Divã da Lanz

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Quais são os comportamentos sexuais que posso atribuir a um cd, sem vincular com orientação sexual?

Cara Letícia,

peço sua descrição neste momento. Sou esposa de um cd e tento compartilhar suas fantasias, ora por me dar prazer vê-lo feliz, ora para fazer parte de seu mundo.

Não tem sido tão fácil entender que não é só vestir roupas que o torna interessado e excitado. Quais são os comportamentos sexuais que posso atribuir a um cd, sem vincular com orientação sexual?

Excitação ao ver outros cds, porém em vídeos com imagens sexuais, é comum no comportamento de cds heterossexuais?

No aguardo de seu aconselhamento.

 

Prezada amiga,

Obrigada pela confiança em dividir comigo esse aspecto tão especial da sua intimidade.

Posso compreender os medos e os dilemas que você enfrenta para manter essa relação nem um pouco convencional com o seu marido. Entretanto, todos os seus medos e dilemas (de resto os de todos nós...) podem ser reduzidos a um único, que é o de adequar nossas condutas aos padrões amplamente aceitos na sociedade - mesmo sabendo o quanto eles podem ser hipócritas - ou escolher livremente o nosso modo de vida, "passando por cima" de umas tantas convenções e "conveniências". O eterno dilema de cada pessoa está entre seguir a própria cabeça e o próprio coração ou fazer exatamente o que a sociedade espera da gente, ser “normal”.

“Normal”, sabemos, é a pessoa que se comporta de acordo com as “normas” da sociedade. Qualquer um que infrinja essas normas, atreve-se (literalmente “atrever-se significa “entrar nas trevas”...) a entrar no terreno cinzento e pantanoso da “a-normalidade”. Homens que se vestem ou agem de maneira considerada “feminina”, seja lá por que motivos forem, são habitualmente tratados como graves transgressores do código de conduta do gênero masculino, por mais "normais" que sejam em todos demais setores das suas vidas. Embora não haja nenhuma lei proibindo alguém de se vestir ou se comportar de modo considerado “feminino”, existe um milenar (e completamente idiota) estigma sociocultural sobre tal comportamento.

Ter um comportamento "comum" significa agir de acordo com a “norma”, ou seja, de modo perfeitamente ajustado aos padrões que a sociedade considera como "normais", numa determinada época e lugar. Contudo, quando se trata do desejo vinculado à história de vida de cada pessoa, é impossível afirmarmos se um comportamento é "comum" ou "raro", "certo" ou "errado", normal ou anormal. Cada pessoa é única e só ela pode saber de si - ninguém mais.

Sei o quanto é difícil olharmos uma pessoa como ela é - e não como a sociedade (e, por decorrência, a gente...) acha que ela "deveria ser". Também é fácil (e "normal" e "comum"!) olhar, julgar e rotular alguém exclusivamente com base em categorias sociais e normas de conduta pré-fixadas.

Gênero e sexualidade são duas categorias de pensamento que continuam cercadas de mistério, como um verdadeiro tabu, em pleno século XXI. Ao mesmo tempo que continuam a ser tratadas como tabu, essas duas categorias permanecem inexoravelmente “atadas” uma à outra, quando, na realidade, são duas coisas absolutamente distintas uma da outra.

De fato, identidade de gênero não tem nada a ver com orientação sexual. Identificar-me com valores e comportamentos tidos pela como femininos NÃO SIGNIFICA que eu deva ter preferência sexual por homens!!! Aliás, nem mesmo o fato de nascer fêmea (mulher genética) implica automaticamente em ter preferência sexual por machos (homens genéticos)!!! Se fosse assim, não haveria mulheres lésbicas.

Esse vínculo automático e imediato entre “identidade de gênero” e “orientação sexual” é só mais um dos dispositivos totalmente artificiais que a sociedade nos obriga a engolir “goela abaixo”, como se fossem determinações da própria Natureza. Entretanto, não passam de “normas socioculturais”, estabelecidas para dominar e submeter as populações, enquadrando-as de acordo com os interesses das classes dominantes. E “ai de quem” não seguir essas “normas”... Aos transgressores, as penas da lei e o fogo do inferno...

Mas com base em quê alguém pode afirmar que esse ou aquele comportamento sexual não é “adequado”, “comum” – numa palavra – “normal”? Com base em “normas” sociais totalmente tendenciosas, fixadas por religiosos e moralistas, a serviço das classes dominantes? Com base em “suposições científicas”, quase sempre desenvolvidas para apoiar e favorecer normas de natureza moral?

Livre de todas as hipocrisias e imposições morais, a sexualidade humana é comprovadamente um domínio muito mais amplo e complexo do que o simples mecanismo biológico de reprodução presente em todas as espécies vivas deste planeta.
A sexualidade humana é uma fonte de energia vital incrivelmente pródiga e poderosa, capaz de grandes realizações.

Foi a partir dessa constatação que Freud postulou as bases da psicanálise, afirmando que o desenvolvimento biopsicossocial da nossa espécie só se tornou possível mediante a apropriação da sexualidade humana para “uso social” como o trabalho, as ciências, o esporte, as artes. Segundo ele, “a sociedade humana cresceu e se desenvolveu com base na repressão da libido”. É a “sexualidade reprimida” que fornece o combustível necessário para o funcionamento da sociedade, em todos os sentidos!!!

Não há limite para a sexualidade humana porque não há limite para a imaginação humana. E a imaginação humana, se quisermos repetir Freud, nada mais é do que a “libido” socialmente apropriada para fins não-reprodutivos.

Em nome do seu próprio desenvolvimento, a sociedade converteu sexualidade em “atividade produtiva”, confinando-a a uma “camisa de força moral” e submetendo-a a regras absolutamente repressivas e castradoras. Ou seja, ao contrário do que preceituam os “manuais de conduta moral”, não existe uma sexualidade “normal” e outra “anormal”. Excetuadas as práticas sexuais que violentam a integridade física e/ou mental de um dos parceiros, como é o caso de pedofilia ou de incesto entre pais e filhos. todo comportamento sexual humano deve ser considerado legítimo, bastando para isso que exista consentimento e consenso entre as partes direta e indiretamente envolvidas.

