sobre política social, aquele que é passivo e obtuso? Por que a independente tem de ficar confinada no esgoto junto com o dependente que precisa se apoiar no Papai? Meia dúzia de integrantes de SCUM poderá, dentro de um ano, assumir o controle do país ao ferrar sistematicamente o sistema, destruindo seletivamente a propriedade e assassinando: As integrantes de SCUM se tornarão membros da força de destrabalho, a força de sabotagem; elas arranjarão trabalhos de vários tipos e então começarão a destrabalhar. Por exemplo, as vendedoras de SCUM não cobrarão pela mercadoria; as telefonistas de SCUM não cobrarão pelas ligações; as militantes de SCUM que trabalharem em escritórios e em fábricas, além de sabotar seu trabalho, secretamente destruirão o equipamento. As integrantes de SCUM irão destrabalhar num emprego até serem dispensadas, então arranjarão outro emprego para destrabalhar. SCUM substituirá à força os motoristas de ônibus, de táxi e os vendedores de bilhetes de metrô. Então irão dirigir os ônibus e táxis e distribuir para o público passagens gratuitas. SCUM destruirá todos os objetos inúteis e danosos – carros, vitrines de lojas, “Grande Arte”, etc.

Posteriormente, SCUM assumirá as ondas de ar – redes de rádio e televisão – substituindo à força todos os empregados das estações de rádio e emissoras de televisão que tentarem impedir SCUM de entrar nos estúdios de transmissão. SCUM irá destruir os casais – irá se intrometer entre casais mistos (macho-fêmea), onde quer que eles estejam, e separá-los. SCUM matará todos os homens que não estiverem em seu Corpo Auxiliar Masculino. Os homens do Corpo Auxiliar Masculino de SCUM são aqueles que trabalham diligentemente para eliminar a si próprios, homens que, indiferentemente dos seus motivos, fazem o bem, colaborando com SCUM. Alguns exemplos dos homens do Corpo Auxiliar Masculino são: homens que matam homens; biólogos que trabalham em programas construtivos, em vez de se empenhar na guerra biológica; jornalistas, escritores, redatores, editores, e produtores que disseminam e promovem idéias que conduzirão à realização dos objetivos de SCUM; bichas que por seu exemplo fulgurante encorajam outros homens a se desmasculinizar, e por meio disso tornam-se relativamente inofensivos; homens que estão sempre jogando coisas fora – dinheiro, utensílios, serviços; homens que falam exatamente o que são (até agora nenhum deles fez isso), que deixam tudo em pratos limpos para as mulheres, que revelam a verdade sobre eles mesmos, que dão às fêmeas masculinas idiotas frases corretas para elas papaguearem, que lhes dizem que o objetivo principal na vida de uma mulher deveria ser acabar com o sexo masculino (para ajudar os homens nessa tarefa, SCUM realizará Sessões de Merda, nas quais todos os machos presentes farão um discurso que começa com a frase: “Sou um cocô, um humilde cocô abjeto” e depois enumerarão todos os sentidos em que eles são um cocô. Seu prêmio por fazerem isso será a oportunidade de, depois da sessão, confraternizar por uma hora inteira com a SCUM que estiver presente. Mulheres masculinas amáveis, de vida imaculada, serão convidadas a participar das sessões para esclarecerem qualquer dúvida ou mal-entendido que possam ter sobre o sexo masculino); os produtores e distribuidores de livros e filmes de sexo, que estão apressando o dia em que na tela só haverá Chupada e Foda (os machos, como os ratos que seguem atrás do flautista de Hamelin, serão atraídos pela Vagina para a sua ruína, serão vencidos e submergirão, acabando por se afogar na carne passiva que eles são); os traficantes de drogas e os advogados, que estão acelerando o desaparecimento dos homens. Estar no Corpo Auxiliar Masculino é uma condição necessária, mas não suficiente para constar na lista de poupados por SCUM – fazer o bem não é o bastante.

Para salvar seus traseiros inúteis, os homens também precisam evitar o mal. Alguns exemplos dos tipos mais detestáveis ou danosos são: estupradores, políticos e todos os que estão a serviço deles (formuladores de campanhas, membros dos partidos políticos, etc.); cantores e músicos ruins; Presidentes de Conselhos; Provedores; senhorios e latifundiários; proprietários de colheres engorduradas e de restaurantes que tocam Muzak; “Grandes Artistas”; mãos-de-vaca e caloteiros; policiais; magnatas; cientistas que trabalham em programas de morte e destruição ou para a indústria privada (praticamente todos os cientistas); mentirosos e impostores; disc-jóqueis; homens que se intrometem, mesmo que do modo mais insignificante, com mulheres desconhecidas; proprietários de imóveis; corretores da Bolsa de Valores; homens que falam quando não têm nada a dizer; homens que ficam à toa na rua e estragam a paisagem com a sua presença; vigaristas; artistas trapaceiros; homens que atiram lixo na rua; plagiadores; homens que causam às fêmeas qualquer tipo de dano, por menor que seja; todos os homens do setor publicitário; psiquiatras e psicoterapeutas; escritores, jornalistas e editores desonestos; censores, tanto do nível público quanto do privado; todos os membros das forças armadas, inclusive os convocados (Lyndon Johnson e McNamara dão as ordens, mas os soldados as cumprem) e, sobretudo, os pilotos (se a bomba for despejada, não será por Lyndon Johnson, e sim por um piloto).

Caso um homem tenha comportamentos considerados bons e outros maus, ele será avaliado de modo geral, subjetivamente, para determinar se, no saldo final, sua conduta é boa ou má. É muito tentador eliminar também, junto com os homens, as “Grandes Artistas” femininas, as mentirosas e impostoras, etc., mas isso não seria sensato, pois para a maioria das pessoas não ficaria claro que a fêmea morta era um macho. Todas as mulheres têm um pouco de delatoras, umas mais outras menos, mas isso decorre da convivência vitalícia com os homens. Eliminando-se estes, as mulheres terão um desenvolvimento melhor. Elas são capazes de aperfeiçoamento; os homens não, embora seu comportamento possa melhorar. Quando, em plena atividade, SCUM estiver na cola deles, seu comportamento logo melhorará. Concomitantemente com a sabotagem, o saque, a separação de casais, a destruição e a matança, SCUM irá recrutar. Assim, será composta de recrutadoras, os corpos de elite – as ativistas linha-dura (sabotadoras, saqueadoras e destruidoras) e a elite da elite – as matadoras. Cair fora não é a resposta; sabotar sim. A maioria das mulheres já está excluída da sociedade, elas nunca estiveram dentro. A exclusão dá o controle àquelas poucas que se impuseram; a exclusão é exatamente o que os líderes do estabelecimento querem; é a arma do inimigo; fortalece o sistema em vez de miná-lo, pois se baseia inteiramente na não-participação, na passividade, na apatia e no não-envolvimento da massa das mulheres. Cair fora, entretanto, é uma política excelente para os homens e SCUM irá incentivá-la entusiasticamente. Olhar para o seu próprio interior à busca de salvação, contemplar o próprio umbigo, não é a resposta, como as Pessoas Excluídas nos levaram a acreditar. A felicidade está fora de nós e é alcançada pela interação com os outros. A generosidade, e não a preocupação consigo mesmo, deve ser o objetivo das pessoas.

O macho, que só é capaz de pensar em si mesmo, faz de um defeito irremediável uma virtude e considera esse traço não só como um bem, mas como um Bem Filosófico, e assim ganha a reputação de profundo. SCUM não fará piquetes, demonstrações, marchas ou greves para atingir seus objetivos. Essas táticas são usadas por senhoras amáveis, finas, que escrupulosamente adotam apenas esse tipo de ação, pois são garantidamente ineficazes. Além disso, só as mulheres masculinas decentes, de vida honrada, altamente treinadas em submergir na espécie, agem na base da multidão. SCUM é composta de indivíduos, não é uma multidão, uma bolha. Em qualquer situação, só será empregado o número de militantes de SCUM necessário à sua realização. Além disso, sendo a SCUM tranqüila e egoísta, não se sujeitará a levar uma cacetada na cabeça, dada por um policial; isso acontece com senhoras amáveis da classe média, “privilegiadas e educadas”, que valorizam muito a tocante fé na bondade inerente do Papai e dos policiais. Se SCUM alguma vez marchar, será sobre a cara idiota e nauseante do presidente; se SCUM atacar, será no escuro com uma lâmina de seis polegadas. SCUM sempre se baseará na ação criminal em oposição à desobediência civil, ou seja, em oposição a transgredir abertamente a lei e se deixar prender a fim de chamar atenção para uma injustiça. Essas táticas reconhecem a justiça do sistema como um todo e são usadas apenas para modificá-lo ligeiramente, para mudar leis específicas. SCUM se opõe ao sistema inteiro, às próprias idéias de lei e de governo. SCUM quer destruir o sistema, e não simplesmente conseguir alguns direitos dentro dele. Além disso, a SCUM – sempre egoísta, sempre tranqüila – tentará evitar a prisão e a punição. E pretende sempre ser furtiva, sorrateira, clandestina (embora o trabalho das assassinas SCUM venha sempre a ser reconhecido, por sua alta qualidade).

A destruição e os assassinatos serão seletivos e bem determinados. SCUM é contra os tumultos enlouquecidos, indiscriminados, sem nenhum objetivo claro e nos quais muitas das nossas próprias militantes são eliminadas. SCUM jamais irá instigar, incentivar ou participar de tumultos de qualquer tipo ou de qualquer forma de destruição indiscriminada. Ela se aproximará de sua presa em silêncio, tranqüila e furtivamente, e então matará com frieza. A destruição nunca será de tal modo que leve ao bloqueio das vias necessárias, ao transporte de alimentos e outros artigos essenciais, à contaminação ou ao corte do fornecimento de água, ao bloqueio de ruas e do tráfego a ponto de as ambulâncias não poderem avançar ou à inviabilização do funcionamento dos hospitais. SCUM continuará destruindo, saqueando, sabotando e matando até que o sistema dinheiro-trabalho não exista mais e a automação tenha sido totalmente instaurada ou até que um número suficiente de mulheres coopere com SCUM para tornar a violência desnecessária à consecução desses objetivos, ou seja, até que um número suficiente de mulheres destrabalhe ou deixe de trabalhar, comece a saquear, deixe os homens e se recuse a obedecer a todas as leis inadequadas a uma sociedade verdadeiramente civilizada. Muitas mulheres se corrigirão, mas muitas outras, rendidas de longa data ao inimigo, tão adaptadas à bestialidade e à masculinidade, que aprenderam a gostar das restrições e limitações, que não sabem o que fazer com a liberdade, continuarão a ser bajuladoras e capachos, do mesmo modo como os camponeses das plantações de arroz continuam a ser camponeses das plantações de arroz quando um regime é substituído por outro.

Algumas das mais instáveis irão choramingar e ficar emburradas, atirando no chão seus brinquedos e panos de pia, mas SCUM continuará a avançar implacavelmente sobre elas. Uma sociedade totalmente automatizada pode ser alcançada de modo muito simples e rápido, desde que haja uma demanda pública por ela. Os projetos para ela já existem, e sua construção levará apenas algumas semanas com milhões de pessoas trabalhando. Mesmo fora do sistema monetário, todas as pessoas ficarão muito contentes em trabalhar e construir uma sociedade automatizada; isso vai assinalar o início de uma nova era fantástica, e a sua construção será feita num clima de comemoração. A eliminação do dinheiro e a instauração plena da automação são elementos básicos para todas as outras reformas de SCUM; sem elas, as outras não poderão existir; com elas, as outras ocorrerão muito rapidamente. O governo desmoronará automaticamente. Com a completa automação, todas as mulheres poderão votar em todas as questões diretamente, por meio de uma máquina eletrônica de votação que terão em casa. Uma vez que o governo se ocupa quase totalmente com a regulação dos assuntos econômicos e com a legislação sobre questões puramente privadas, a eliminação do dinheiro e, com ela a eliminação dos machos que querem legislar a “moralidade” não deixará praticamente nenhuma questão para ser votada. Depois de eliminar o dinheiro não haverá mais necessidade de matar os homens; eles serão privados do único poder que têm sobre as fêmeas psicologicamente independentes. Eles só serão capazes de se impor às mulheres capachos, que gostam de ser dominadas.

As outras estarão ocupadas solucionando os poucos problemas que ainda não foram resolvidos e depois planejando seu programa para a eternidade e Utopia – renovando totalmente os programas educacionais, que possibilitarão a milhões de mulheres serem preparadas em poucos meses para o trabalho intelectual de alto nível, que hoje exige anos de formação, (isso pode ser feito facilmente, já que o nosso objetivo educacional é educar, e não perpetuar uma elite acadêmica e intelectual); resolvendo os problemas da doença, da velhice e da morte e reprojetando radicalmente nossas cidades e bairros. Muitas mulheres continuarão durante algum tempo a pensar que gostam dos homens, mas à medida que forem se acostumando à sociedade feminina e se concentrando em seus projetos, elas acabarão por perceber a total inutilidade e banalidade do macho. Os poucos homens remanescentes poderão viver seus minguados dias viajando com drogas, se pavoneando como drag queens ou observando passivamente as poderosas fêmeas em ação, satisfazendo-se como espectadores, vivendo por meio delas (*), ou procriando no pasto com as bajuladoras; ou podem ainda ir até o centro de suicídio mais próximo, onde serão levados tranqüila, indolor e rapidamente à morte por inalação de gás.

Por Valerie Solanas

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(*) Nota de rodapé: Será eletronicamente possível para ele se sintonizar em alguma fêmea específica que ele queira para seguir em detalhes cada movimento dela. As fêmeas, de modo gentil e prestativo, consentirão com isso, ao passo que isso não as prejudicará de maneira nenhuma e será um modo maravilhosamente bom e humano de tratar seus desafortunados camaradas em desvantagem. ————————————————————————————————

- Antes da instauração da automação, da substituição dos homens pelas máquinas, o macho será útil para a fêmea, a servirá, satisfará a todos os seus caprichos, obedecerá a todas as suas ordens, será completamente subserviente a ela, existirá em perfeita obediência à sua vontade, ao contrário da atual situação, totalmente aberrante, degenerada, na qual os homens – além de não terem nenhuma existência, congestionando o mundo com a sua presença ignominiosa – são alimentados em seu ego pela massa de mulheres que se curvam diante deles, milhões de fêmeas que veneram o Bezerro de Ouro, o cão levando seu dono pela coleira. Quando na verdade o macho, quase uma drag queen, é menos miserável ao ter seu caráter canino reconhecido – não lhe fazem exigências emocionais incompatíveis com a realidade e as decisões são tomadas pelas fêmeas em conjunto. Os homens sensatos querem ser pisoteados, esmagados e triturados, tratados como a insignificância, a imundície que são, querem ver confirmada a sua repugnância. Os homens doentes, irracionais, aqueles que tentam se defender de sua repulsividade, quando virem SCUM avançando em direção a eles, se agarrarão aterrorizados à Grande Mamãe com suas Grandes Tetas Balouçantes, mas as Tetas não o protegerão de SCUM. A Grande Mamãe vai estar agarrada ao Grande Papai, que estará na esquina se borrando nas calças. Os homens sensatos, entretanto, não irão chutar, lutar ou protestar em desespero. Eles simplesmente se sentarão tranqüilos, se divertirão com o espetáculo e flutuarão nas ondas do seu desaparecimento.

 

Escola sem homofobia - direito à diferença

A crescente disposição de significativos setores da sociedade em discutir questões relativas à diversidade sexual vem encontrando correspondência no plano das políticas públicas. O reconhecimento da legitimidade das diferenças dá uma dimensão cada vez mais concreta da formação cidadã para a diversidade. Isso é fator essencial para garantir inclusão, promover igualdade de oportunidades e enfrentar preconceito, discriminação e violência, que requerem políticas educacionais que contemplem suas especificidades.

A homofobia no espaço escolar é grave. Abala a autoestima, leva a baixo rendimento e ao abandono escolar. Dados do Centro de Apoio a Diversidade Sexual de São Paulo revelam que apenas 17% dos transgêneros chegam ao ensino superior. Entre os homossexuais que não apresentam identidade transgênera, esse número salta para 41% e para 50% entre os bissexuais.

A escola, e, em particular, a sala de aula, é um lugar privilegiado para se promover o reconhecimento da pluralidade das identidades e dos comportamentos relativos a diferença. Como espaço de construção de conhecimento e de desenvolvimento do espírito crítico, onde se formam sujeitos e identidades, a escola deve ser uma referência para respeito, acolhimento e diálogo com a diversidade. Um local de questionamento das relações de poder e de análise dos processos sociais de produção de diferenças e de sua tradução em desigualdades, opressão e sofrimento.

O Ministério da Educação, ciente de suas responsabilidades em relação ao tema, criou o projeto Escola sem Homofobia, que prevê a distribuição para as escolas públicas de ensino médio do País, de material - vídeos, livretos, cartilhas – como suporte pedagógico. O material recebeu aprovação da representação da Unesco no Brasil e foi submetido à apreciação do Conselho Federal de Psicologia, que emitiu parecer favorável, enfatizando que a homossexualidade expressa nas diversas identidades de gênero e orientações sexuais compõe parte das possibilidades sexuais do humano, que também inclui a heterossexualidade.

O Conselho considera o material adequado às faixas etárias e de desenvolvimento afetivo-cognitivo a que se destinam, com linguagem contemporânea e de acordo com a problemática enfrentada na escola: agressões físicas ou psicológicas a pessoas ou grupos que são permanentemente intimidados e coagidos. Avalia que a produção é bem articulada, com qualidade visual, representa material de vanguarda, pois é instrumento de formação continuada para o próprio professor.  Convida o educador a voltar-se para o compromisso ético das competências profissionais, no enfrentamento do sofrimento de adolescentes homossexuais.

Com a aprendizagem do respeito à identidade e à orientação sexual do outro, do que é diferente e por vezes considerado minoria - principal objetivo do projeto -, fortalece-se uma educação inclusiva, já que as diferenças são constitutivas nas diversas sociedades, contextos sociais e culturas.

Por fim, faz uma provocação, afirmando que importante seria que outros projetos dessa natureza pudessem ser veiculados também em outras redes sociais e na mídia em geral. Tais projetos poderiam discutir os preconceitos que atravessam a sociedade brasileira e que se manifestam no racismo, na homofobia, na violência contra os pobres, os idosos, às pessoas com deficiência, enfim, os segmentos que, tradicionalmente, são excluídos e violentados em seus direitos sociais e humanos. Salienta que o projeto amadurece o Brasil como exemplo de democracia participativa, que não teme enfrentar os gigantescos obstáculos para se garantir avanços na área dos direitos humanos.

Enquanto isso, antes que o material seja aprovado pelo MEC – ainda está sob análise -, um grupo de deputados, tradicionalmente refratário a essa temática, já se movimenta para desqualificar a ação sem conhecer o seu conteúdo. É salutar que questões dessa natureza sejam amplamente debatidas pela sociedade, mas espera-se que não prevaleçam posições preconceituosas que venham a impor retrocessos no lugar de ampliar direitos iguais para todos.

Tânia Miranda, historiadora, mestre em educação
tania.miranda@terra.com.br

Contra o Amor- Entrevista com Laura Kipnis

Veja – Ou seja, enquanto antes as pessoas sofriam porque os casamentos eram arranjados, hoje sofrem porque acham que devem encontrar a pessoa ideal?
Laura – Exato. Imagine alguém dizer que é contra o amor. É considerado um herege. As propagandas, as novelas, os filmes, os conselhos dos parentes, tudo contribui para promover os benefícios do amor. Deixar de amar significa não alcançar o que é mais essencialmente humano. O casamento é envolto pelo mesmo tipo de cobrança. E, quando cai por terra a expectativa do romance e da atração sexual eternos, surge a pergunta: "O que há de errado comigo?". O diagnóstico dos terapeutas é "inabilidade para se estabelecer" ou "imaturidade". Não é à toa que as pessoas consomem cada vez mais antidepressivos. A questão que eu coloco é: talvez o problema não seja do indivíduo, mas da incapacidade do casamento em cumprir as promessas de felicidade.

Veja – E por que o casamento não satisfaz?
Laura – O casamento transforma pessoas agradáveis em tiranos domésticos. Criticar os hábitos do parceiro torna-se a conversa-padrão do casal e a diversão favorita passa a ser modificar o comportamento do cônjuge. Existe algum momento na vida do casal que não seja permeado por regras, desde o modo como você coloca os pratos na máquina de lavar louça até o que pode dizer em uma festa?

Veja – A instituição casamento vai desaparecer?
Laura – Nos Estados Unidos, o índice de divórcio é de 50%, o que dá uma idéia da fragilidade da instituição. Além disso, a proporção de casas sustentadas por solteiros está aumentando. Mas eu não acho que a instituição casamento vá acabar. Vai, isso sim, mudar muito. A primeira mudança é econômica. Cada vez mais os cônjuges têm independência financeira um do outro. A segunda mudança é que mais e mais jovens estão tratando seu primeiro casamento como algo temporário. Ou seja, as pessoas começam um casamento no qual elas já imaginam que não vão ficar. É só mais uma experiência de vida.

Veja – Como salvar um casamento?
Laura – Aí é que está. Para que tentar salvar um casamento fracassado? A verdade é que há uma indústria enorme que lucra com a infelicidade no casamento. Você tem drogas como o Viagra, para resolver o problema da falta de desejo, tem terapia, livros de auto-ajuda, pornografia para casais e antidepressivos. A impressão que se tem é que o maior beneficiado com a manutenção do casamento não é o indivíduo em si, mas a sociedade em geral. O indivíduo está cada vez mais estressado e deprimido porque é infeliz no casamento.

Veja – Nelson Rodrigues, um dramaturgo brasileiro, escreveu que a fidelidade deveria ser opcional, não obrigatória. A senhora concorda?
Laura – Concordo. Na maioria das vezes as pessoas optam pela fidelidade, ao mesmo tempo que a consideram uma obrigação. Há tanta pressão social nesse terreno que é difícil separar o que é opção pessoal do que é imposição. Há duas formas de pressão pela fidelidade. A primeira, entre quatro paredes, é o ciúme, um sentimento inquestionável. Ninguém gosta que o parceiro olhe para outra pessoa. E muitos se sentem no direito de controlar os movimentos do companheiro, para ter certeza de que não estão sendo traídos. Claro que isso é fruto da insegurança e do medo de ser abandonado. Pode ser um paradoxo, mas os desejos do parceiro acabam se tornando uma ameaça. A outra forma de pressão pela fidelidade é social. A sociedade é baseada no princípio de que o desejo pode ser controlado. Por isso, o desejo expresso fora do casamento é anti-social, porque ele promove instabilidade, em oposição a um relacionamento estável.

Veja – O mesmo vale para a pornografia?
Laura – A pornografia é central em nossa cultura. Nos Estados Unidos, movimenta uma indústria de 9 bilhões de dólares. E está se tornando cada vez mais disponível com a popularização da internet. Há um aspecto utópico na pornografia. Sua regra é a transgressão. Como as pessoas não estão recebendo tanto prazer como desejam, porque a expectativa em relação ao sexo vai além do que a realidade oferece, elas procuram a resposta para sua realização pessoal em outro lugar. E é nisso que a pornografia se aproxima do adultério: ambos são complementos que ajudam a sustentar relacionamentos estáveis e insatisfatórios.

Veja – Solteiros são mais felizes que pessoas casadas?
Laura – Aparentemente não. O solteiro é tratado como um perdedor. Estava assistindo a Sex and the City (seriado americano cujas personagens principais são solteiras) ontem à noite e essa era justamente a questão que estava sendo colocada. É difícil falar de felicidade se você vai contra a norma social, que é casar-se e constituir um lar tradicional.

http://veja.abril.com.br/190504/entrevista.html

 

Onde "está" a sexualidade?

Que lógica é essa que nos faz utilizar essas perguntas marcadas pelo “ou” e não pelo “e”?
Por que o sexo do indivíduo importa tanto?
Será porque achamos que a partir desta definição “todo o resto” estará resolvido???

Ainda hoje, proliferam os discursos em torno da sexualidade e, dentre outros campos, a medicina segue exercendo intensos efeitos de verdade em nossa sociedade. Aliando o prazer à saúde, os discursos médicos ampliam seu campo de atuação, divulgando “verdades” que costumam vir com um “selo de garantia” de que “foi comprovado cientificamente...”- e isto as tornam, muitas vezes, inquestionáveis.
Nos textos publicados em atualizados sites na Internet brasileira/mundial o que mais se encontra são dicas, orientações, precauções sobre sexualidade, direcionadas muito mais ao público feminino do que ao masculino. Por que será?

Privatiza-se um jeito de viver a sexualidade (matrimônio, monogâmico, heterossezual), enquando se “denunciam publicamente” todos os outros jeitos de vivê-la que não se enquadrem nesta norma.
Anseia-se pelo estabelecimento de uma norma.
Fabricam-se normas e fronteiras.
As normas afinal tornam-se visíveis apenas a partir da sua diferença, ou seja, o normal só é nomeado em função do que não é normal.
E a classificação se dá a partir da medida da distância entre o sujeito e a linha tênue da fronteira chamada norma.

Ao longo do tempo observamos, contudo, mudanças nos significados atribuídos à norma:
O sentido de “normal” nos séculos XVI e XVII era: retangular, perpendicular, posicionado em ângulo reto.
Em seu sentido atual, entretanto, a palavra revela nitidamente conotações dadas no século XIX: normal no sentido de regular (1929); escola normal para treinamento de professores (1834), normal do sentido de média em física (1859); normalizar (1865); normativo (1880) e normal no sentido de comum (1890).
A sua referência já não é o esquadro, mas a média, a norma toma agora o seu valor de jogo das oposições entre o normal e o anormal ou entre o normal e o patológico.
A partir do século XVIII, o normal se estabelece como princípio de coerção no ensino.

A partir do século XIX a norma passa a diferenciar-se de regra, vai designar ao mesmo tempo um certo tipo de regras, uma maneira de as produzir e, sobretudo, um princípio de valorização.
A norma, diferentemente da lei e de outras regras, funciona de forma que nem a percebamos, pois quanto mais eficiente é a norma, menos ela “aparece” como tal; ou seja, o objetivo maior da norma é se fazer presente, sem ser vista- normalizando comportamentos, pensamentos, atitudes, a partir de discursos que, em geral, são carregados de legitimidade e poder.
E por mais que a norma esteja em pleno funcionamento, ou melhor, para que de fato funcione, ela precisa do que está fora dela exatamente para se diferenciar e “garantir” seu espaço de “normalidade”.

A norma precisa de um atento investimento contínuo para poder se manter como tal.

É preciso reconhecer que foi a partir do final do século XIX que as chamadas sexualidades desviantes tornaram-se alvo de estudos, pesquisas, investigações, intervenções, terapêuticas, normalizações.

Nascia a sexologia. Inventavam-se tipos sexuais, decidia-se o que era normal ou patológico e esses tipos passavam a ser hierarquizados. Buscava-se tenazmente, conhecer, explicar, identificar e também classificar, dividir, regrar e disciplinar a sexualidade.
Tais discursos, carregados da autoridade da ciência, gozavam do estatuto de verdade e se confrontavam ou se combinavam com os discursos da igreja, da moral e da lei.

Surgem muitos manuais, dentre eles, os de psicopatologia (que abordarão num capítulo específico as chamadas disfunções sexuais e perversões- como o DSM- Manual de Diagnóstico em Saúde Mental), os manuais da Igreja Católica (que tratarão como desvios todas as práticas que não se conformam às suas regras), os manuais para educar crianças, adolescentes, esposas, enfim, manuais que tentarão, ao longo do tempo, demarcar os limites do normal e do anormal, do certo e do errado, indicando caminhos para “curar” ou se “converter” das possíveis aberrações e anormalidades que o sujeito, por descuido às normas, acabou “contraindo”.
Tenho uma impressão de que quando a sexualidade entra em questão, o exercício dessas normas se intensifica, porque “o perigo e o pecado moram ao lado”.

Os significados que damos à sexualidade e ao corpo são socialmente organizados, sendo sustentados por uma variedade de linguagens que buscam nos dizer o que o sexo é, o que ele deve ser e o que ele pode ser.

Nessa hierarquia, o casal heterossexual monogâmico com filhos/as estaria no topo da norma desejada e quanto mais o sujeito se afasta desta norma, tanto mais sofrerá uma desvalorização e uma insistência para que “retorne” à norma.

Assim como existe uma pedagogia que poderíamos chamar de escolar, existem inúmeras pedagogias culturais ocorrendo e concorrendo por espaços de poder e visibilidade em nossa sociedade.
Louro (2000) refere-se a “pedagogias da sexualidade” que seriam os diversos mecanismos que, de uma forma ou de outra, “ensinam” modos de viver a sexualidade, os prazeres, os desejos, as vontades; promovem valores, crenças e comportamentos em torno da sexualidade nas mais variadas instâncias sociais.

Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigido a uns e outros.
Não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os discursos.

A heterossexualidade é concebida como “natural” e também como universal e normal. Aparentemente supõe-se que todos os sujeitos tenham uma inclinação inata para eleger como objeto de seu desejo, como parceiro de seus afetos e de seus jogos sexuais alguém do sexo oposto.
Consequentemente, as outras formas de sexualidade são constituídas como antinaturais, peculiares e anormais.
É curioso observar, no entanto, o quanto essa inclinação, tida como inata e natural, é alvo da mais meticulosa, continuada e intensa vigilância, bem como do mais diligente investimento.

As professoras, frequentemente, acabam se tornando “vigilantes” da possível orientação sexual das crianças.
A preocupação com os meninos parece ainda maior quando eles brincam de bonecas ou mesmo quando brincam em demasia com as meninas.

As coisas se complicam ainda mais para aqueles e aquelas que se percebem com interesses ou desejos distintos da norma heterossexual.
A esses restam poucas alternativas: o silêncio, a dissimulação ou a segregação.
A produção da heterossexualidade é acompanhada pela rejeição da homossexualidade.
Uma rejeição que se expressa, muitas vezes, por declarada homofobia.

A moldagem dos corpos, seu disciplinameto é não apenas um dos componentes centrais do currículo, mas provavelmente um de seus efeitos mais duradouros e permanentes.

Percebe-se que é recorrente a idéia de que o desenvolvimento da sexualidade se dá de forma evolutiva, em etapas cujas manifestações características são definíveis, observáveis e, dentro do possível, corrigíveis.

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A tarefa mais urgente talvez seja exatamente desconfiar do que é tomado como “natural”.

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Onde "está" a sexualidade?: representação de sexualidade num curso de formação de professores.
Patrícia Abel Balestrin

 

Orientação Sexual: Preconceito, Ideologia e Fraude.

É da concepção naturalizadora da sexualidade que decorre a idéia segundo a qual nos cromossomos e nos hormônios estariam pré-fixadas as essências masculina e feminina que marcariam o desejo sexual e o destino social de homens e mulheres.