Você está me perguntando o que seriam comportamentos sexuais “comuns” entre crossdressers. Com sua pergunta, parece estar de alguma forma “estranhando” que o seu marido se sinta “sexualmente excitado” com imagens de travestis, transexuais, outras cds e coisas assim. As pesquisas têm mostrado que os comportamentos sexuais “comuns” entre cds são absolutamente os mesmos comportamentos sexuais comuns no restante da população. Ou seja, não há nenhuma diferença em termos de percentuais entre as práticas comuns na população de cds e na população em geral, ao contrário do que advoga o senso comum, baseado em meros preconceitos, de que todo cd é homossexual ou no máximo bi.

Ademais, vale observar que na população masculina não-crossdresser (a grande maioria da população, já que cds representariam um percentual máximo de 5 a 10%) existe um percentual muito expressivo de homens que se sentem sexualmente atraídos por travestis, transexuais, cds, drags-queens, etc. Deve ser, aliás, esse grande contingente de homens cisgêneros (não-transgêneros) que garantem a sobrevivência das travestis que se prostituem nas ruas ou que vendem “cybersex” em sites pornográficos. Ou seja, guardadas as proporções estatísticas, o percentual de cds que têm atração por travestis, transexuais e afins seria muitíssimo pequeno para garantir a existência de uma robusta população de travestis vivendo da prostituição.

Uma das explicações comuns para o elevado número de homens cisgêneros que sentem atração por travestis é o fato da travesti também ser homem e, portanto, potencialmente, conhecer muito mais das fantasias sexuais do homem do que qualquer mulher biológica.

Concluindo, não é pelo fato de ser transgênero que a orientação sexual da pessoa se modifica, adquirindo nuances radicalmente diferentes, incomuns ou até contrárias relativamente à população em geral. A incidência de tipos de orientação sexual dentro do universo transgênero É ABSOLUTAMENTE A MESMA que existe na população em geral. Você mesma, nesse exato momento, bem poderia estar casada com um homem que não fosse cd mas que, tal como o seu marido, apresentasse algum tipo de excitação por travestis e afins. E dificilmente você saberia disso (como sabe a respeito do seu marido...) pois um homem cisgênero jamais revelará a quem quer que seja (à esposa principalmente) a sua atração sexual por travestis, pois isso colocaria em risco sua reputação de macho.

Não que isso vá modificar alguma coisa na relação com o seu marido (não há nada de mais ou de menos em ser casada com cd, fetichista, travesti ou o que seja!). Mas talvez seja bom, até pra ele mesmo, vocês conversarem sobre os verdadeiros motivos que cercam o crossdressing dele. Existem muitos homens que gostam de se vestir com roupas femininas mas que não têm nenhum distúrbio de identidade de gênero, ou seja, sentem-se bastante confortáveis com as regras de conduta da “masculinidade”. Esses homens não podem ser considerados cds, ou pelo menos como cds transgêneros. Eles apresentam apenas um comportamento sexual fetichista, que não deve ser confundido com manifestação de transgeneridade. Quando um fetichista usa roupas femininas ou admira fotos de travestis, transexuais, etc., faz isso exclusivamente com o propósito de se excitar e/ou de se satisfazer sexualmente. Um cd, embora possa até ficar sexualmente excitado com fotos ou vídeos de travestis sente, antes de mais nada, uma grande inveja daquelas fotos não serem dele mesmo. Aí está a diferença crucial entre um crossdresser e um fetichista: - no fetichista, o desejo de se travestir existe apenas como um “deslocamento” do objeto sexual, de uma pessoa (no caso a mulher) para uma coisa (no caso, as roupas da mulher); no crossdresser, o desejo de se travestir é apenas parte do ritual de expressão da sua própria personalidade feminina. No fetichista, uma vez atingido o orgasmo, o desejo de se travestir desaparece imediatamente. Em um cd, o desejo de se travestir jamais desapareceria de maneira tão simples e fácil, em função de um simples orgasmo.

Por último, o mais importante de tudo. Independente do que o seu parceiro matrimonial seja ou deixe de ser, pareceu-me que você é que está confusa quanto ao seu papel na vida dele e de que maneira você quer, pode e/ou deve desempenhar esse papel. Pela forma que você escreveu, pareceu-me estarem bem claras para você as demandas que ele tem, tanto em termos de gênero (seu desejo de se travestir) quanto em termos de sexo (atração por sexo com travestis, outros cds, etc). Pergunte a si mesma o quanto é confortável (ou desconfortável) ter que entender, aceitar e até mesmo participar no atendimento a essas demandas. A questão, portanto, que realmente importa a você examinar e decidir, como cônjuge, não é se o que ele faz é “comum” ou “raro”, “normal” ou “patológico” e sim se você está - ou não - disposta a manter sua relação matrimonial com ele, a despeito do que ele é e faz.

Cabe a você - e somente a você - decidir o quanto está disposta - ou não - a relacionar-se com um marido que está longe de corresponder ao padrão "chinelo e pijama listrado". Para viver junto de alguém, é preciso que a gente esteja pessoalmente disposta a conviver com o outro como ele é – e não como a gente acha que ele deveria ser, em função dos nossos próprios desejos, medos e limitações.

Esperando te-la ajudado (mais do que atrapalhado...), envio-lhe o meu cordial abraço. Conte comigo quando quiser ou precisar.

Letícia Lanz

 

Sou casado, não traio minha esposa com outras mulheres, só garotas de pograma, mas não consigo transar 2 vezes. O que tenho?