Generalizações como estas ignoram a diversidades das culturas, a variabilidade das famílias, mesmo que apenas no interior das sociedades ocidentais, assim como a amplitude, a variabilidade e o dinamismo das relações humanas que engendram a biografia de cada indivíduo, incluindo aí a sua sexualidade- esta seguramente não sendo construída apenas pelas relações que se produzem no microcosmo familiar e na infância.

Conceber a sexualidade do indivíduo em termos de orientação sexual (e esta como atração, fantasia e desejo direcionados a indivíduos de outro, do mesmo ou de ambos os gêneros) é quase um consenso entre especialistas hoje.
Para evitar a substancialização da orientação sexual, é importante trazer a reflexão sobre o assunto para o terreno da reflexão antropológica e sociológica: a orientação sexual é uma construção subjetiva, certo!, como desejo é singular e em grande medida inconsciente, mas é igualmente uma construção de caráter social.
Constituída de prazeres, sensações, fantasias, imaginação, práticas eróticas, etc., a orientação sexual é construída nos embates subjetivos e sociais, produzidos nas interações, a partir de padrões culturias, relações de poder, idéias sociais, configurando-se como um fenômeno individual tanto quanto coletivo.

Uma orientação sexual expressa a plasticidade e as possibilidades humanas no terreno da sexualidade, como em outros.

A própria normalidade não é mais do que uma construção simbólica reversível, mas que, para se perpetuar, procura todos os meios de sua naturalização e divinização.

Técnicas sobre a Gênese da Homossexualidade: ideologia, preconceito e fraude.
Alípio de Sousa Filho. (2009)

 

Repensando algumas questões sobre a Orientação Sexual nas Escolas

No entanto, ainda que de acordo com alguns desses argumentos, ao invés de criticar a intervenção escolar ou propor alguma solução, gostaria aqui de problematizar essa questão de uma outra maneira. Por que o tema da sexualidade exige uma abordagem tão diferenciada?
Por que essa demanda de que o ensino sobre reprodução ultrapasse a biologia enquanto o mesmo não é demandado do sistema respiratório, circulatório ou digestório?
Por que questões ligadas ao sexo precisam ser ensinadas de modo distinto de questões ligadas à alimentação ou à respiração, por exemplo?
Por que uma proposta curricular nacional como os PCN cria um tema transversal específico sobre esse assunto intitulado “Orientação Sexual”?
Considerando a existência de um outro, chamado Saúde, cabe ainda questionar por que a Orientação Sexual não está incluída no tema Saúde, merecendo, ao contrário, um
tratamento específico e privilegiado?

Há algo que perpassa todas essas críticas e problematizações em relação à atuação escolar: a busca de uma intervenção mais eficiente. Há uma forte demanda de resultados, em outras palavras, uma busca constante de mudar ou adequar os dispositivos que estruturam os comportamentos preventivos.
Busca-se o aprimoramento das técnicas de prevenção, considerada a melhor estratégia frente a diversas doenças. Por sua vez, a prevenção de DSTs e da AIDS, bem como de uma gravidez, depende, em grande parte, da mudança de comportamentos sexuais. É essa busca que justifica a implementação de políticas preventivas na escola, como a educação sexual e o NAM.
Através de técnicas de poder diversas, fundamentadas em determinados campos de saber, pretende-se levar os/as adolescentes a “incorporarem a mentalidade preventiva e a praticarem sempre” (BRASIL, 1998, p. 328).

Conforme será demonstrado, o que marca a diferença entre a escola e outros espaços é ela ser recorrentemente apontada como o local onde se tem acesso a explicações, a informações mais detalhadas e confiáveis, em outras palavras, informações tidas como científicas e, portanto, consideradas verdadeiras. Que “verdade” é essa sobre o sexo que a escola ensina?

Se antes a televisão já mostrara um parto, agora eles passam a ter informações detalhadas, não apenas sobre o parto em si, mas sobre o que lhe antecede: o ciclo menstrual, a fecundação e a gestação. Se já haviam ouvido falar sobre AIDS, através da escola conhecem outras DSTs, seus sintomas e a única forma de preveni-las: a
camisinha. Se já tinham ouvido falar da camisinha masculina, a escola lhes ensina a como utilizá-la e lhes apresenta a desconhecida camisinha feminina. Se já sabiam que existia gravidez, agora aprendem que existe “gravidez precoce”, a qual pode ser prevenida não apenas por camisinha, pílula anticoncepcional e coito interrompido, mas por outros métodos anticoncepcionais: DIU (Dispositivo Intra-
Uterino), diafragma, gel espermicida, entre outros.

Através de uma “aula prática”, realizada no “laboratório”, os/as adolescentes foram instruídos/as sobre o funcionamento dos métodos, seus efeitos, indicações e contra-indicações e, principalmente, como usá-los. Segundo os/as estudantes, essa foi a primeira vez que viram uma camisinha feminina e a primeira vez que lhes foi ensinado como usar a camisinha masculina. Essa última já era conhecida por todos/as, mas não a técnica correta de utilização. Cada um dos métodos – pílula anticoncepcional, gel espermicida, diafragma, DIU, camisinha feminina e camisinha masculina – foi apresentado e explicado. A camisinha masculina, método mais recomendado aos/às adolescentes, foi o último e representou também o momento ápice da aula.
Risadas e cochichos por toda a turma, quando a professora retirou da bolsa uma camisinha e uma prótese peniana para a demonstração. Com a ajuda de uma exparticipante do NAM, ela mostrou como deve ser utilizada: o pênis deve estar
ereto tanto para colocá-la quanto para retirá-la, não se deve usar tesoura para abrir o invólucro e é preciso ter cuidado para não rasgá-la com a unha, deve-se tirar o ar da ponta para não estourar, não deve ser utilizada concomitantemente à camisinha feminina, após ser usada uma vez deve ser jogada fora etc.

Busca-se, por exemplo, privilegiar uma dimensão psicológica na abordagem do tema – mesmo que ela nem sempre obtenha êxito. Exemplo disso é a grande importância dada à “auto-estima”. Esta é considerada como sendo fundamental para que adolescentes adotem uma prática preventiva, motivo pelo qual, são criadas inúmeras dinâmicas com o objetivo de “resgatar a auto-estima”. Também nos PCN essa preocupação está presente. A abordagem do tema “corpo: matriz da sexualidade” deve buscar “favorecer a apropriação do próprio corpo pelos adolescentes, assim como contribuir para o fortalecimento da auto-estima e a conquista de maior autonomia” (BRASIL, 1998).

Se a escola tem como objetivo esclarecer, ampliar as informações dos adolescentes sobre temas ligados à sexualidade, esta pesquisa mostra que ela o faz.
Disse Ana Beatriz (13): “Eles conversam um pouco com a gente, aí aqui na escola eles explicam mais, melhor. Explicam mais do que nossos pais. Dão detalhes.”
No entanto, não é qualquer conhecimento que ela se propõe difundir. Qualquer forma de conhecimento é sempre perspectiva, parcial e, portanto, implica igualmente em desconhecimentos. O saber que a escola transmite sobre sexualidade é primordialmente oriundo das ciências biológicas e, na medida em que se apresenta como um conhecimento científico, propõe-se verdadeiro.

Em nossa sociedade, o que confere valor de verdade a um determinado discurso é seu caráter científico. Segundo Foucault, (1995: 12) cada sociedade tem o seu regime de verdade, isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir enunciados verdadeiros de falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.

“Não são adequados métodos diretivos de ensino, do tipo aula expositiva”. Deve-se, ao contrário, privilegiar a participação do aluno, estimulando-os a compartilhar suas experiências com o grupo.
Aqui, o que gostaria de mostrar é que a escola interfere no conhecimento trazido pelos estudantes, negando-o ou apresentando-o sob uma nova perspectiva, demarcando-o com um certo crivo de verdade – ainda que ela nem sempre seja aceita. O efeito de verdade produzido pela escola na sua versão dos fatos pode ocorrer de diversas maneiras: ensinando termos corretos, se contrapondo aos mitos, ao discurso religioso, à postura familiar, entre outros. Em suma trata-se de uma verdade “científica”.

A própria frase da professora já começa a responder a essas questões: conhecer o corpo do homem e da mulher exige o conhecimento de seus órgãos e suas finalidades. Esse conhecimento é profundamente marcado pelo campo das ciências biológicas: divide-se o corpo em partes e cada uma delas é estudada a partir da sua funcionalidade. Outrossim, trata-se de conhecer o corpo do homem e o corpo da mulher. Eis aí uma outra divisão importante entre os corpos: eles são masculinos ou femininos, suas diferenças são determinadas a partir de seus órgãos sexuais, seus genes e seus hormônios.

Os funcionamentos de cada uma das partes dos aparelhos reprodutores são explicados. “A função do pênis é lançar espermatozóides e urinar.” A vagina é assim definida no livro: É um canal que liga o útero com o meio externo. Durante a relação sexual, a vagina acomoda o pênis, sendo nela depositado o esperma. É também através da vagina
que a criança será conduzida ao meio externo, durante o parto.

A educação sexual na escola é, antes de tudo, uma educação sobre reprodução e o corpo que fundamenta esse ensino é um corpo orgânico e funcional, conhecido primordialmente a partir de seu interior.

Do mesmo modo, a prevenção da gravidez acabava sendo considerada uma questão feminina. Vale notar que historicamente não se produziu, ou ao menos não se disponibilizou, métodos anticoncepcionais masculinos do mesmo modo que se fez em relação à mulher: para elas, pílula, DIU, diafragma, camisinha feminina, hormônios injetáveis, laqueadura, entre outros; para eles, vasectomia e camisinha. Como mostra Emily Martin (1996), foram realizadas mais investigações sobre a reprodução feminina, permitindo que as responsabilidades do controle da natalidade ficasse a cargo das mulheres.

Vemos aqui que, hoje em dia, a entrada na sexualidade adulta é subordinada
ao que Michel Bozon chama de uma “poderosa obrigação de proteção”:
À norma contraceptiva acrescentou-se a norma do uso da camisinha desde a primeira relação, iniciada com as campanhas de prevenção da aids e que se impôs em apenas alguns anos. Isso traduz algo mais além do medo da contaminação: a adoção da camisinha no repertório sexual juvenil cria um ritual reconhecido que, diante da incerteza da fase de experiência no início de um relacionamento, organiza
e estabelece uma atitude socialmente “responsável” na relação sexual.

Elas pretendem que a primeira relação sexual ocorra numa relação estável: para a maioria delas numa relação de namoro, para algumas, ligadas à igreja, após o matrimônio. No entanto, isso, por si só, não é suficiente, pois dentro desse critério está inserido um outro duplo critério temporal referente à durabilidade da relação: ela já deve existir a algum tempo e deveria continuar a existir após o ato sexual.
Pode-se dizer que a temporalidade do ingresso na sexualidade adulta é regulada não só pela idade da garota, mas também pela duração e perspectiva futura da relação. Podemos observar aqui algo destacado também em outras pesquisas (BOZON e HEILBORN, 2001): a experiência sexual propriamente dita aparece para essas meninas como conseqüência da consolidação de um vínculo amoroso.

Conversando com elas, pode-se perceber que valorizam a virgindade a partir da intensa atenção dada a primeira relação sexual. Essa passagem não aparece sendo motivada por “curiosidade”, elas não pretendem que “aconteça por acontecer”. Ao contrário, manifestam uma clara vontade que esse momento seja planejado, “elaborado”, “consciente”, que ocorra com a “pessoa certa”, num determinado
tipo de relação e em um momento específico da trajetória dessa relação.

A responsabilidade aparece como algo imprescindível para a adoção de uma prática preventiva, no que se refere a doenças, à gravidez e à privacidade. Emerge aqui novamente uma sobreposição entre corpo e intimidade como foco de fortes preocupações preventivas que perpassam todo o trabalho escolar de educação sexual.

Essa opinião, no entanto, não era partilhada pela professora. Sua mensagem
final em torno desse debate foi de que, antes de uma relação sexual, as pessoas
devem conversar, se conhecer melhor, o que inclusive facilita o uso da camisinha.
Também em outros momentos, o uso do preservativo aparece como dependente de
uma negociação que passa por uma suposta conversa. A necessidade de usá-lo é
apresentada dentro de uma relação ideal e não considerando as diversas
possibilidades de relação entre duas pessoas. Mais do que prescrever o uso do
preservativo, prescreve-se um tipo de relação: heterossexual e com algumas etapas
a serem seguidas.
Assim, a importância da camisinha é destacada sempre dentro de um padrão idealizado de relacionamento e não dentro de relacionamentos sexuais de um modo geral, independentemente de quais sejam suas características
e configurações. Outras formas de relacionamento são, direta ou indiretamente,
desvalorizadas ou, no mínimo, não consideradas.

O debate não é guiado, por exemplo, no sentido de “como um casal, que se
conhece em um baile funk e acaba transando na mesma noite, usa camisinha”. O
curso do debate é de que esse casal não deve transar já na primeira noite, mas
esperar, se conhecer melhor e só então ter relações sexuais e usar camisinha. Além
disso, o casal que aparece nessas situações é sempre de um garoto e uma garota,
ou seja, heterossexual. Não são construídas situações com relações homossexuais
nas quais a camisinha deveria ser usada.

Além disso, esse modo de divulgação do uso da camisinha pressupõe racionalização e controle da relação, a qual não é relacionada ao inesperado ou até mesmo ao descontrole. Essa expectativa de controle subjacente à prática educativa
parece pouco condizente com a realidade, conforme têm atestado vários estudos. Na cultura brasileira, a sexualidade masculina hegemônica é freqüentemente associada ao descontrole e racionalizar os “impulsos sexuais” acaba sendo visto como não condizente com a virilidade. A fala do aluno Manfred (14), “Na hora a gente não pensa em nada, só pensa em transar, transar, transar!”, é exemplar nesse sentido.

Nesse exemplo, vê-se novamente a prescrição de um tipo de relacionamento “etapista”. Na medida em que os/as docentes imaginam os/as adolescentes
irresponsáveis, despreocupados com a primeira relação sexual, ingressando na
sexualidade adulta precocemente, buscam intervir nas suas relações, a fim de
torná-los responsáveis, adiando essa passagem. O uso de algum preservativo ou
algum outro método anticoncepcional se inseriria dentro desse padrão ideal de
relação. No entanto, na medida em que as relações entre as pessoas não seguem
sempre esse curso, a prescrição do preservativo perde efeito, uma vez que ela não
é pensada, discutida ou problematizada dentro de outras formas de relacionamento.

Uma gravidez nessa faixa etária parece nunca ser chamada simplesmente de gravidez.
Ao contrário, ela é recorrentemente adjetivada, como por exemplo, na adolescência,
precoce, indesejada, não-planejada, de risco ou inesperada.

Ao estudar as gravidezes na adolescência na França, Charlotte Le Van (1998) mostra
que, se a gravidez em idades jovens não é um fenômeno inédito em si mesmo, as recentes evoluções sociais e culturais contribuíram para fazê-la emergir como um problema social novo. Para a autora, a expansão e o prolongamento do ensino, assim como a inserção da mulher no mercado de trabalho, contribuíram para um retardamento da gravidez e da constituição da família. A imagem social da criança também se modificou: despojada progressivamente de seu valor econômico e social, ela aparece, antes de tudo, como uma gratificação. Os futuros pais devem escolher o momento propício para procriar, quando o/a filho/a não possa mais criar obstáculos para suas realizações pessoais e quando sejam suscetíveis a lhe dar as melhores condições possíveis de vida. A exigência de uma paternidade e maternidade “inteligentes” implica que a criança desejada chegue no momento em que o casal possa lhe oferecer o espaço e a estabilidade necessários.

Não só aqui, mas durante todo o programa, é dada especial ênfase às inúmeras
conseqüências negativas de uma gravidez para a menina: impossibilidade de continuar os estudos e investir no futuro, abandono pelo namorado, mudanças no corpo, impossibilidade de sair e se divertir, dificuldades para cuidar do bebê etc. Cabe contrapor esse modo de focar a questão com pesquisas que têm mostrado que a experiência da maternidade e da paternidade para adolescentes pode ser, tanto disruptiva, quanto ter o sentido de uma “ancoragem social”.

De certo modo, a gravidez na adolescência é encarada como um
anacronismo, pois expectativas, demandas sociais e econômicas induzem a concepção de
que essas duas experiências devam ser vividas separadamente. A adolescência é atualmente concebida como um período de imaturidade, de instabilidade, em que a/o adolescente deve viver novas experiências e investir na sua formação pessoal e profissional. Diferentemente, a gravidez requereria uma situação mais amadurecida, estável e estruturada, seja em termos econômicos, profissionais ou pessoais.

Parece haver uma contradição no trabalho desenvolvido pela escola. Por um lado, um
dos objetivos da educação sexual é evitar a gravidez na adolescência. Esta justificativa consta nos PCN (BRASIL, 1998) e também era expressa, direta ou indiretamente, por diversos docentes. No entanto, quando se fala sobre sexo, toda ênfase recai justamente sobre fecundação, gestação e maternidade. Cabe, portanto, questionar se enfatizar a gestação e vincular reiteradamente a relação sexual à reprodução são as melhores estratégias quando se tem o objetivo contrário, qual seja, de prevenir a gravidez entre adolescentes.

Mesmo que ela esteja informada sobre a contracepção, o sentimento de “ilegitimidade” de uma jovem mulher cuja sexualidade não é reconhecida em seu meio pode criar obstáculos ao seu acesso à contracepção e afetar negativamente sua prática contraceptiva.

Voltando à escola, em sala de aula, a professora deixava claro que o método
anticoncepcional mais indicado a adolescentes era a camisinha, fosse ela a masculina ou a feminina. Apesar da camisinha feminina ser proclamada como um método que garantiria autonomia à mulher na gestão da sua vida sexual, pois, supostamente, ela não mais dependeria do homem se dispor a usar a camisinha masculina, sua utilização é extremamente limitada pelo seu preço e, de certa forma, pelo seu formato e aparência. Em uma farmácia próxima à escola, uma camisinha feminina custava seis reais (R$ 6,00), enquanto a masculina, oitenta centavos (R$ 0,80). O tamanho e o formato da camisinha feminina causavam reação de espanto e risadas por parte de alunas e alunos que, também durante as entrevistas, comentaram nunca a terem visto antes. Diziam que parecia um coador de café e mostravam dificuldades em compreender como ela seria introduzida no corpo. Semelhantemente, o DIU e o diafragma também lhes eram abjetos.

Por outro lado, cabe observar que esse discurso escolar é absolutamente distinto do
que divulgam atualmente os médicos ginecologistas e os laboratórios farmacêuticos.
Ressaltam justamente o contrário: os efeitos benéficos das pílulas que não resultariam em ganho de peso, mas ajudariam a regular o ciclo menstrual, trariam melhorias na pele e no cabelo, preveniriam alguns tipos de câncer, entre outros.

Além disso, o uso diário da pílula oral pressupõe, mesmo que indiretamente, uma
relação estável ou, no mínimo, uma vida sexual com uma certa periodicidade. Parece não fazer muito sentido ingerir doses diárias de hormônios, temendo o ganho de peso, entre possíveis outros efeitos colaterais, e ter relações sexuais esporádicas.

Fundamentada nesse saber “científico”, a escola busca regular as experiências sexuais de seus estudantes através de instruções e práticas úteis e não pelo rigor de proibições. Com o intuito de colaborar na administração da vida sexual adolescente, ela se propõe a esclarecer e oferecer opções de auto-cuidado, mostrando não apenas os riscos de uma relação sexual desprotegida, mas também como se proteger, como utilizar um preservativo ou algum outro método anticoncepcional.

Aliado ao esclarecimento, e através dele, as intervenções escolares buscam
desenvolver um sentido de “responsabilidade” em torno das relações sexuais,
buscando mudar ou adequar os dispositivos que estruturam os comportamentos
preventivos. Para isso, além de recomendar o uso do preservativo para uma
prática de sexo seguro, acaba-se aconselhando um determinado modelo de
relacionamento no qual a relação sexual deva ocorrer. O preservativo não é
pensado e aconselhado para múltiplas formas de relação sexual entre adolescentes,
independentemente da sua durabilidade, orientação sexual, entre outros. Além
disso, o modo de focá-lo pressupõe uma racionalização e previsibilidade das
relações que, na prática, parece nem sempre ocorrer.
Esse modo de focar a
questão pode estar limitando os efeitos que essa ação educativa pretende atingir.
Atenção particular deve ser dada às relações homossexuais, as quais são
praticamente ignoradas nessas ações educativas.

 

Derivas da Masculinidade

A diversidade de representações com relação à masculinidade não pode ser percebida como um conjunto de estilos de vida, igualmente valorizados, e dos quais o indivíduo faz a escolha como se fossem mercadorias na prateleira de um supermercado.

Caracterizar- e mesmo definir- o que se entende por masculinidade não é tarefa que experimente unanimidade. Connel (1997) agrupa as definições existentes de masculinidade em quatro conjuntos.
O primeiro deles diz respeito àquelas definições que estabelecem um atributo, tido como essencial, e a partir daí fazem derivar toda uma tipologia, havendo aqueles situados mais próximos e outros mais distantes do referido atributo. No caso da masculinidade, um atributo que se presta excepcionalmente para isso é o da atividade, tomada muitas vezes como força, e daí derivando força física, capacidade de decisão, força moral, responsabilidade para assumir grandes empreendimentos, coragem, ser ativo na relação sexual, etc.
Um segundo conjunto de definições, estas de caráter positivista, enfatiza que a masculinidade é aquilo que os homens "realmente são". Para saber o que os homens "realmente são", necessita-se de uma pesquisa "isenta" e "científica", que nos permitiria montar um panorama completo- e em geral tomado como definitivo- da masculinidade. Montado este panorama científico, neutro, eterno e isento de influências pessoais, estaríamos em condições de estabelcer tipologias, ou escalas verificando em que ponto se localiza cada homem em relação à masculinidade que possui. Teremos então aqueles que são mais próximos daquilo que os homens "realmente são", e aqueles mais distantes. Pela própria configuração do modo como estas tipologias se montam, elas tendem a tranformar em patologias as posições afastadas da norma, e propor então tratamentos para "corrigir" estes afastamentos, vistos como desvios.
Num terceiro grupo, teríamos aquelas definições que enfatizam a normatividade, pois lidam com a noção de modelo, que nos indica como os homens "deveriam ser". A conhecida teoria dos papéis sexuais e dos papéis de gênero opera nessa lógica, estabelecendo, em geral a partir da análise de produtor da comuniação, como os filmes e a própria vida dos atores mais famosos, um conjunto de características que definiriam o papel masculino seja ele objeto de crítica ou e aplauso. No caso dos estudos da masculinidade, e em especial dos movimentos sociais dos homens, a aceitação das teorias normativas, em particulr os conceitos de papéis sexuais e de gênero, produziu um tipo de análise que terminou por transformar o homem em vítima da tirania dos papéis.

Em geral, os indivíduos buscam a explicação dos males que lhes afligem por gostarem de homens e mulheres no conflito entre o que realmente gostariam de ser e o papel que a sociedade deles espera. Ficam completamente desconsideradas as atitudes e modos de vida que contribuem ativamente para a manutenção dos referidos papéis, e que por vezes constituem a tônica na vida cotidiana dos mesmos homens que se colocam como vítimas da ação dos papéis. Esta situação, que pode ser resumida na frase "eu sofro porque quero ser uma coisa e a sociedade quer que eu seja outra", mantém-se em boa medida pela rígida separação entre moral pública e moral privada, pela exigência de sigilo e discrição, que estão valorizadas em muitas das cartas enviadas...
A separação entre a vida pessoal e a vida social, levada nestas cartas ao extremo, inviabiliza qualquer possibilidade de que o sujeito sinta-se contribuindo para modificar aquela situação por ele mesmo nomeada como opressora, equivocada ou atrasada.

Retomando a classificação de Connel dos vários modos de definir a masculinidade, o quarto agrupamento concentra as definições que ancoram a masculinidade num sistema simbólico, que opera produzindo as diferenciações entre os lugares do masculino e do feminino. Os elementos do discurso, seguindo a fórmula da linguistica estrutural, são definidos pelas diferenças que guardam entre si, o que nos permite afirmar que o masculino é definido em geral como o não feminino.

Qualquer definição só pode ser entendida dentro de um sistema de relações.
No caso da masculinidade, está só pode ser definida no interior das relações de gênero e de sexualidade, e não será nunca uma definição cristalizada, pois fruto de tensões, disputas e interesses próprios da cultura, e tem seu existência marcada por essas disputas de significado.

Diferentes masculinidades se produzem o mesmo espaço social, seja este espaço a família, a região de moradia, o grupo cultural ou étnico, o grupo racial, o pertencimento religiosos, a classe econômica, etc.
Desta forma, a trajetória de construção da masculinidade de cada hom se faz com o modelo de masculinidade hegemônica sempre presente e reforçado, seja pela mídia, pela escola, pela igreja, etc., mas ao mesmo tempo com uma pluralidae de outros modos de viver a masculinidade presentes em seu cotidiano, representados pelos tipos particulares e originais que cada homem encontra ao produzir sua própria trajetória masculina na vida do dia a dia. Estes modos particulars podem gozar de maior ou menor prestígio, a depender de um complexo jogo de fatores.
O modo de viver masculino que desfruta da maior concentração de privilégios, num dado sistema de relações de gênero, será considerado como a forma de masculinidade hegemônica.
A manutenção da masculinidade hegemônica não pode ser pensada como elaboração orquestrada e consciente de um grupo de homens nela interessados. Trata-se antes de uma complexa trama de situações e condições que a favorecem mais ou menos, dependendo das circunstâncias.

O medo de ser afeminado parece ser maior do que o medo de se relacionar sexualmente com outro homem, pois se essa relação for interpretada como uma relação entre machos, poderá ser vista então como algo muito viril, uma relação entre iguais. Atribuir a um homem o adjetivo de macho, no senso comum, significa referendar algo que seria natural e institintivo, produto da biologia, inscrito no seu corpo, um comportamento que decorreria de forma natural pelo fato do homem ter o pênis.

Uma atitude sempre bem marcada por parte da maioria dos informantes homens bissexuais é a crítica à homossexualidade masculina, entendida como característica de bichas loucas, afeminados, homens fracos, pré-travestis, etc. Considerando-se serem a bissexualidade e a homossexualidade modos de vivenciar o masculino excluídos do modelo da masculinidade hegemônica, chama a atenção essa violência verbal contra os homossexuais.

Narcisismo das pequenas diferenças: ora, se a identidade cultural diz respeito à produçao de diferenças, então há que se preocupar justamente com aqueles que são mais parecidos conosco, e que mais ameaçam trazer confusão para a definição de nossa identidade.

Boa parte da política de identidade de afirmação da masculiniade bissexuais é elaborada com grande ênfase na negação de que ela seja "outra coisa" ("não somos homossexuais, não somos mulheres, não somos afeminados"), e com menor ênfase na proposição de modos de vida próprios. Desta forma, essa política de identidade revela sua debilidade, pois que se caracteriza por ser uma identidade de resistência.

Nos relatos e histórias que compõem parte das fontes utilizadas para essa pesquisa verificaram-se numerosas situações de diferencial de poder entre os participantes, conforme sejam eles, por exemplo: homens mais velhos e homens mais jovens; homens casados e homens não casados; homens brancos e homens negros; homens que se dispõem a pagar pela relação sexual e homens que se dispõem a receber algum dinheiro para fazer sexo; homens que se apresentam como virgens em relações com homens, e outros que se anunciam como tendo experiência na relação com outros homens; homens que viajam pelo país e se dispõem a conhecer parceiros em cidades distintas da sua, e homens que se dipõem a receber em sua cidade por alguns dias outro homem; homens que se dispõem a servir de fêmea a outro homem, e homens que querem desempenhar o papel de machos na relação com outro homens; homens gordos e homens magros; homens peludos e homens lisos; homens fortes e homens fracos; homens querendo apenas sexo e outros querendo um companheiro estável; homens ativos e homens passivos; homens carecas e homens com cabelo; homens do campo e homens da cidade; homens casados em que a esposa pode participar da relação e homens casados em que a esposa não pode saber; etc.

As identidades qu se constroem a partir desa diversidade são todas não fixas, em relações marcadas pela transitoriedade e pelo diferencial de exercício do poder, e um indivíduo pode sempre ser pensado como tendo mais de um atributo, e ser interpelado na relação em algns dos binômios acima, e não exclusivamente num único deles.

As identidade são, enfim, posições de sujeito.

São com certeza poucos homens que detém o conjunto completo de atributos prescritos para a masculinidade hegemônica, e talvez se possa dizer que são mesmo poucos aqueles que conseguem reunir uma quantidade razoável daqueles atributos. Desta forma, muitos homens mantém alguma forma de conexão com o modelo hegemônico que não cumprem na totalidade. Ênfase em casar, ter filhos, ser um bom pai provedor, ser um homen viril e musculoso, dentre outos atributos possíveis.

Não se trata aqui de imaginar uma postura individual maquiavélica, fruto de um planejamento consciente do tipo "vou casar com uma mulher para evitar que pensem que sou homossexual". Trata-se de ler o conjunto de ações que o indivíduo realiza, fruto de negociações momento a momento, e que o levam a busca uma situação em que não se sinta estigmatizado ou discriminado.
Desfrutar dos privilégios da masculinidade hegemônica pode ser vivido muito mais como uma situação de conforto e alívio de tensões, mesmo que momentânea, do que propriamente como uma conquista a partir de um planejamento estratégico.
Evitar a possível dor, ou, conforme o conceito de estigma de Goffman, evitar passar da situaçao e indivíduo desacreditável para aquela de indivíduo desacreditado, pode envolver manobras que preservem o anonimato, mas garantam o alívio de tensão, mesmo que elas impliquem em perder a possibilidade de desfrute do prazer.

É a masculinidade hegemônica que aparece como correta, normal e plena de êxito, e esta situação é reforçada por um conjunto de privilégios que, de forma ostensiva ou menos explícita, mantém os indivíduos que a ela aderem com melhores chances de sucesso na vida.
Embora qualquer listagem dos atributos- ou características- da masculinidade hegemônica esteja sujeita a fortes discussões, uma vez que sua variação história e cultural e seus diferentes modos de percepção não permitem uma unanimidade, acredito ser possível reconhecer um conjunto de traços, ou uma concentração de aspectos, que assinala a forma hegemônica da masculinidade para o tema que estamos tratando: uso da violência em diversas circunstânas da vida, incluída aí a vida sexual; vivência de agrupamentos masculinos (como no futebol, na pescaria, no exército, etc.); a tendência a dominar suprando aquela a conciliação; o uso de piadas sexistas, com depreciativo para mulheres e homens afeminados; o comportamento guerreiro e a valorização de guerras como modos de resolver contendas; a crença no patriarcado; o exerício do papel de provedor; o reconhecimento dos ritos de passagem da vida sexual, que podem incluir iniciação sexual com prostitutas; a extrema valorização da conquista sexual; a valorização do corpo musculoso e forte; a valorização do corpo sem exageros de expressão (sem lágrimas nem grandes expansões de afeto); os comportamentos homofóbico e misógino quase como inerentes à masculinidade heterossexual; a valorização da pornografia e da sacanagem; a geração de filhos e o exercício em geral pouco dedicado da paternidade; a noção de chefe de família; o gosto pela vida pública e pela atividade política e especialmente político partidária. A listagem com certeza não é exaustiva, mas ajuda a dar forma ao que pode ser entendido como masculinidade hegemônica no cotidiano.
(p. 141)

Os papéis de provedor, de profissional bem sucedo, de trabalhador dedicado, de líder empresarial e tantos outros este diapasão são reveladores de uma masculinidade assertiva, competitiva e plena.
A eventual falta de masculinidade que pode existir num homem que vez por outra mantém relações sexuis com outros homens parece ficar diminuída ou "compensada" com o êxito profissional.