Sou casado há 6 anos e não traio minha esposa com outras mulheres, apenas Garotas de Programa e a frequência é de uma vez a cada três meses, no mínimo...A questão é que quando estou com uma dessas meninas, a excitação inicial é muito grande e gozo muito rápido, normalmente nos primeiros cinco minutos, como o tempo destes encontros normalmente é de uma hora hora, fico o restante deste tempo tentando dar uma segunda e não consigo, apesar da menina escolhida ser muito bonita e gostosa...A pergunta é: bate a dor na consciência ou o problema é físico??
Aguardo retorno,
Abraços,

Prezado,

Ejaculação precoce e disfunção erétil quase nunca são problemas de ordem puramente física. Na maioria dos casos estão relacionados a conflitos não-resolvidos, responsáveis por estados de tensão, ansiedade, angústia, depressão e estresse que levam à perda da libido e ao mal funcionamento do organismo em geral. Fico, portanto, com a sua primeira hipótese, quando você diz que não está conseguindo fazer sexo direito fora de casa por que "bate dor na consciência".

Embora traíção - ou adultério - tenha deixado de ser crime, no Brasil, a partir do novo Código de Processo Civil, na prática continua sendo uma questão muito delicada no relacionamento do casal. Poucas mulheres aceitam a ideia dos seus maridos saírem por aí, transando livremente com outras, como era comum há cinquenta anos. Naquela época, as mulheres, na sua maioria, ainda eram completamente submissas e dependentes do homem. Não tinham meios nem de protestar. Hoje, ao contrário, adquiram um status social de plena independência do homem, inclusive financeira para um grande número delas. O homem que quiser preservar seu casamento já não pode, em matéria de sexo, fazer "o que bem entender" fora de casa, como fazia no passado. E a menos que haja uma combinação entre os cônjuges, autorizando-se a ter suas escapulidas fora do casamento, qualquer aventura sexual de um poderá ser, sim, considerada traição pelo outro.

Mas se não houve nenhuma combinação prévia entre os cônjuges para a "liberação geral", traição será traição, mesmo que seja apenas de vez em quando e só com garotas de programa. E mesmo que você não considere "garotas de programa" como "outras mulheres", pode ter certeza que sua esposa não pensa assim.

Ver as garotas de programa como "meros objetos de prazer" não deixa de ser uma boa justificativa para aliviar a consciência de um sujeito casado há seis anos, que não deseja trair a mulher com "outras mulheres". Nesse caso, fazer sexo com elas, não representaria nenhuma traição, mas apenas uma discreta e sutil "sessão de masturbação" com o uso de um "objeto".

Contudo, pela insatisfação que você tem ficado com as suas "sessões masturbatórias fora de casa", parece que nem a sua consciência está engolindo muito bem esse seu argumento de que "garotas de programa" não são "outras mulheres". O peso da traição está pesando na sua consciência e você tem ficado em conflito, imaginando, inconscientemente, que está realizando uma atividade ilícita. Sua ejaculação precoce, seguida da falta de desejo e disposição para uma segunda penetração, seriam manifestações inequívocas do sentimento de culpa por estar traindo sua mulher. A pressa em gozar o mais rápido possível revela apenas o seu medo inconsciente de ser apanhado por alguém (sua mulher?). Qualquer adolescente desenvolve ejaculação precoce ao imaginar que pode ser apanhado pelos pais "batendo punheta" no banheiro...

Talvez fosse bom você examinar mais a fundo os motivos que o estão levando a buscar sexo fora do casamento, sem falar que você precisa abrir o jogo com a sua mulher, o quanto antes. Pode ser que ela não esteja lhe proporcionando o tipo de sexo que você deseja, não esteja atendendo as suas fantasias eróticas, não esteja sendo atraente e sensual (como uma garota de programa...) ou simplesmente não se disponha a fazer sexo com você na frequência e/ou na intensidade que você quer. Mas pode ser também que o problema não seja com ela. Pode ser que nem mesmo haja problema. Que tudo seja apenas uma necessidade íntima de você afirmar sua virilidade. Ou que você seja o tipo de homem que simplesmente não se satisfaz com uma única parceira.

Seja qual for sua motivação para fazer sexo fora do casamento, se você quiser preservar a relação com sua mulher é bom discutir com ela a respeito disso, com toda franqueza e objetividade. É preciso que ela pelo menos conheça seus desejos sexuais e tenha oportunidade de tentar atende-los dentro da própria relação matrimonial. E, se isso não for possível, que ela concorde que você busque sua realização sexual fora do casamento como, aliás, você tem tentado fazer. Isso se chama diálogo e só através dele é possível alcançar-se o entendimento do casal.

Como diz a música da Rita Lee, amor é amor e sexo é sexo. Se for possível ter os dois juntos, ótimo. Se não, devemos ser suficientemente adultos para correr atrás do nosso desejo, seja ele qual for.

O que não pode é você inventar desculpas, como essa de que "garotas de programa" não são "outras mulheres", tentando evitar a culpa de estar traindo sua mulher. Nos casamentos de hoje, os direitos e os deveres tornaram-se absolutamente iguais, lembre-se disso. Ela também poderia muito bem sair com "garotos de programa" sem considerar que isso é traição. -los "outros homens", assim como você.

Beijos

Letícia Lanz
www.leticialanz.org

PS - apenas uma coisa, que eu gosto de lembrar sempre: - faça o sexo que quiser, mas faça sempre de modo seguro.

 

Quero tomar hormônios para virar travesti mas não sei se é tarde. Pode me ajudar?

Oi Letícia tudo bem?
Meu nome é Bruno, tenho 23 anos e quero muito me transformar em uma travesti... mas acho que é tarde para começar a tomar os hormônios. Qual a sua opinião?
Obrigado.

LETICIA LANZ RESPONDE:

Embora você coloque a sua dúvida de maneira bastante clara, sinto não poder lhe oferecer uma opinião direta e objetiva a respeito desse assunto, como penso que você gostaria de receber.

Claro que qualquer um pode fazer essa transição no mais completo oba-oba, sem levar em conta nenhum outro fator exceto a realização de uma fantasia. Mas, como diz o ditado, "quem vai no oba-oba, costuma voltar no epa-epa"...