Masculinidade e feminilidade não são sobreponíveis, respectivamente, a homens e mulheres: são metáforas de poder e de capacidade de ação.

Fernando Seffner (2003)
Derivas da Masculinidade- Representação, Identidade e Diferença no Âmbito d
da Masculinidade Bissexual

 

Gênero, Sexualidade, Estigma e Normalidade

Segundo Foucault (1985, 1990), precisamos todos de um verdadeiro sexo, de um sexo definido, esta é uma informação importante sobre nós. Esta foi e tem sido a regra nas sociedades ocidentais. Neste terreno a ambiguidade, a incerteza, a indefinição, podem trazer muitas complicações para a pessoa.

(...) Saber do gênero e da sexualidade do indivído pode nos fazer rever todo o conhecimento que temos das outras dimensões de sua identidade.
Na sociedade ocidental, gênero e sexualidade se ligam de maneira chave com o conceito de identidade, e por vezes é a partir da identidade sexual que todas as demais construções identitárias do sujeito se ordenam.
As questões de gênero estão vinculadas àqueles comportamentos, atitudes e modos de ser que definimos como sendo masculinos ou femininos. Tal como define Joan Scott:
(1) o gênero é um elemento constitutivo das relaçõs sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos.
(2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder.

De forma resumida, convém ressaltar que gênero diz respeito à produção da diferenciação social entre homens e mulheres. Esta diferenciação é social, cultural e histórica.

Foucault quebrou com a idéia de que havia uma sexualidade natural, tentanto se expressar, sufocada pela opressão da sociedade, e mostrou que a situação é muito mais complexa: a sociedade literalmente produz a sexualidade.

A sexualidade diz respeito ao modo como os indivíduos organizam e valorizam as questões relacionadas à satisfação do desejo e do prazer sexuais.
A identidade de gênero refere-se à identificação do indivíduo com aqueles atributos que culturalmente definem o masculino e o feminino, num dado contexto social e histórico, revelando-se na expressão de modos de ser, de gestos, de jeitos de vestir, de atitudes, de hábitos corporais, de posturas para andar, sentar, movimentar-se, de tonalidade de voz, de seleção de objetos e adornos, etc.

Britzman diz que não se trata apenas de se indagar sobre o que é o outro, mas que ao tratar das diferenças, cada um coloca em dúvida um conjunto de "certezas" sobre o qual estrutura sua identidade sexual.

Ainda que gênero e sexualidade se constituam em dimensões extremamente articuladas, parece necessário distingui-las aqui.
Estudiosas e estudiosos feministas têm empregado o coneito de gênero para se referir ao caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo; assim sendo, as identidades de gênero remetem-nos às várias formas de viver a masculinidade ou a feminilidade.
Por outro lado, o conceito de sexualidade é utilizado, nesse contexto, para se referir às formas como os sujeitos vivem seus prazeres e desejos sexuais; nesse sentido, as identidades sexuais estariam relacionadas aos diversos arranjos e parcerias que os sujeitos inventam e põem em prática para realizar seus jogos sexuais. (LOURO, 2000, p. 63-64)

Temos a manifestação de que pode ter havido algum "desvio de rota" na construção da masculinidade, e, portanto a terapia serve de instrumento para correção. A idéia de que a terapia possa ser um instrumento para que o indivíduo se reinvente como pessoa está colocada para poucos informantes. Na maioria das vezes, a terapia é vista como uma modalidade científica de buscar e confirmar um eu interior que serviria se solução para os problemas que o indivíduo está enfrentando na construção da masculinidade.

Qualquer coisa pode ser associada à sexualidade, e é no terreno da cultura que isso se decide. Se em nossa sociedade a maçã e o pepino podem ser associados ao sexo, ao contrário da batata e da tangerina, isso acontece pela e na cultura, e não por uma propriedade intrínseca qu estas frutas possuam.
Resta saber como as crenças se tornam plausíveis, como elas "colam",
fazendo com que vivenciemos a luz vermelha como um convite ao sexo, por exemplo.

Nessa visao, o indivíduo é percebido como tendo capacidade de agência na construção de sua identidade, o que não implica deixar de perceber os constrangimentos que a todo momento afetam seu poder de agência.

O conceito de agênca não deve ser confundido com livre arbítrio, não se trata de imaginar o indivíduo fazendo uma livre escolha entre diferentes estilos de vida. É na tensão entre a agência e as representações socialmente construídas que cada indivíduo vai fabricando sua identidade, entre limites e possibilidades, negociações e imposições.

Em qualquer parte do mundo e em todas as populações há machos e fêmeas, e isso parece estabelecer uma "invariabilidade" entre os seres humanos. Entretanto, é a cultura que cria homens e mulheres, e as maneiras de viver o masculino e o feminino são radicalmente diferentes de lugar a lugar, de tempo a tempo.

A sexualidade pode ser vista como uma atividade lúdica, inventada e reinventada todos os dias, com diferentes nomes e possibilidades.
A competência para nomear como correta uma determinada modalidade de vida sexual, empurrando as variações para o campo do patológico, é um exercício de poder que está atualmente bastante concentrado nas mãos da medicina, da psiquiatria, da psicologia e dos agentes da moral.

Em geral, a diferença é nomeada a partir de um lugar tido como referencial, como norma, que está sempre presente embora, paradoxalmente, do qual quase não se fala.
A sociedade estabelece como normal a sexualiade reprodutiva, que decorre da aproximação dos contrários ditos "complementares", homem e mulher, e esta posição em geral não é problematizada.
A sociedade se representa a si própria como efetivamente heerssexual, e reserva a esta orientação a maioria dos privilégios.

Entretanto, pode-se indagar: a heterossexualidade é tida como normal porque é majoritária, ou, visto por outro ângulo, a heterossexualidade é majoritária porque é considerada normal?

Segundo Foucault, a eleição da heterossexalidade como norma é uma decorrência de políticas de controle das populações e de regulação da reprodução, num processo que ocorre com intensidade a partir do século XVIII.

A expressão minoria não designa agrupamento minoritário em termos numéricos, mas em termos de significação na representação social, e implica a noção de que tems hieraquias definidas no campo do sexual.
De toda forma, para o período em que vivemos, e lembrando Foucault, falar e preocupar-se com a sexliade é um imperativo da construção identitária.

Uma terceira ênfase diz respeito à identidade sexual como escolha. Aqui nos movemos num terreno marcado, por um lado, pelo conceito de agência, e por outro, pela idéia de que "muitas pessoas são 'empurradas' para a identidade, derrotadas pela contingência, ao invés de guiadas pela vontade"

O estigma pode ser definido como "um traço que pode-se impor à atenção e afastar aqueles quele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus".
O drama do indivído desacreditável é efetuar o controle sobre os comentários de colegas, a visibilidade das relações com homens, os delizes na conversa, as abordagens que podem não sair de acordo com o planejado, a garantia do segredo do outro e mil outras pequenas manobras.
mesmo quando alguém pode manter em segredo um estigma, ele descobrirá que as relações íntimas com outras pessoas, ratificadas em nossa sociedade pela confissão mútua de defeitos invisíveis, levá-lo-ão ou a admitir a sua situação perante a pessoa íntimia, ou a se sentir culpado por não fazê-lo. (GOFFMAN, 1982, p. 85).

"coisas de homem" e "coisas de mulher" aparecem impressas em situações muito alheias ao sexal propriamente dito.

Que identdades são, afinal, marcadas? Aquelas que são diferentes- é a resposta imediata. Mas diferentes em quê? Ou melhor, diferentes... de quem? (LOURO, 2000, p. 67).

Uma identidade sexual marcada é aquela que se vai diferenciando a ponto de "fugir" da norma. A norma é, paradoxalmente, aquilo que esta sempre presente, mas pouas vezes enunciado claramente. Não é possível verificar, com facilidade, a que ponto a diferença- ou o desvio- chegou, pois tanto a norma como a diferença são frutos de uma permanente tensão de poderes, se constroem numa luta política que acontece basicamente na esfera da cultura e das representações.

De toda forma, a visibilidade da diferença é infinitamente superior a da norma. Mídia eletrônica, pesquisas acadêmicas, conversas de bar, legislação civil e de costumes, religiões e muitos outros meios e lugares problematizam continuamente a diferença, para o bem ou para o mal, construindo-a, classificando-a, localizando-a.

"a norma não precisa dizer de si, ela é a identidade suposta, presumida: e isso a torna, de algum modo, praticamente invisível" (LOURO, 2000, p. 68)

Fernando Seffner (2003)
Derivas da Masculinidade- Representação, Identidade e Diferença no Âmbito d
da Masculinidade Bissexual

 

Relações na rede antecipam futuro de bissexualidade e poligamia, crê psicanalista

Conhecida por um discurso ímpar quando o tema é amor ou casamento, a psicanalista Regina Navarro Lins faz da internet um campo de testes para suas convicções sobre o futuro da sexualidade. E o futuro é bissexual, polígamo e sem pares, acha ela.

Essas ideias, já presentes no seu primeiro livro, "A Cama na Varanda", ressurgem em duas obras novas: "Se eu Fosse Você..." e "A Cama na Rede". As duas são compilações de enquetes com internautas, feitas nos noves anos em que seu site ficou no ar.

Hoje, Lins combina o consultório e a militância em redes socias. Seu perfil no Twitter (@reginanavarro) tem mais de 4.000 seguidores.

Para ela, a rede evidencia que há menos pessoas desejando se fechar numa relação a dois e mais gente optando por relações múltiplas, instantâneas e efêmeras.

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Folha - Que mudança a internet trouxe para o sexo?

Regina Navarro Lins - Deu origem a novos comportamentos, como o fato de se poder deletar um parceiro e trocá-lo quando se quiser. Muitos internautas se relacionam com vários ao mesmo tempo, o que acaba com a ideia de que só se ama uma pessoa. No futuro, veremos muitos relacionamentos assim. Menos gente desejará se fechar numa relação a dois e mais pessoas optarão por relações múltiplas, instantâneas, efêmeras.

Sexo ainda é tabu, com tanta exposição na internet?

Ainda. Reparou que todo xingamento tem conotação sexual? Crianças aprendem a associar sexo a algo sujo e perigoso. As mentalidades estão mudando, mas a maioria ainda sofre com desejos, fantasias, medo, culpas.

Os comentários dos internautas fugiram do esperado?

Alguns resultados das perguntas que lancei no site me surpreenderam. Disseram que gostariam de fazer sexo a três 77% dos internautas. Outro resultado que eu não esperava: 75% acreditam que é possível viver feliz sem formar um par amoroso. É o declínio daquela ideia 'preciso ter alguém que me complete'. Outros resultados confirmam o que já vinha observando no consultório: altos índices de infidelidade e de gente que ama duas pessoas ao mesmo tempo.

Na rede, o anonimato faz com que as pessoas mintam menos sobre sexo? Ou o oposto?

As pessoas são mais sinceras e se expõem mais na internet. Sentem-se protegidas. Ficam com menos censura, podem fugir daquele ambiente quando quiserem. No mundo real, a preocupação com a aceitação social inibe a espontaneidade.

Sexo virtual substitui o real?

Ainda não, mas é uma grande novidade. Ao contrário do que pensam, sexo virtual não é relação com uma máquina. O fato de não haver contato físico não significa que do outro lado não exista uma pessoa que sinta e se emocione. Muitas constroem relações amorosas virtuais e também fazem sexo dessa mesma forma. É apenas um tipo de relação diferente.

A internet favorece a traição?

Esse questionamento da fidelidade já existe há anos. Apesar de todos os ensinamentos recebidos nos estimularem a investir a energia sexual em uma única pessoa, relações extraconjugais são muito comuns. A maioria dos profissionais da minha área justifica isso apontando problemas emocionais, insatisfação na vida a dois, mas não falam o óbvio: relações extraconjugais ocorrem principalmente porque variar é bom.

A monogamia vai acabar?

O amor não é uma experiência natural, é uma construção social. O amor romântico --com a idealização do outro e aquela ideia de que os dois se transformam em um-- está saindo de cena. A busca da individualidade faz o amor romântico perder seus atrativos e leva junto a exigência de exclusividade.

Você diz que a bissexualidade será o futuro. Por quê?

Porque a tendência é que as pessoas busquem o todo de suas personalidades. Ao longo da história, sempre foi muito bem definido o que é feminino e masculino.
Para corresponder a isso, cada um tem que rejeitar em si aspectos que são considerados do outro sexo. Homens devem ser fortes, corajosos, agressivos, mulheres devem ser dóceis, emotivas e delicadas. É evidente que homens e mulheres têm todos esses aspectos.

Há uma tendência agora a se desejar ser o todo, a integrar os aspectos considerados masculinos e femininos da personalidade. Daqui a algum tempo, é possível que a escolha do objeto de amor não seja feita segundo o sexo, mas segundo a compatibilidade psíquica.

Sexo enjoa? A grande exposição ao sexo não o banaliza?

Sexo enjoa tanto quanto beber água. Sexo é aprendizado, e quanto mais livre formos, mais aprenderemos. Quanto mais se puder intensificar o prazer, a descoberta, melhor. Se você não fizer sexo com uma pessoa, você fará sozinho no banheiro. Sexo é banal por natureza, é vulgar, é comum e tem que ser assim: todo mundo faz. E quem não faz gostaria de fazer.

E o que explica essa onda de repressão a homossexuais?

Em muitos casos, os homens mais homofóbicos atacam porque temem perceber neles aspectos considerados não masculinos. É como se quisessem socar, matar uma parte deles que está inconsciente. Um heterossexual tranquilo quanto a sua sexualidade vai agredir gay a troco de quê? Outro problema é o gay homofóbico. Ele é o algoz de si mesmo, porque introjeta toda a discriminação da sociedade. A homofobia é muito séria, deve ser combatida e criminalizada.

Nero fingiu ter se casado com travesti para chocar os romanos

Nero é certamente um sinônimo das excentricidades ocorridas durante o Império Romano.

O imperador entrou para a história como o responsável por um grande incêndio ocorrido em Roma --sua culpa na tragédia nunca ficou comprovada--, pelo martírio de são Paulo e são Pedro e por relações sexuais pouco comuns.

Seus desejos eram tão extravagantes que certa vez mandou castrar um jovem chamado Sporo e tentou transformá-lo em mulher.

Além de encenar um casamento e vesti-lo de noiva, perambulou com o garoto por locais públicos enquanto praticava atos obscenos com sua nova "esposa". Sem emascular-se inverteu os papéis com outro, chamado Doriforo.

O livro "A História Secreta dos Imperadores Romanos" traz essa e outras histórias dos soberanos mais importantes do período.

As principais questões da vida do imperador estão no livro "Nero", que conta a sua ascensão ao poder, a sua política nacional e no império e, por último, as razões para a sua queda, bem como as consequências deste fato.