Não é nada fácil alguém decidir, conscientemente, se deve ou não fazer essa transição. Há dezenas, centenas de fatores a ser considerados antes de se fazer essa escolha e a idade em que a pessoa se encontra é apenas um deles. Aliás, posso lhe assegurar, um fator de pouquíssima importância no conjunto dos fatores que determinam a decisão final de transicionar ou não. Conheço gente que transicionou depois dos 65 anos o que, a rigor, é até mais fácil de se fazer do que aos 23, uma vez que o avanço da idade faz com que homens e mulheres fiquem fisicamente muito mais parecidos... Talvez porque machos e fêmeas deixem de se esforçar tanto para parecer tão diferentes uns dos outros, como acontece em outras fases da vida, em virtude das pressões sociais para que se mantenha essa diferenciação.

Idade não é impeditivo para a transição, a menos que você esteja pensando em transicionar a tempo de participar do concurso de Miss Universo... E se esse fosse o seu objetivo eu iria desencoraja-lo de imediato, pois você estaria delirando.

É preciso que você saiba que um homem jamais conseguirá preencher todos os requisitos estéticos relacionados à "figura feminina ideal" que carrega dentro de si. Por mais que fique parecido com uma fêmea genética real, na frente do seu próprio espelho um homem jamais ficará inteiramente satisfeito com as transformações alcançadas! Pessoas transgêneras (crossdressers, travestis e transexuais) não se contentam com pouco: - querem ser mais reais do que a própria figura real da mulher, figura da qual sempre serão apenas simulacros. Essa permanente insatisfação com a própria aparência é um dos traços mais fortes do "distúrbio de identidade de gênero" que em graus distintos afeta a todas as pessoas transgêneras.

Você menciona os hormônios... Acho que as pessoas imaginam esses medicamentos como um tipo de "poção mágica" de conto-de-fadas que, ao ser tomados, realizariam instantaneamente todas as transformações físicas e mentais que alguém aspira fazer. Nada mais irrealista! Hormônios não fazem nenhum milagre físico e muito menos sócio-emocional na vida da pessoa que deseja transicionar. Você nem imagina como pode ser desastroso, para não dizer desesperador, um homem começar a ver seus peitos se projetarem (hormônios femininos fazem os peitos crescerem - e praticamente só isso) e ele continuar sendo homem em todos os outros sentidos, principalmente no sentido sócio-emocional.

Para ser mulher não basta possuir apenas um determinado tipo de corpo físico, como a maioria dos homens imaginam em suas fantasias. Ser mulher é ser, sobretudo, a personagem social da mulher. Não basta nascer fêmea: - é preciso aprender a ser mulher, a se comportar como mulher, a viver os papéis sociais de mulher. Resumindo: o corpo feminino é apenas um veículo para a vivência de papéis socialmente definidos como femininos, nada mais. Com o homem se passa da mesma forma. Um macho de nascimento não se torna automaticamente homem, dentro dos ideais de masculinidade estabelecidos pela nossa cultura.

O que está em jogo quando você pensa em tornar-se uma travesti? Um desejo irresistível de ser mulher? Uma fantasia sexual recorrente, que acaba sempre em masturbação? Querer exibir-se socialmente, dentro de roupas luxuosas e atraentes? Encontrar homens e realizar-se sexualmente? Que transformações corporais você considera importantes realizar nessa transição? Deseja manter seus órgãos genitais ou sente a necessidade de se livrar deles? Qual é a sua orientação sexual? Homo? Bi? Hetero? Já experimentou "viver como travesti" em tempo integral? Que aprendizados sócioemocionais você terá que fazer a fim de se adequar aos novos papéis que se propõe viver daqui pra frente? Como é que você acha que se sentiria se não conseguisse realizar a transição? Que vínculos pessoais e profissionais seriam afetados pela sua transição? Como você pensa ganhar a vida depois de ter transicionado? Qual é, afinal, o seu desejo e de que forma você pensa em leva-lo adiante?

Enfim, para transicionar conscientemente, você precisaria de se colocar questões muito mais amplas e profundas do que simplesmente querer saber se a idade em que você se encontra é ou não adequada para fazer a transição.

Finalmente, preciso lhe dizer que o desejo de se tornar travesti não desaparece com a idade. Se é real, vai continuar demandando seu tempo e sua energia pela vida fora, quando não costuma aflorar nos momentos mais impróprios e cruciais de nossas vidas. Quanto mais cedo você identificar a verdadeira natureza do seu desejo, mais chances terá de viver uma vida plena e feliz.

Portanto, procure saber o quanto o seu desejo é "real" e o quanto ele é "ficção"; o quanto ele é essencial e o quanto ele é acessório ou supérfluo para a sua realização pessoal. Se necessário, busque ajuda de um(a) analista para ajuda-lo nesse processo de auto-descoberta. Esse é o ponto de partida para qualquer escolha consciente que você venha a fazer a respeito de se tornar travesti.

Letícia Lanz
www.leticialanz.org

Não sei se sou crossdresser ou não e preciso de ajuda para me descobrir e definir

Olá Letícia
Tenho uma dúvida que preciso esclarecer; é o seguinte não sei se sou crossdresser ou não. Na minha pré adolescencia fiz sexo anal com meus colegas de escola dos 10 até os 12 anos. Vivia um conflito dentro de mim... Depois parei isso tem 20 anos.
De uns 3 anos para cá eu comecei a praticar sexo anal com acessórios.
Comecei também vestir certas peças intimas... Até um tempo atrás eu tinha uma calcinha fio dental... Depois corri e joguei fora.
Na verdade, tenho uma família de rígidos padrões e depois de muito filosofar e meditar desisti.
Na época que fiz sexo anal na minha pré-adolescência era de um lado muito gostoso e de outro tinha a repressão de daquilo... Nojento e imundo... Pecado....
Hoje com meus 35 anos comecei a praticar o crossdressing (armário) e minha namorada me apoia... Inclusive pedi a ela para fazermos inversão de papéis ela topou!!! Ótimo!!!
Na época do carnaval conversávamos sobre as fantasias, e falei sobre um dia sair "montada" de saia salto alto blusa baby look e maquiada. Ela me disse que irá sair um dia pela rua comigo "MONTADA" mas ela iria escolher as roupas e iríamos para outra cidade não na que estamos pois moro no interior... Já viu...
Adorei a iniciativa dela.
De uns tempos para cá até tinha e tenho achado que tinha perdido o tesão por mulheres estou meio com medo disso... Até preciso resolver isso e gostaria que vc me ajudasse me orientasse sobre isso.
Eu acredito pelo que li em alguns de seus artigos que o meu crossdressing é leve...inclusive vc diz que se não tomarmos cuidado e termos um freio ele é capaz de fazer UM ESTRAGO NA SUA VIDA FINANCEIRA... Muito interessante.
Ainda sim preciso muito da orientação de uma pessoa que já viveu e vive esse lado, e gostaria que vc me ajudasse Letícia.
Muito obrigado pela atenção e carinho
Tudo de Bom que Deus a ilumine.
Beijos