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"A História Secreta dos Imperadores Romanos"
Autor: Michael Kerrigan
Editora: Europa
Páginas: 256
Quanto: R$ 79,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha
 

Livro conta como cirurgiões "criam" vagina em transexuais

Gerald Ramsey, psicólogo que acompanha o processo de redesignação sexual, ouviu muitas dúvidas sobre os transexuais durante os seus 20 anos de trabalho na área.

Reunindo as questões mais comuns --feitas por familiares, amigos e, até mesmo, médicos e terapeutas--, Ramsey escreveu "Transexuais: Perguntas e Respostas", obra que aborda desde o que é transexualidade aos detalhes da cirurgia de mudança de sexo.

O título é fundamentado nos procedimentos para diagnóstico de disforia de gênero do "Manual de Diagnósticos e Estatísticas Americano" e nas normas para diagnóstico e redesignação sexual da Associação de Disforia de Gênero Harry Benjamin.

Abaixo, leia um trecho do exemplar sobre a castração cirúrgica e a construção de uma neovagina. A Livraria da Folha lembra que as técnicas da medicina e o conhecimento científico estão em constante desenvolvimento, o volume foi publicado em 1998.

 

Como os cirurgiões criam uma vagina?

A "vaginosplastia" refere-se à criação ou reforma cirúrgica de tecido para construir uma nova vagina. Crichton (1993) descreve os resultados da construção de 58 neovaginas, todas implicando o uso de retalhos peno-escroto-perineais par delinear a vagina recém construída, oferecendo assim sensibilidade genital. Tecidos selecionados do pênis e do escroto congênios são salvos durante a castração cirúrgica, juntamente com nervos correlatos. Esses tecidos são usados para delinear o canal vaginal recém-abertro. O uso freqüente de um vibrador- em vez de um dilatador vaginal fixo - é recomendado para a nova passagem vaginal limpa e aberta.

Vinte e seis transexuais homem-para-mulher foram estudados por van Nort e Nicolai (1993). Fez-se uso de um método de inversão exclusivamente peniana em onze construções vaginais. Este envolve o uso apenas de tecido do pênis, invertido e enfiado na nova vagina, delineando as paredes com tecidos e inervações genitalmente sensíveis. Os médicos relataram dezesseis casos de construção vaginal por meio de uma combinação de retalhos de pele do pênis e do escroto, uma vez mais invertendo-as no interior da cavidade vaginal recém-construída. Noticiaram maior amplidão vaginal e mais satisfação subjetiva com a combinação peniana-escrotal, mas um melhor resultado cosmético com a inversão exclusivamente peniana. Novamente, uma dilatação adequada da neovagina é essencial a uma cicatrização apropriada e à saúde a longo prazo.

S. O. Rubin (1993) escreve em um jornal escandinavo sobre a criação de um pseudo-clitóris. A uretra e a glande do pênis foram preservadas na castração. A cirurgia subseqüente reposicionou o tecido esponjoso e sensível da glande na entrada da vagina recém-construída, no essencial preservando-o como um pseudo-clitóris. Rubin relate seis resultados positivos. Um perigo potencial envolve a circulação insuficiente na glande, muito sensível à falta de sangue, o que pode resultar em uma necrose, ou morte literal, desse tecido.

Similarmente, Hage, Karim, Bloem, Sulivan e van Alphen (1994) empregaram um enxerto composto livre da ponta da glande para criar uma estrutura em forma de clitóris ventral ao orifício uretral. Tal como outros pesquisadores, eles declararam ser o "clitóris" recém-formado funcional e esteticamente aceitável.

Os doutores Freundt, Toolenaar, Jeekel, Drogendijk e Huikeshoven (1994) relatam três casos de prolapso - ou colapso - da neovagina três ou quatro anos após a cirurgia. O problema foi corrigido com o uso de técnicas demasiado complexas para serem descritas aqui.

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"Transexuais: Perguntas e Respostas"
Autor: Gerald Ramsey
Editora: Edições GLS
Páginas: 224
Quanto: R$ 42,39 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

Homossexualismo: Uma Análise Bíblica

Esta é uma era de crescente aprovação e aceitação do homossexualismo. O homossexualismo é retratado por muitos no governo, na educação pública e em nossas escolas e universidades como apenas um dos muitos modos normais e legítimos de viver. Aqueles que se opõe ao estilo de vida homossexual sob uma base moral e religiosa são normalmente retratados pela elite intelectual, a mídia e a indústria do entretenimento como fanáticos ignorantes que estão cheios de ódio, "homofóbicos," e por aí vai.
É verdade que muitas pessoas odeiam homossexuais. Alguns até se envolvem em atos de violência contra gays. Mas é preciso lembrar que as pessoas que se envolvem em tais atividades estão pecando contra Deus; eles não estão de todo vivendo de acordo com a lei de Cristo. O verdadeiro cristão ama o homossexual e mostra isto pela forma como o trata, de uma maneira correta, de acordo com a lei de Deus (1Jo 5.3). Calúnia, violência, ódio e desprezo nunca deveriam ser atitudes de um cristão contra homossexuais; os cristãos devem proteger os homossexuais de ataques pessoais. Todavia, enquanto os cristãos devem amar os homossexuais tratando-os corretamente, eles também devem amá-los sendo biblicamente honestos para com eles. A atitude de alguém contra o homossexualismo não deve ser moldada por nossa cultura pagã e variável, mas pela revelação inspirada e infalível de Deus, a Bíblia. A Bíblia oferece esperança ao homossexual porque ela fala a verdade e proclama perdão dos pecados por meio de Jesus Cristo.

A Criação da Ordenança do Casamento
Ao invés de se ter um entendimento próprio da sexualidade humana, é preciso voltar à origem da humanidade. No princípio Deus criou um homem (Adão) e uma mulher (Eva). Deus não criou dois homens (e.g., Adão e Antônio) ou duas mulheres (e.g., Eva e Tereza). Deus criou primeiro Adão do pó da terra; Então criou Eva da costela de Adão. Eva foi criada para ser esposa de Adão. A Bíblia diz que eles estavam nus e contudo não se envergonhavam. A criação de Deus de um homem e uma mulher para serem marido e esposa é o padrão ou paradigma para a sanção de Deus das relações sexuais normais, morais e abençoadas. "A união do matrimônio é ordenada por Deus, e estes preceitos sagrados não devem ser poluídos pela intromissão de uma terceira parte, de qualquer sexo" (F.F. Bruce).
Jesus Cristo citou Gênesis 2.24 como uma prova clara de que a poligamia (ter mais de uma esposa) e o divórcio (exceto em caso de adultério) são condenados por Deus (Mt 19.5). O apóstolo Paulo, escrevendo sob inspiração do Espírito Santo, disse que há somente uma saída moral e legítima para o caminho deixado por Deus para o sexo – o casamento (1Co 7.2). Monogâmico e heterossexual, o casamento é a única maneira de se ter sexo sem pecado e culpa. "Honrado entre todos seja o matrimônio, e o leito [matrimonial] sem mácula; mas Deus irá os fornicadores e adúlteros" (Hb 13.4 [todas as versões NKJV]). Qualquer coisa contrária a ordenança da criação do casamento entre um homem e uma mulher é pecaminoso e inaceitável perante Deus. A Bíblia condena toda atividade sexual fora do casamento monogâmico e heterossexual: homossexualismo, sexo antes do casamento, poligamia, adultério, bestialismo e assim por diante. "Não deixeis que vos enganem com palavras vãs," diz Paulo, "porque é em razão destas coisas sobrevêm a ira de Deus sobre os filhos da desobediência" (Ef 5.6).

A Lei de Deus
A lei moral de Deus claramente condena todo tipo de homossexualismo: "Não te deitarás com um homem como se fosse uma mulher. Isto é abominação… Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável. Devem ser mortos. Seu sangue cairá sobre eles" (Lv 18.22, 20.13). Defensores do homossexualismo tentam evitar as claras e inequívocas declarações da lei de Deus com desculpas esfarrapadas e descarada distorção da Bíblia.
Alguns questionam se a lei de Deus condena o homossexualismo; eles ensinam que a lei de Deus é só um escrito humano com antigos costumes judaicos preconceituosos. Essas pessoas condenam a autoria mosaica da lei e são relativistas éticos. Seus argumentos devem ser rejeitados porque Cristo e os apóstolos aceitaram a autoria divina, infalibilidade e absoluta autoridade do Velho Testamento (Mt 22.39-40; Jo 10.35; 2Tm 3.16-17). Se você rejeitar a lei de Deus alegando que ela não passa de idéias humanas de judeus antigos, então você não pode reivindicar que Cristo é seu salvador. Você deve pensar que ou Jesus se enganou em Sua visão da lei de Deus ou que Ele era um mentiroso. Não esqueça: Jesus Cristo é Deus (Jo 1.1; 8.58-59); Ele não pode se enganar ou mentir (Nm 23.19).
Outros ensinam que as leis que condenam o homossexualismo se aplicavam somente à nação de Israel. As leis do Velho Testamento caducaram com a vinda de Jesus Cristo. Essa visão é popular entre aqueles que reivindicam ser "homossexuais evangélicos." Essa visão é totalmente anti-bíblica. Quando o Novo Testamento diz que os cristãos estão mortos para a lei, significa que Cristo cumpriu a lei (o pacto das obras) pelos crentes, e removeu a maldição da lei por meio de Sua morte sacrificial. Cristãos que estão unidos a Jesus Cristo em Sua vida perfeita sem pecado e Sua morte sacrificial são elevados com Cristo e capacitados por Seu Espírito a viver para Deus. Paulo disse que "a lei é santa, e o mandamento santo e justo e bom" (Rm 7.12). Cristo não liberta da lei moral. Ele obedeceu a ela perfeitamente para os crentes. Ele morreu para remover a culpa do pecado e enviou o Espírito Santo para que os crentes tenham poder para obedecer à lei de Deus. Se Cristo abolisse a lei no sentido que os apologistas do homossexualismo afirmam, então Ele precisaria morrer, porque se não há lei, não há pecado nem culpa. As únicas leis que não possuem mais validade são as que estão atreladas especificamente à terra de Israel (e.g., o jubileu) e as leis cerimoniais. As leis cerimoniais apontavam para Jesus Cristo e Sua obra por meio de tipos e figuras. A lei moral de Deus e o caso das leis civis baseadas sob a lei moral ainda estão em vigor. A lei de Deus é baseada sob Sua natureza e caráter; portanto, é absoluta, imutável e eterna.
É óbvio que a proibição contra o homossexualismo nada tem a ver com o sistema sacrificial; ela claramente não é cerimonial em sua natureza. Além do mais, se as leis contra o homossexualismo foram somente restritas à nação de Israel, então porque o homossexualismo é condenado em Sodoma, cerca de quatrocentos anos antes de a nação de Israel existir: "como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à imoralidade sexual e seguindo após outra carne [homossexualismo], foram postos para exemplo, sofrendo a vingança do fogo eterno" (Judas 7)? Embora Sodoma fosse genericamente caracterizada pela maldade, Gênesis 19 apresenta o homossexualismo como o último estágio da devassidão. Os homens de Sodoma desejaram ter relações homossexuais com os convidados de Ló e estavam dispostos a estuprá-los, se necessário. Deus enviou total destruição sobre Sodoma. Sodoma não foi destruída porque seus habitantes não eram hospitaleiros, como alguns afirmam. Simplesmente não ser hospitaleiro não explicaria um tal julgamento de Deus. Deus aniquilou a cidade; somente Ló e sua família foram poupados.
Alguns apologistas do homossexualismo argumentam que a lei de Deus condena somente a prostituição ritual masculina. Eles argumentam que o moderno homossexualismo não tem nada a ver com o homossexualismo pagão e idólatra praticado nos tempos antigos. Deus claramente condena a prostituição masculina e os ritos culticos de fertilidade associados a ela; Deuteronômio 23.17-18 se aplica à prostituição cultica. Mas Levítico 18.22 e 20.13 não mencionam a prostituição cultica em lugar algum. "se um homem se deitar com outro homem como se fosse mulher, ambos cometeram abominação. Devem ser mortos. Seu sangue cairá sobre eles" (Lv 20.13).
A tentativa de consolidar todas as proibições contra o homossexualismo dentro de algo que somente concorde com a antiga prostituição cultica revela um óbvio viés pró-homossexual por parte destes intérpretes. Eles forçam o texto bíblico à um molde pró-homossexual. Eles estão sendo desonestos com a clara intenção da Palavra de Deus. Eles estão lendo suas próprias pressuposições pró-homossexuais na lei de Deus. É ilegítimo condensar três proibições distintas (Lv 18.22, 20.13; Dt 23.17-18) em apenas uma. Interpretes pró-homossexuais sabem disto mas não se importam, porque eles não estão interessados na verdade; eles estão interessados somente em justificar seu comportamento mau e pervertido. Além disso, sua interpretação pode ser usada para justificar a relação sexual com ovelhas e cabras, porque a bestialidade também era parte dos ritos culticos de fertilidade. Não se engane. Deus é contra o homossexualismo em todas as suas formas, tanto ritual quando pessoal.
Os argumentos em favor do homossexualismo são nada mais que lamentáveis desculpas para um comportamento que Deus condena e irá claramente julgar. "Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis. Nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais , nem somoditas , nem ladrões, avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus" (1Co 6.9-10). Homossexualismo foi condenado por Deus, séculos antes da chegada da lei (e.g., Gn 19). Ele é explicitamente condenado pela lei de Deus (Lv 18.22, 20.13). Como será mostrado, ele é também claramente condenado no Novo Testamento pelo apóstolo Paulo.

O Novo Testamento
O Novo Testamento concorda com, e confirma, a condenação do Velho Testamento da homossexualidade. Alguma passagem da Bíblia pode ser mais clara na condenação do homossexualismo do que a afirmação de Paulo encontrada no primeiro capítulo de Romanos: "Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram a criatura mais do que o Criador, o qual é bendito eternamente. Amém. Por essa razão Deus os entregou a paixões infames. Pois até mesmo as mulheres mudaram o modo natural pelo que é contra a natureza. Do mesmo modo os homens, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, homens com homens cometendo o que é torpe, e recebendo em si mesmos a penalidade devida pelo seu erro. E por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes… os quais, sabendo do justo juízo de Deus, de que aqueles que praticam tais coisas são passíveis de morte, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam" (Rm 1.24-28,32).
Defensores do comportamento homossexual tentam driblar Romanos 1 alegando que Paulo estava condenando somente a luxúria e promiscuidade homossexual e não as amáveis e monogâmicas relações homossexuais. O problema com essa interpretação pró-homossexual é que Paulo nem sequer sugere tal idéia no texto. Essa idéia, que era pra estar no texto, claramente não está lá. Paulo era um expert em complexos problemas éticos. Sua condenação abrange todas as formas de comportamento homossexual: seja promiscuo, seja monogâmico. Se a homossexualidade é permissível sob certas condições, então a mentira, assassinato, difamação, e outros pecados listados por Paulo também são permitidos sob certas condições? Poderia um apologista do homossexualismo argumentar que o sexo com cabras e ovelhas é permitido desde que o relacionamento seja amoroso e monogâmico?
Outros apologistas dizem que Paulo estava somente se referindo à prostituição cultica grega. Mas o texto não diz nada sobre a prostituição cultica grega. Paulo estava focado sobre o que acontece quando as pessoas enxotam Deus de seus pensamentos e adoram ídolos. Paulo estava discutindo o comportamento pessoal moral. Quando as pessoas abandonam Deus, seu comportamento pessoal se torna perverso. Se Paulo condenou somente a prostituição ritual grega, então porque a igreja primitiva condenou todas as formas de homossexualismo? Por que é que toda congregação de igreja cristã e todas as denominações cristãs condenaram todas as formas de homossexualismo durante quase dois mil anos? Foi só nos anos 1970 que o homossexualismo começou a receber aceitação na sociedade. E não é acidental que as igrejas que mudaram suas visões geralmente façam parte de denominações liberais que rejeitaram a autoridade divina da Bíblia. Se Cristo e os apóstolos aceitaram a homossexualidade monogâmica, então por que ela foi universalmente condenada na igreja apostólica?