LETICIA LANZ RESPONDE:
 

Caro,

Em meio a umas tantas outras dúvidas (e certezas disfarçadas de dúvidas...), você me pede que eu lhe diga se você é ou não crossdresser.

Entendo sua preocupação em conseguir um rótulo que o/a identifique no mundo, muito particularmente nesse "mundo transgênero" que você está começando a ter coragem de penetrar, embora ao que parece ele já esteja presente na sua vida há mais tempo. Sei que você desejaria ter um nome que descrevesse, de um só f'ôlego, tudo que você é, sente, pensa, quer e faz para expressar a sua identidade única e singular nesse mundo, das suas tentativas de descobrir e manifestar sua orientação sexual ao seu desejo de usar roupas socialmente destinadas "ao outro sexo".

Na verdade, esse seu desejo de ser enquadrado em uma categoria e ganhar um rótulo é a regra geral dentro do universo transgênero. Aqui costuma existir inclusive uma "hierarquia" de classes, com os fetichistas e cds de armário ocupando a base da pirâmide e as transexuais operadas posicionadas bem no topo... De resto, a preocupação das pessoas com categorias, rótulos e títulos é a regra geral da vida em sociedade. Todo mundo quer ser "reconhecido" como membro de um dado grupo ou categoria social porque, para a maioria, é isso que significa ter uma "identidade". Com certeza essa é a mais terrível "mentira social" que povoa as nossas mentes pois "identidade" é algo essencialmente relacionado à "individualidade" e não à coletividade, ainda que a gente dependa do "olho do outro" para consolidar a própria visão de quem a gente é.

O problema dos rótulos - masculino, feminino, transgênero, transexual, crossdresser, andrógino, etc, etc - é que ídentidade de gênero não é algo fixo, mas mutável, assim como não pode ser reduzida a umas poucas categorias. "Identidade de gênero" é uma característica única de cada pessoa. Ainda que possa ter - e tem - muitos pontos em comum com a identidade de gênero das outras pessoas, identidade de gênero é sempre fruto de uma combinação muito particular de fatores, que é própria de cada ser humano e que constitui a base da enorme diversidade de tipos humanos que a gente conhece. Além de sua enorme diversificação, a identidade de gênero é também altamente flexível, podendo mudar incrivelmente ao longo da vida de qualquer pessoa. A despeito disso, num flagrante desrespeito à diversidade humana, a sociedade continua classificando oficialmente as pessoas em apenas duas grandes categorias de gênero, ambas "fixas" e "imutáveis": "homem" e "mulher" ou "masculino" e "feminino"...

Tudo que eu posso lhe dizer é que, muito mais importante do que saber se você é CD ou qualquer outra coisa, é saber "se você é você" e se está se sentindo confortável em ser a pessoa que é, independentemente do que as outras pessoas possam pensar ou dizer ao seu respeito. "Crossdressing", isto é, travestismo, não é uma categoria a que a gente possa pertencer mas uma coisa que a gente faz, pelos mais variados motivos. Para alguns, por simples fetiche, como vestir a calcinha da namorada a fim de aumentar o tesão na hora de transar. Para outros, com a finalidade de expressar uma identidade de gênero que fica guardada a maior parte do tempo, por estar em conflito com a classificação que a sociedade nos deu ao nascer. No meu caso, por eu ter nascido macho, fui classificado como do gênero masculino, isto é, como homem. O problema (hoje solução...) é que, desde criança, vá se saber por que razões, sempre achei infinitamente mais bonitas, mais atraentes e mais confortáveis as roupas e os calçados de mulher. Para outras tantas pessoas, vestir roupas do sexo oposto, isto é, fazer "crossdressing" ou "travestismo" é a única coisa que faz sentido, uma vez que se sentem como verdadeiramente percententes ao sexo oposto.

Da mesma forma, muito mais importante do que saber se suas práticas sexuais têm ou não a aprovação da sua família ou da sua religião, é saber se elas são realmente prazerosas para você, se são praticadas de maneira segura e confortável e se têm o consentimento pleno das partes eventualmente envolvidas. Esses devem ser os únicos critérios que você deve observar, sem se prender a essas tolas preocupações a respeito de se é certo, errado, se é coisa de homem, de boiola, de mulher, de travesti ou do raio que o parta.

Porém, o mais importante de tudo é você jamais se envergonhar de expressar a pessoa que você é, ou seja, a sua identidade de gênero, que é única, como é único o número da sua própria carteira de identidade. Muitos machos transgêneros têm a maior vergonha, pra não dizer medo devastador, de expressar a sua identidade, em virtude dos rígidos dispositivos do gênero masculino ao qual são submetidos desde o nascimento em virtude de trazerem um pinto entre as pernas. Sofrem inutilmente, tentando preservar uma "fachada" de masculinidade em um mundo onde as rígidas fronteiras de gênero, ainda que persistentes, encontram-se completamente detonadas, diga-se de passagem muito mais pelo esforço e determinação das mulheres do que pelos homens, arrogantes e acomodados como sempre.

Minha sugestão é que você aproveite ao máximo esse seu momento de intensas descobertas pessoais relacionadas à sua identidade de gênero e a sua sexualidade. Desista de procurar um rótulo para identificar o que você faz, quer, pensa ou sente a respeito de si próprio/a. Em lugar disso, assuma a expressão da sua identidade tal como ela estiver se manifestando em você. Em vez de querer saber se você é homo, hetero ou bi, procure vivenciar e desfrutar intensamente suas experiências sexuais. Em vez de querer saber se você é fetichista, crossdresser, travesti, transexual ou qualquer outra coisa, procure ser e expressar você mesmo/a, senão o tempo todo, pelo menos a maior parte do tempo. Resumindo: permita-se ser a pessoa que você sente que é. Que roupas você gosta de vestir? Que tipo de "performance" social mais o atrai? Com quem você gosta de fazer sexo?
Que tipo de relação afetiva você quer manter com as pessoas? Que roupas você gosta de vestir? Que tipo de "performance" social mais o atrai? Que roupas você gosta de vestir? Que tipo de "performance" social mais o atrai? Qual tipo de corpo você deseja cultivar?

Essas coisas contam infinitamente mais do que qualquer rótulo que você carregar na testa. A propósito, para o grande público, "crossdresser" não passa de um travesti ou boiola "metido a besta"...
 

 

Letícia Lanz

 

 

Sou mãe de 1 menino de 14 anos, que há uns 20 dias revelou que é GAY, estou desesperada, e a familia toda arrasada, que faço?

Sou mãe de 01 menino de 14 anos, que há uns 20 dias revelou que é GAY, estou desesperada, e a familia toda arrasada, somos muitos conservadores, mas amamos muito ele.

Todos os dias quando ele chega da escola, tento falar com ele, mas ele muda o assunto e não se abre comigo, esta sendo muito dificil pra mim, sou só com ele ( O pai dele nunca quis conhece-lo), moro com minha mãe e minha avó.

Gostaria muito de uma orientação: De como posso chegar nele e fazer com que ele se abra pra mim, explicar pra ele sobre preconceitos, doenças e tudo mais que um Gay sofre.

Ontem eu fui em 02 escolas (Ingles e Musica) é que ele mais queria fazer, quando dei a noticia pra ele , ele disse que não vai estudar, pq ele diz que a minha intenção é de ocupar o tempo todo dele, e ele não ter mais contato com os amigos, eu só quero o melhor pro meu filho, mas esta dificil de dialogar com ele.

Ele sempre foi um filho carinhoso, alegre, prestativo, mas agora mal olha na minha cara, não conversa com niguem em casa e se tranca no quarto dele o dia todo.

Estou sem chão no momento, não consigo mais escrever,

Aguardo seu retorno , e sua ajuda

Atenciosamente,

LETICIA LANZ RESPONDE:

 

Posso entender o seu desespero, mas preciso lhe dizer que você está sofrendo desnecessariamente. Há muito tempo a homossexualidade deixou de ser considerada doença ou desvio de conduta, sendo hoje reconhecida apenas como aquilo que sempre foi, ou seja, um dos tipos possíveis de orientação sexual que uma pessoa pode ter ao longo da sua vida. Enfim, não há nada de errado com o seu filho, como você acredita e expõe de maneira tão dramática e pesarosa. Muito pelo contrário, eu diria que o simples fato dele lhe revelar sua orientação homossexual demonstra, de um lado, que ele está num processo de desenvolvimento normal, descobrindo e assumindo a sexualidade na idade esperada para isso, que é em torno dos 14-16 anos e, de outro, que ele tem confiança em você.

É bem provável que o problema esteja com você mesma. As mães gostam de fazer projetos para os filhos: - o que eles vão ser quando crescer, com quem irão se casar, os netos que virão... De repente, o filho chega para a mãe e diz: - sou homossexual... gosto de outros meninos... Para quem fez tantos planos para o filho é um banho de água-fria. No caso da revelação da homossexualidade do filho, um banho de água fria com respingos pela casa inteira: - o que é que a família vai dizer, o que é que os vizinhos vão pensar, o que será do futuro de alguém que não irá se casar, não terá filhos, nem uma família só dele, como esse filho será tratado pela sociedade cruel... As "muitas decepções" rapidamente adquirem a forma de "muitas apreensões". Sem falar na culpa que ronda o tempo todo dizendo: - você é a responsável por isso! No seu caso, então, a culpa deve bater pesado: - meu filho cresceu sem pai, sem um figura masculina em quem se mirar...

Essas e tantas outras dúvidas e especulações inúteis não levarão você a lugar nenhum. Apenas farão aumentar sua angústia e ansiedade pelo futuro do seu filho. A questão não é ser hetero ou homossexual mas ser ou não uma pessoa inteira, digna e feliz. É isso que realmente deve importar para você, como mãe: - ajudar seu filho a ser quem ele é, seja ele quem ele for, e a sentir-se inteiro, realizado e feliz por ser como é.

Se seu filho lhe contou que é homossexual, isso significa que ele confia e conta com você. Você não acha que é uma grande conquista para uma mãe poder contar com a confiança do filho? Muitos jovens na idade dele, infelizmente a maioria, têm enorme dificuldade em se abrir com a mãe em assuntos envolvendo orientação sexual.

É o seu "pé atrás" diante da revelação que ele lhe fez que está fazendo com que ele se feche e se isole de você e de todas as pessoas da família que você mesma disse ser muito "conservadora". E isso não é nada bom, nem pra você e muito menos pra ele, que deve estar precisando muito de apoio, carinho e aceitação nesse momento. E você deve saber muito bem que, na mesma medida em que ele se distancia de você, ele se aproxima de outras pessoas... Infelizmente, no meio dessas "outras pessoas" podem estar aquelas que os pais mais temem de se aproximarem dos seus filhos, sejam eles hetero ou homossexuais.