A Teoria da Pederastia
A tentativa mais sagaz de repudiar a condenação de Paulo da homossexualidade é a teoria da pederastia. Essa visão afirma que Paulo, seguindo a cultura grega, somente estava condenando a exploração sexual e emocional de jovens por parte de homens. Esta visão assume que Paulo era somente um produto da cultura grega pagã de seu tempo. Mas a Bíblia claramente ensina que Paulo escreveu sob a sobrenatural direção do Espírito Santo (2Pe 3.15-16). Para entender a visão de mundo de Paulo, não se deve olhar para a Grécia ou Roma pagãs, mas para o Velho Testamento, os ensinos de Jesus Cristo e dos outros apóstolos. A condenação de Paulo da homossexualidade é totalmente consistente com, e uma continuação da, lei de Deus revelada a Moisés. A pederastia é errada e é condenada por Deus porque é uma forma ou tipo de homossexualidade. É também pecaminosa e perversa porque é uma forma de sexo fora dos laços do matrimônio legal, monogâmico e heterossexual. O homossexualismo é perverso, não interessa a idade dos participantes. A idéia de que pelo fato de dois homens terem alcançado a idade de 18 anos, Deus aprova o sexo oral e anal que eles fazem é absurda. Paulo condena tal pensamento perverso e tolo há muito tempo: "Mas sabemos que a lei é boa e aquele que a utiliza de modo legítimo, mas sabeis disto: que a lei não foi feita para o que é íntegro, mas para os transgressores e rebeldes, para os irreverentes e pecadores, para os ímpios e profanos, para os assassinos de pais e mães, homicidas, para os fornicadores, para os sodomitas , raptores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para tudo quanto seja contrário à sã doutrina" (1Tm 1.8-10).

Ato e Orientação
Qualquer discussão da homossexualidade será incompleta sem estabelecer a diferença entre ato e orientação. Muitos homossexuais irão dizer, "Eu nasci homossexual – Deus me faz assim; por isso, meus pensamentos, desejos, e modo de vida não devem ser condenados." Se algumas pessoas nascem com uma predisposição para o comportamento homossexual, isto faz de alguma forma os desejos e o comportamento homossexual deles aceitável a Deus? Absolutamente não!
A doutrina bíblica do pecado original ensina que todos os homens nascem com uma natureza ou disposição pecaminosa. O primeiro homem, Adão, era o cabeça do pacto e representante de toda a raça humana perante Deus. Quando Adão pecou, a culpa e poluição do pecado passaram à toda a raça humana (Rm 5.12, 17, 19). Cada pessoa (exceto Jesus Cristo que foi concebido pelo Espírito Santo) é nascida com uma natureza pecaminosa. É errado dizer, "Deus me faz um homossexual (ou um mentiroso, ou um assassino)," porque o pecado não se originou com Deus, mas com o homem (i.e., Adão, nosso antepassado).
O fato de que todos os seres humanos nascem com um orientação (ou inclinação) para o pecado não justifica desejos ou comportamento pecaminosos. A Bíblia diz que todos os homens nascem mentirosos (Sl 58.3). A Bíblia também diz que mentir é pecado (Ex 20.16, Dt 5.20); e adiante diz que os mentirosos não entrarão no reino de Deus (Ap. 21.27). Se algumas pessoas nascem com uma inclinação para o roubo, homossexualismo, assassinato, bestialidade, sadomasoquismo, mutilação, etc., isto de forma alguma justifica seu comportamento pecaminoso. O argumento de que a orientação para a homossexualidade de alguma forma a faz aceitável a Deus pode ser usado para justificar qualquer comportamento pecaminoso. Um tal argumento destrói a responsabilidade pessoa; ele tornaria a lei de Deus sem sentido e desnecessária a salvação por meio de Cristo. Todos os homens certamente serão responsabilizados perante Deus por cada pensamento, palavra e ação pecaminosas que cometam, sem importar suas orientações. Culpar Deus pelo comportamento pecaminoso de alguém pode fazer o homossexual se sentir melhor, mas isto irá ser ineficiente no dia do juízo, quando todos os impenitentes homossexuais serão lançados no inferno (1Co 6.9-10, Ap. 21.27). Além disto a Bíblia ensina que nenhum homem pode culpar Deus por seu comportamento pecaminoso, porque Deus não pode tentar o homem. O homem é tentado por seus próprios desejos: "Ninguém ao ser tentado diga, "Fui tentado por Deus'; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, nem a ninguém tenta. Mas casa um é tentado quando engodado e atraído por seus próprios desejos. Então, quando o desejo concebe dá à luz ao pecado, que quando consumado, gera a morte. (Tg 1.13-15).
Alguns afirmam que os atos homossexuais são de fato imorais, mas sentimentos e desejos homossexuais para alguns são inatos e, portanto, inevitáveis e não pecaminosos. A Bíblia ensina que não é pecado ser tentado (Cristo foi tentado, embora nunca tenha cometido pecado, Hb 2.18). O que é pecaminoso é quando uma pessoa abriga aquilo que o tenta, fantasia e faz planos para praticar aquele comportamento pecaminoso. A Bíblia claramente ensina que não somente é um pecado cometer atos maus, mas é também pecado ter desejos e pensamentos imorais, luxuriosos.
Jesus Cristo proibiu a luxúria heterossexual em Mateus 5.27-29. Jesus disse que quando um homem olha para uma mulher com desejo lascivo, ele já cometeu adultério com ela em seu coração (Mt 5.28). A idéia de condenar só o ato externo mas não a luxúria interna era uma doutrina dos Fariseus; Cristo condenou veementemente esse falso ensino (Mt 5.21-22, 15.19-20). O apóstolo Paulo proibiu fantasias perversas, luxúria, e maus desejos (Cl 3.5). Paulo disse que os cristãos devem santificar (i.e., fazer santo) os seus próprios pensamentos (Fp 4.8). Tiago disse que se os desejos não forem controlados, o pecado irá seguí-lo (Tg 4.1). O desejo homossexual está condenado dentro de Romanos 1:.4, 26, 27. O profeta Isaías disse que o arrependimento de alguém deve ser estendido aos "pensamentos" e aos "caminhos" (Is 55.7). Uma vez que a Bíblia condena os desejos e atos pecaminosos, não pode existir tal coisa como um cristão homossexual – ou um cristão assassino ou um cristão ladrão. Se um homossexual se torna um cristão, ele deve deixar de lado tanto atos quanto pensamentos homossexuais; portanto, quando se torna um cristão, ele deixa de ser um homossexual. Ele deve ainda às vezes ser tentado mas ele se recusa a abrigar, a flertar com, e a cometer tais ações abomináveis. "Finalmente, irmão, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é digno de honra, tudo o que é justo, todo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude e se algum louvor existe; pense sobre estas coisas" (Fp 4.8). "Não devemos cobiçar as coisas más, como eles também cobiçaram" (1Co 10.6).
Conclusão
A condenação bíblica da homossexualidade é muito clara e bastante forte. Deus disse que o homossexualismo é uma "abominação"; o que significa que Deus aborrece, odeia e detesta completamente o comportamento homossexual. O Antigo Testamento ensina que as pessoas que são condenadas pelo crime de se envolver em um procedimento homossexual deve ser mortas (Lv 18.22, 20.13). O Novo Testamento está em total acordo: o apóstolo Paulo disse que o comportamento homossexual é "digno de morte" (Rm 1.32). Essa não é a opinião do homem, mas é o claro ensino da Palavra de Deus.
As pessoas que reivindicam serem compassivas com os homossexuais pela justificativa e aprovação de seu comportamento perverso são mentirosos e falsos mestres. Suas tentativas de reinterpretar a Bíblia para fazê-la aceitar o homossexualismo são nada mais que desculpas esfarrapadas criadas para aqueles que não querem se arrepender. Eles estão conduzindo os homossexuais ao caminho que leva à destruição (Mt 7.13). Eles são os verdadeiros inimigos da comunidade homossexual.
Sua única esperança é aceitar o que Deus diz com respeito ao seu comportamento pecaminoso. Se você for se arrepender dos seus pecados e crer em Jesus Cristo, você deve se convencer de que seu procedimento é errado, perverso e digno de juízo. Depois de dizer que os homossexuais não herdarão o reino de Deus, Paulo diz, "Tais foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, mas vocês foram santificados, mas vocês foram justificados em o nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus" (1Co 6.11). Havia cristãos na igreja de Corinto que rejeitavam seu anterior estilo de vida homossexual e abandonaram seus pecados. Eles se arrependeram e creram em Jesus Cristo.
Jesus Cristo, como Ele é apresentado nas Escrituras, é a única esperança de salvação dos pecadores: "Nem há salvação em nenhum outro, pois não há nenhum outro nome debaixo do céu, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12). Se você crê nEle, todos os seus pecados serão perdoados. "Se com a boca confessares o Senhor Jesus e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo. Porque com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz, 'Qualquer que crê nEle não será confundido'" (Rm 10.9-11).
O sangue imaculado de Cristo remove a culpa e a maldição do pecado. Sua vida perfeita e sem pecado é dada como um presente àqueles que creem nEle. Quando os cristãos se apresentarem perante Deus no dia do julgamento, eles serão vestidos com a perfeita justiça de Cristo. Os crentes irão para o céu tão-somente em razão dos méritos de Jesus Cristo. Quando Cristo ascendeu da morte ao terceiro dia, isto provou que Seu sacrifício foi aceitável a Deus o Pai. Cristo ressurgiu vitorioso sobre o pecado, a culpa, a morte e o inferno para todos que põe sua confiança nEle. Após sua ressurreição, Cristo, como o mediador divino-humano, foi feito rRi e Senhor sobre todas as coisas no céu e na terra. "Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que seus pecados possam ser cancelados, a fim de que tempos de refrigério possam vir da presença do Senhor" (At 3.19-20).
Sobre o autor: Brian Schwertley é mestre em Teologia (Seminário Episcopal Reformado, 1984). Casado há mais de duas décadas com Andréa, é pai de cinco filhos. Ele pastoreia a Igreja Presbiteriana de Westminster de Waupaca, congregação da Igreja Presbiteriana de Westminster nos Estados Unidos. Foi preletor do Simpósio "Os Puritanos" em junho de 2001 no Recife (Brasil). Em português foram publicados, de sua autoria, O modernismo e a inerrância bíblica (São Paulo: Os Puritanos, 2000, 64p.), Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto (São Paulo: Os Puritanos, 2001, 207p.), O movimento carismático e as novas revelações do Espírito (São Paulo: Os Puritanos, 2001, 58p.).
Fonte: http://reformedonline.com/
Tradução: Márcio Santana Sobrinho
 

 

Até que ponto o sexo virtual pode ser fonte de prazer?

Segundo a sexóloga e psicoterapeuta Carmen Janssen, autora do livro Massagem Sensual para Casais Enamorados, não há nada de errado com isso. O contato virtual pode, inclusive, ajudar as pessoas a serem mais articuladas para o sexo e no contato pessoal, já que pela Internet é preciso falar muito mais.

O médico psiquiatra Leonard Verea acredita que tanto o sexo virtual e até mesmo os sites de relacionamento são alternativas utilizadas pelas pessoas para suprir a solidão. "Hoje em dia, o mundo e a correria do cotidiano, diferentemente da época dos nossos pais, favorece a solidão. As pessoas não estão treinadas a socializar", diz o psiquiatra. "O medo do desconhecido, da rejeição e de encarar as próprias dificuldades faz com que as pessoas busquem o mundo virtual", acrescenta Verea.

Na opinião do curitibano D.A, 20 anos, que busca parceiras para o sexo virtual em salas de bate-papo, mas preferiu não ter o nome identificado, tanto os homens quanto as mulheres procuram o sexo na Web por diversão e curiosidade ou mesmo porque enfrentam problemas na vida sexual.

"Muitas mulheres com quem conversei entram nas salas por não conseguirem realização total com os parceiros, por medo ou vergonha de pedir algo", conta D.A.

A sexóloga Carmen Janssen concorda que a Internet facilita quem tem timidez no sexo. "A internet facilita o contato. No anonimato, as pessoas podem deixar de transparecer suas emoções ou extravasá-las", declara.

Entretanto, Verea alerta sobre os riscos que a prática excessiva pode causar. "Não existe problemas com o sexo virtual desde que haja limites. Casais podem ver as salas de bate-papo como uma maneira de renovar as fantasias. Os solteiros podem até mesmo transformar os relacionamentos virtuais em reais, o que não vale é a dependência da Internet e o esquecimento da realidade exterior", acrescenta.

"A relação sexual por meio do computador pode ser prejudicial quando a pessoa passa a se relacionar somente pela Internet", diz Carmen Janssen. "Não é saudável quando ela começa a perder o contato humano das relações interpessoais, o olho no olho, o toque, a voz, podendo vir a ter dificuldades nos relacionamentos pessoais", conclui a sexóloga.

Serviço:
Carmen Janssen - sexóloga, psicoterapeuta e autora do livro Massagem Sensual para Casais Enamorados
Endereço eletrônico: www.energiadoamor.com.br

Leonard Verea - médico psiquiatra com especialização em Medicina Psicossomática e Hipnose Clinica
Telefone: 5051-2055
Endereço eletrônico: www.verea.com.br
 

 

Uma visão espírita do homossexualismo sem o dissimulado purismo cristão

As múltiplas experiências humanas pela reencarnação e os repetidos contatos com ambos os sexos proporcionam ao espírito as tendências sexuais na feminilidade ou masculinidade e este reencarna com ambas polaridades e se junge, muitas vezes contrariado, aos impositivos da anatomia genital e da educação sexual que acolhe em seu ambiente cultural.

Consoante essas experiências tenderá para qualquer das duas opções e o fará nem sempre de acordo com sua aspiração interior, que poderá ser inverso ao que determina o meio socio-cultural.

Emmanuel ensina na obra “Vida e Sexo” que o “Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas.”

([1]) Além disso há vários fatores educacionais que poderiam contribuir para despertar no indivíduo as tendências sepultadas nas profundezas de seu inconsciente espiritual.

E, ainda que desempenhe papéis de acordo com a sua anatomia genital e que seu psiquismo se constitua de acordo com sua opção sexual, poderá ocorrer que se desperte com desejos de ter experiências afetivas com pessoas do mesmo sexo. Tal ocorrência poderá lhe tumultuar a consciência caracterizando, por aquele motivo, um transtorno psíquico-emocional.

A convivência do espírito com o sexo oposto ao que adotou em cada encarnação, bem como aquelas na qual exerceu sua opção sexual, irão plasmar em seu psiquismo as tendências típicas de cada polaridade. Explica Emmanuel, a homossexualidade, também hoje chamada transexualidade, em alguns círculos de ciência, definindo-se, no conjunto de suas características, por tendência da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação.”([2])

Na questão 202 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga aos Espíritos: "Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?" "Isso pouco lhe importa” responderam os Benfeitores, “o que o guia na escolha são as provas por que haja de passar"([3]) esclareceram os Espíritos. A genética tem tentado encontrar genes que explicariam a homossexualidade como sendo desvio de comportamento sexual.