É você que está perdendo o seu filho em nome, quem sabe, de manter valores e dar satisfação a pessoas que, absolutamente, não têm nada a ver com a vida de vocês: - nem com a sua e muito menos com a dele. Assim, se quer mantê-lo como filho mas, sobretudo, se quer mantê-lo como amigo, trate de rever urgentemente algumas das suas "posições". Por exemplo, você disse textualmente na sua mensagem estar querendo "chegar perto dele para lhe dizer sobre doenças, preconceitos e tudo mais que um gay sofre"... Embora essas informações possam ser úteis e importantes para o bem-estar dele (se seu filho fosse hetero precisaria delas da mesma forma, não é mesmo?), talvez seja a coisa que ele MENOS queira ouvir de você nesse momento. Pior ainda se for no tom lamentoso, angustiado e bombástico dessa sua mensagem.

Tente adivinhar, se puder, o que ele queria ouvir de você nesse momento. Tente. Eu acho que você vai conseguir... Ele muito provavelmente gostaria de ouvir que você vai continuar sendo a mãe dele - e ama-lo e respeita-lo como sempre - independentemente da sua orientação sexual. Você pode ser completamente verdadeira, dizendo-lhe que, por ter saído de uma família muito conservadora, tem alguma dificuldade de entender e aceitar modos de vida não convencionais. CONTUDO, essa dificuldade sua não modifica em nada a relação de vocês pois você sabe muito bem que ele está fazendo a coisa que acha certa e que ter uma orientação homossexual não é crime nem motivo de vergonha para ninguém. Diga-lhe que você confia e acredita na educação que você lhe deu, na amizade que existe entre vocês e na confiança que ele teve em se abrir com você. Diga-lhe como ele é especial para você e quanto você o ama. Diga-lhe que você espera que ele continue se abrindo sempre, pois terá em você um ponto de apoio para todas as escolhas que ele fizer, ainda que você tenha dificuldade em entender e aceitar essas escolhas.

Ele está esperando receber apenas compreensão e acolhimento. Já chega o mundo aqui fora para lembrar a ele o tempo todo que ele é uma pessoa diferente da maioria. Já chega os programas idiotas de televisão para fazer piadas grosseiras com a orientação sexual das pessoas. Já chega pessoas mal-resolvidas para dizer que ele está "errado" em fazer a coisa que é certa pra ele. Ele não está esperando receber críticas ou sugestões de você, nesse momento. Ele não quer saber dos seus medos e dos seus preconceitos. Melhor seria que você procurasse um analista para tratar essas suas questões...

Concentre, portanto, os seus esforços para amar o seu filho pelo que ele é, respeitando suas escolhas e orientando as suas ações. Ainda que as escolhas dele sejam muito diferentes daquelas que você gostaria de ve-lo fazer, lembre-se: que se trata da vida dele - não da sua - e que o máximo que você pode fazer por ele é estar ao lado dele e orienta-lo para que ele se goste, se respeite e se cuide.

Beijos

Letícia Lanz
www.leticialanz.org
 

 

 

Estou tendo dificuldades de ereção e minha testosterona está em alta. Meu problema não é físico. O que tenho e o que faço?

Boa Tarde!

Tenho 58 anos, sou casado a 31, tenho um bom relacionamento com a minha esposa. Porém de uns 5 anos para cá, dei para sair com garotas de programa, para fazer sexo e apreciar um corpinho enxuto, coisa que eu já não sabia mais como era.. .rsrs.
Ocorre, que aí eu conheci uma destas garotas, à Luciana, ela tem 25 anos, e tinhamos uma interação sexual que me deixava nas nuvens, e passei a sair só com ela, daí nasceu uma amizade muito grande entre nós. A coisa de 6 meses, eu a tirei da " vida " e estou pagando-lhe as despesas, faculdade, etc....
A partir dai eu dei para ter uma enorme dificuldade em fazer sexo com ela, não consigo ter o tesão, o desejo, que eu tinha antes, a minha ereção não se completa satisfatoriamente, já tomei Cialis, etc... e nada adianta, vejo que quanto mais expectativa eu coloco a coisa sai pior, e eu fico morrendo de vergonha, na semana passada viajei com ela para SP, e desta f eita, não consegui uma ereção que desse para penetrá-la, fico suando, sentido muito calor, etc... uma verdadeira lástima. E eu sinto que estou completemente apaixonado por ela, e somos conscientes de que uma união entre é fora de questão, porque por nada neste mundo eu deixaria a minha familia, e além do mais a nossa diferença de idade é grande de mais para dar certo.
Vejo também que ela sente por mim uma enorme admiração, gratidão, gosta muito de mim, mais amor, amor, não.
Já fiz testes hormonais, minha testosterona total e livre, é a de uma garoto de 20 anos, estão na casa de 938 para a total, e 18 para a livre. O médico diz que meu problema não é físico.

Márcio L

 

LETICIA LANZ RESPONDE
 

Caro Márcio
 

 

Testosterona e tesão não têm nada a ver uma com a outra. Pelo menos não tem a ver no grau e na intensidade que as pessoas acreditam por aí, influenciadas pela educação tendenciosamente machista que recebem desde a infância. Sua testosterona pode estar lá em cima, como, aliás, está, e, ainda assim, você não conseguir sentir nenhuma tesão. Ao contrário, conheço pessoas com níveis de testosterona ridiculamente baixos cujos níveis de tesão, no entanto, estão lá nas alturas!!! Essa coisa de testosterona alta como sinônimo de tesão é mais um daqueles mitos baseados na falsa noção de superioridade do macho, requentado, de tempos em tempos, por pesquisas científicas de caráter oportunista e fundo puramente mercadológico.

Tesão - ou libido, como também é chamada por aí - tem a ver, básica e fundamentalmente, com a busca de expressão da sexualidade do indivíduo. Muito antes de ser um processo fisiológico, tesão é a disposição psicológica para a busca do prazer, para a busca da satisfação sexual.

É o desejo que produz tesão – não o contrário - assim como é a busca pela realização do desejo que alimenta o fogo ardente de todas as paixões humanas, em todos os tempos e lugares. Onde existe desejo, existe tesão. E quando existe tesão, de verdade, o indivíduo consegue realizar-se sexualmente até mesmo sem o concurso da penetração. O simples toque, o simples contato físico, o simples ardor do corpo-a-corpo é capaz de levar os parceiros ao céus do prazer. Conclusão: - não é porque você não consegue obter ereção que não tem desejo sexual. Se há alguma coisa “falhando” em você - se é que podemos falar em falha - não é a falta de ereção mas o seu desejo sexual que está, de alguma forma, sendo impedido de se manifestar.