A psiquiatria tenta encontrar enzimas cerebrais que poderiam influenciar no comportamento sexual. Mas a sede real do sexo não se acha no veículo físico, porém na estrutura complexa do espírito. É por esse prisma que devemos encarar as questões relacionadas ao sexo. Dia virá que “a coletividade humana aprenderá, gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos”.[4]

Não podemos confundir homossexualismo com desvio de caráter, até porque os deslizes sexuais de qualquer tendência têm procedências diversas. Suas raízes genésicas podem vir de profundidades íntimas insondáveis. “A própria filogênese([5]) do sexo, que começa aparentemente no reino mineral, passando pelo vegetal e ao animal, para depois chegar ao homem, apresenta enorme variação de formas, inclusive a autogênese[geração espontânea] dos vírus e das células e a bissexualidade dos hermafroditas”([6]), para alguns pesquisadores justifica o aparecimento de desvios sexuais congênitos.

Com a liberação sexual e a ascensão do feminino na sociedade contemporânea, a tolerância ao homossexualismo aumentou, permitindo que uma grande quantidade de pessoas que viviam no anonimato se expressasse naturalmente.

Chico Xavier explica de forma clara o seguinte, “não vejo pessoalmente qualquer motivo para criticas destrutivas e sarcasmos incompreensíveis para com nossos irmãos e irmãs portadores de tendências homossexuais, a nosso ver, claramente iguais as tendências heterossexuais que assinalam a maioria das criaturas humanas. Em minhas noções de dignidade do espírito, não consigo entender porque razão esse ou aquele preconceito social impedirá certo número de pessoas de trabalhar e de serem úteis a vida comunitária, unicamente pelo fato de haverem trazido do berço características psicológicas e fisiológicas diferentes da maioria.

Nunca vi mães e pais, conscientes da elevada missão que a Divina Providencia lhes delega, desprezarem um filho porque haja nascido cego ou mutilado. Seria humana e justa nossa conduta em padrões de menosprezo e desconsideração, perante nossos irmãos que nascem com dificuldades psicológicas?”([7])

A Doutrina Espírita é libertadora por excelência. Ela não tem o caráter tacanho de impor seus postulados às criaturas, tornando-as infelizes e deprimidas. A energia sexual pede equilíbrio no uso e não abuso ou repressão. O Espiritismo não condena a homossexualidade, contrariamente, recomenda-nos o respeito e fraterna compreensão para com os que têm preferências homoafetivas.

Muitas vezes pode até ser alguém tangido pelo apelo permissivo que explode das águas tóxicas do exacerbado erotismo, somados aos diversos incentivadores pseudocientíficos da depravação, que podem estar desestruturando seu sincero projeto de edificação moral, através de uma conduta sexual equilibrada.([8]) Por isso mesmo, não pode ser discriminado, nem rejeitado, pois, como admoesta Jesus, "aquele dentre vós que não tiver pecados, que atire a primeira pedra"([9])...

Como já vimos com Emmanuel no início desta exposição, não há masculinidade plena, nem plena feminilidade na Terra. Tanto a mulher tem algo de viril, quanto o homem de feminil. Antigamente a educação muito rígida e repressiva contribuía para enquadrar o indivíduo ambisséxuo, em seu sexo natural.

Assumir a homossexualidade não significa mergulhar em um universo de atitudes extremadas e desafiadoras perante seu grupo de relacionamento familiar ou profissional, “mas fazer um profundo exercício de autoaceitação, asserenar-se por dentro a fim de poder reconhecer perante si mesmo e todo seu círculo de amigos e parentes que vive uma situação conflitante.

O verdadeiro desafio é a construção interna para superar os desejos. E não estamos aqui referindo-nos exclusivamente a desejo sexual e sim a toda espécie de desejos que comandam a vida das criaturas.” ([10])

Emmanuel enfatiza que “O mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em experiência dessa espécie [homossexual], somando milhões de homens e mulheres, solicitando atenção e respeito, em pé de igualdade devidos às criaturas heterossexuais.

”([11]) O homossexualismo não deve, pois, ser classificado como uma psicopatia ou comportamento merecedor de discriminação ou medidas repressivas. O homossexual, especialmente o "transexual", merece toda a nossa compreensão e ajuda, para que ele possa vencer sua luta de adaptação ao novo sexo adquirido com o renascimento.

Outra questão extremamente controvertida, para muitos cristãos, é a possibilidade da união estável (casamento) entre duas pessoas do mesmo sexo. Ante a miopia preconceituosa do falso purismo religioso da esmagadora maioria de cristãos supostamente “puros”, isso é uma blasfêmia. Isto torna o tema bastante complexo e, portanto, aberto para discussões. Porém, após refletir bastante sobre o assunto e, sobretudo, tendo como alicerce as opiniões de Chico Xavier, entendemos que a união estável (casamento) entre homossexuais é perfeitamente normal, sim.

Só conseguiremos entender melhor a questão homossexual depois que estivermos livres dos (pré)conceitos que nos acompanham há muitos milênios. Arriscaríamos a afirmar, que a legalização do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, é um avanço da sociedade, que estará apenas regulamentando o que de fato já existe.

Seria lícito a duas pessoas do mesmo sexo viverem sob o mesmo teto, como marido e mulher?

A propósito, vasculhando fontes sobre esta mesma indagação encontramos em Folha Espírita a resposta de Emmanuel “A esta indagação o Codificador da Doutrina Espírita formulou a Questão 695, em O Livro dos Espíritos, com as seguintes palavras: ‘O casamento, quer dizer, a união permanente de dois seres, é contrário a lei natural?’ Os orientadores dos fundamentos da Doutrina Espírita responderam com a seguinte afirmação: ‘É um progresso na marcha da humanidade.’ Os amigos encarnados no plano físico com a tarefa de sustentar e zelar pelo Cristianismo Redivivo, na Doutrina Espírita, estão aptos ao estudo e conclusão do texto em exame.”([12]) (grifamos)

Tanto o homossexual como o heterossexual devem buscar a sua reforma interior, não cedendo aos arrastamentos provocados pelos impulsos instintivos e sensuais. O que é ilícito ao hetero, também o é ao homossexual, ambos precisam “distinguir no sexo a sede de energias superiores que o Criador concede à criatura para equilibrar-lhe as atividades, sentindo-se no dever de resguardá-las contra os desvios suscetíveis de corrompê-las. O sexo é uma fonte de bênçãos renovadoras do corpo e da alma”([13])

Mister, portanto, reconhecer que ao serem identificadas os pendores homossexuais das pessoas nessa dimensão de prova ou de expiação, é imperioso se lhes oferte o amparo educativo pertinente, nas mesmas condições que se administra instrução à maioria heterossexual da sociedade.

Acreditamos, por fim, que estas idéias poderão levar, a quantos as lerem, a meditar, em definitivo, sobre o assunto , lembrando que o homossexualismo transcende em si mesmo a simples questão da permuta sexual.

Fontes de Referência:
([1])Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
([2]) Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
([3])Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. Feb, 2000, perg. 202
([4])Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
([5]) Filogenia (história evolucionária das espécies) opõe-se à ontogenia (desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade para a reprodução.)
([6])Disponível em <http://www.espirito.org.br/portal/artigos/gebm/homossexualismo-e-vampirismo.html>acessado em 21/04/06
([7]) Publicada no Jornal Folha Espírita do mês de Março de 1984
([8]) A recomendação do Espiritismo para o respeito e a compreensão para com os irmãos que transitam em condições sexuais inversivas (homossexualismo) ocorre em função do sentimento de fraternidade ou caridade que deve presidir o relacionamento humano, mas igualmente pelo fato de que nenhum de nós tem autoridade suficiente para condenar quem quer que seja, pois todos temos dificuldades morais e/ou materiais graves que precisam de educação.
([9])João, cap. VIII, vv. 3 a 11
([10])Disponível em <http://www.irc-espiritismo.org.br/irc_resp_sexualidade.html>acessado em 21/04/2006
([11])Francisco Cândido. Vida e Sexo, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.
([12]) Publicada no Jornal Folha Espírita do mês de Julho de 1984.
([13]) Xavier, Francisco Cândido. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001.

Artigo gentilmente cedido por Jorge Luiz Hessen
Servidor público Federal, Expositor Espírita na região de Brasília e Goiás,
Articulista das Revistas "Reformador", "O Espírita" e "Brasília Espírita "

Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. Será que por gostar de travesti eu sou gay?

DÚVIDA:

Olá, tudo bem? Eu me chamo Guilherme tenho 32 anos e sou casado, mas tenho muita atração por travestis. Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. O que será que devo fazer pois, no momento, estou gostando mais de travesti do que de mulher, e isso eu não consigo mais controlar. Será que por gostar de travesti eu sou gay?

LETICIA LANZ RESPONDE:

Caro Guilherme,

Gostar não depõe contra ninguém. Odiar, sim, é fato muito feio e vergonhoso. Ter prazer não é vergonha pra ninguém. Desconforto e desprazer são, sim, coisas muito feias e vergonhosas. Todo mundo devia fazer tudo para ser feliz pois, pessoas infelizes, acabam contribuindo para que outras pessoas sejam infelizes também.

Senti você confuso não apenas quanto ao seu sentimento, mas também – e sobretudo - quanto à sua sexualidade. “Será que eu sou gay?” é algo que parece lhe incomodar muito mais do que a idéia de “correr atrás do seu desejo, fazendo aquilo que lhe dá prazer”. Essa preocupação “mais do que exagerada” pela orientação sexual é muito comum entre homens, cuja educação estimula tanto um “embotamento” dos sentimentos quanto um medo tremendo de “manchar a própria masculinidade” praticando alguma forma de “sexualidade errada”.

Acontece que não existe nenhuma sexualidade certa e nenhuma sexualidade errada. Apenas “convencionou-se” que homens devem fazer sexo com mulheres, assim como mulheres devem fazer sexo com homens. Essa é uma idéia baseada na crença (basicamente religiosa) de que o sexo é algo sujo e pecaminoso, devendo destinar-se exclusivamente à reprodução.

Você, felizmente, está descobrindo que o sexo é uma infinita fonte de prazer existencial. E que, felizmente, vai muito além do simples propósito de reprodução.

As mulheres evoluíram muuuuuuuuuuuuuuuuito nesse sentido. Inclusive, já são capazes de se reproduzirem por si mesmas, sem nenhuma ajuda presencial de um homem. Basta que decidam por ter um filho e se dirijam a um Banco de Sêmen...

Os homens, ao contrário, permanecem na “idade da pedra”, em termos de sexo, sexualidade e prazer.
Sua maior preocupação não é a de “ter prazer” mas a de “manter a imagem da masculinidade”. Morrem de medo de “não serem” ou “deixarem de ser homens”, por terem feito isso ou aquilo que, dentro do vetusto e ultrapassado “código da masculinidade” possa vir a depor contra eles.

Já notou que as mulheres nunca “se pelam” nessa dúvida cruel de se são ou não mulheres por fazerem isso ou aquilo? Elas não estão nem aí. Brincam entre elas, andam de mãos dadas na rua, se beijam, se abraçam, dormem juntas, vestem-se com roupas masculinas, etc, etc, sem jamais “entrar em parafuso” com essa pergunta absolutamente ridícula: será que eu sou gay?

E se você for gay, hein? Que diferença faz? Em que é que o fato de você ser ou não gay vai contribuir para que você seja uma pessoa melhor ou pior nesse mundo? Quem lhe disse que o “certo” é ser “hetero” e o “errado” é ser gay, como você deixa transparecer na sua pergunta tão “perturbadora” quando “desproposital” e nonsense: - será que eu sou gay por gostar de travesti?

Notou que lhe importa muito menos o fato de “gostar” – que deveria ser o seu principal objeto de atenção – do que o fato de “ser gay”, que não tem a menor importância no contexto da sua felicidade e satisfação pessoal nesse mundo?

Será que você está querendo dizer que é preferível sofrer, padecer, reprimir-se e repudiar o seu desejo por travesti do que “correr o risco” de ser reconhecido como “gay” pelos outros? Você não acha muita tolice desprezar o seu “desejo real” em nome da manter uma “fachada” daquilo que a sociedade chama de masculinidade?

Antes de mais nada, diga-me o que é ser homem? E diga-me, também, o que distingue um homem de uma mulher ou de uma travesti? A propósito, o que é masculinidade? O que é feminilidade? Tente responder a essas questões e a sua cabeça vai dar um nó sem tamanho pois, apesar de serem coisas que a gente defende de unhas e dentes no dia a dia, ninguém sabe dizer exatamente o que é, exceto “moralistas”, “pregadores fundamentalistas” e outros embusteiros que baseiam suas conclusões dos seus próprios preconceitos e/ou se baseiam em idéias de cinco mil anos atrás ou mais.

Se a “sociedade” diz que a união deve acontecer entre um homem e uma mulher - e não entre um homem e uma travesti – caberá a você decidir como é que você deseja posicionar-se em relação a isso. Uma coisa é o que a sociedade diz; outra coisa é o que lhe diz o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça. Para onde pende o seu “querer” mais íntimo e verdadeiro? O que vale são as suas respostas, não as respostas prontas que a sociedade tem para lhe oferecer.

Você gosta de fazer sexo com travesti? Faça. É isso que deixa você feliz? Pois então, o que está esperando? Ponha de lado essas perguntas tipo “isso é/não é coisa de macho?”, “isso é/não é coisa de gay?”, cujas respostas não terão jamais nenhuma importância concreta na definição da sua felicidade. E daí se for “coisa de gay”? E daí, se você for gay? Será que você será menos “você”, sendo gay, isto é, tendo orientação homossexual? Será que é bom pra você continuar vendendo por aí uma imagem de “macho hetero”, e vivendo uma vida miserável, totalmente infeliz por não estar sendo a pessoa que é e por não estar fazendo aquilo que o seu coração, seu corpo e a sua cabeça desejam?

Amar travestis não é crime e ser gay também não é. E o que importa mesmo é a relação entre duas pessoas humanas, independente de que rótulos elas tenham recebido por parte da sociedade.

A única consideração que eu teria para lhe fazer não tem nada a ver com você gostar de travesti e ser ou não ser gay. Como eu já lhe disse, essas coisas não fazem e não farão a menor diferença na sua história de vida.

O que realmente me chamou a atenção é de você estar casado com uma pessoa, no caso uma mulher, e estar tendo relacionamentos fora do casamento, motivado por insatisfação da vida a dois. Se fosse o contrário, ou seja, se fosse a sua esposa que estivesse se relacionando sexual e/ou afetivamente com outras pessoas você ficaria satisfeito com isso?

Em vez de você se perguntar uma tolice dessas – se é ou não gay por gostar de travestis – deveria se perguntar se é bom pra você permanecer dentro de uma relação sem querer realmente ficar nela. E pior: se é justo “trair” uma relação firmada com outra pessoa e que está lhe servindo apenas de “fachada pública” pois, como você disse, gostaria de terminar seu casamento e ir morar com uma travesti. Fora os eventuais problemas de promiscuidade da sua parte, que podem afetar a sua companheira, não é legal de maneira nenhuma trair os sentimentos ou os desejos de outra pessoa, seja ela uma mulher, um homem ou uma travesti, tal como você está fazendo, permanecendo dentro de um casamento onde você não se sente nem feliz, nem realizado nem satisfeito.

Ser ou não ser gay por gostar de travesti, repito, não tem nada a ver. São só preocupações machistas totalmente bobas e sem sentido. Pare com isso, ouça o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça e vá atrás do seu desejo, da sua felicidade.

Agora, se não está bom ficar casado – seja com uma mulher, com um homem ou com uma travesti, pouco importa - se não é isso que você quer, caia fora da relação. Não fique ao lado de alguém só por conveniência, para manter uma “máscara” social aceitável. Isso faz muito mal, tanto pra você quanto pra outra pessoa.

Espero que você reflita sobre tudo isso e vá atrás do seu desejo. Você é a única pessoa que pode fazer por você.

Beijos,

Letícia Lanz

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