O macho, essa pobre e desamparada criatura com ares de superioridade, é criado na mentira histórica de que tesão é igual a ereção, de que satisfação sexual só pode ser obtida através de penetração e que, por consequencia, satisfação sexual depende exclusivamente do desempenho do pênis. Nessa perspectiva,.desejo sexual é sinônimo de pênis ereto, pronto para a penetração, o que é uma lástima, tanto para o gozo físico do prazer quanto para a saúde psíquica do macho.E nada mais falso do que essas crenças, já que as coisas acontecem exatamente do modo contrário! A tesão é que determina o maior afluxo de sangue às paredes cavernosas do pênis, produzindo o que chamamos de ereção, assim como podemos atingir o orgasmo e satisfazer plenamente o/a parceiro/a sem que haja nenhuma ereção e nenhuma penetração em nenhum dos dois.

Desequilíbrios hormonais podem produzir, sim, falta de apetite sexual, baixa libido, ausência de tesão. Porém, o imenso volume das queixas existentes, relacionadas à falta de tesão, não tem nada a ver com hormônios. Na maior parte dos casos, a baixa libido está sendo causada não por "desajustes hormonais", mas por “desajustes mentais”, ou seja, por bloqueios, interdições e outras indisposições psíquicas do próprio indivíduo e que o impedem de manifestar qualquer tipo de tesão.

Por exemplo, um agudo sentimento de culpa, pode levar uma pessoa a “bloquear” inteiramente a expressão da sua sexualidade, interrompendo o livre-curso da sua libido. Embora a aparente liberdade que todo mundo desfruta no mundo de hoje e que permite a todos manifestar livremente o seu desejo sexual, a triste verdade é que, em pleno século XXI, qualquer coisa relacionada a sexo ainda é tratada como tabu, cercada de medo, vergonha e mistério.

Não há tesão que se manifeste diante da culpa! Não há hormônio – ou “viagra” – que alivie um indivíduo atormentado por julgar que está fazendo (ou sonha em fazer...) algo proibido, contrário à “moral” e aos “bons costumes”, algo que não goza da “aprovação social", ou seja, da aprovação “dos outros”.

A culpa é exatamente o mecanismo inventado pela sociedade com o fim específico de promover a repressão sexual dos indivíduos, mantendo os seus impulsos naturais sob controle. Como Freud constatou, a sociedade humana só pôde existir graças à repressão da libido – ou seja, da tesão – e essa repressão é sutil e poderosamente viabilizada mediante o mecanismo da culpa.

Em essência, culpa é a (terrível) vergonha que a gente sente quando acha que não está correspondendo aos padrões e expectativas sociais de como deveríamos nos comportar. Só de pensar que podem estar transgredindo esses padrões e expectativas, a maioria das pessoas entra em pânico, vislumbrando todo o “inferno” reservado a quem afronta os dispositivos de conduta oficialmente aceitos.

Sem o mecanismo da culpa, que promove e sustentar a repressão da libido – ou seja, da tesão - todo mundo se sentiria livre para manifestar todos os seus desejos e fantasias sexuais, sem nenhuma restrição. Ninguém hesitaria em buscar a satisfação a qualquer preço, diante da simples percepção, à sua volta, de um “objeto de desejo” capaz de satisfazer a sua necessidade de expressão sexual. O problema é que, sem repressão sexual, não haveria vida social. A repressão é o preço inevitável que pagamos para viver em sociedade, para esperar que os outros ajam conosco de modo "civilizado".

Ainda que você não tenha consciência disso, do ponto de vista psíquico você está se comportando como alguém que se sente culpado. Sua culpa é responsável pela perda de tesão da qual você se queixa. Foi ela que o colocou, inclusive, na mira de “terríveis punições”, como a perda da esposa, da família, enfim, do amor e respeito das pessoas que você ama.

Em resumo, seu conflito está entre atender o desejo de expressar a sua sexualidade de uma forma "alternativa" (no seu caso "fora do casamento"), e os limites e interdições que a sociedade coloca no caminho da realização desse desejo. Embora você não tenha cometido transgressão nenhuma, sexo, como tudo a ele relacionado, continua sendo o principal objeto de repressão na nossa sociedade, como eu já disse antes. Você e sua amante, sendo adultos e maiores de idade, estavam, como estão, em condições de decidir o que querem ou não fazer das suas vidas, o que torna as relações sexuais entre vocês perfeitamente legítimas, já que também existe o consentimento entre vocês dois.

A questão é que, sendo você uma pessoa já madura, casado, com família constituída e posição social bem definida, é muito provável que esteja sentindo o peso de valores e padrões de conduta que, inconscientemente, você julga estar “traindo”, em razão desse seu relacionamento sexual em paralelo.

Esse "teatrinho de culpa e punição", sustentado pelos valores existenciais que você professa, passa-se basicamente na sua cabeça, mas é no corpo que você está sentindo as suas conseqüências tão desconfortáveis. A falta de tesão é a forma que a culpa encontrou para “puni-lo” por suas “transgressões” à moral e aos bons costumes...

Recuperar e manter a sua libido – ou o tesão pela vida – vai exigir que você passe em revista todos os aspectos da sua vida atual, analisando, com cuidado, cada pormenor do seu “script” atual. Eu começaria tendo uma conversa honesta com a companheira de tantos anos, dizendo a ela francamente dos meus desejos e fantasias sexuais. Que mal há nisso? Você está vivo e todo ser vivo tem necessidades naturais. Realizar-se sexualmente é uma delas, e uma das principais. Eu começaria indagando o sentido de coisas como casamento, família, amizade, respeito, amor. Que sentido faz em ostentar socialmente uma "companheira" e uma "família" se nos sentimos absolutamente sós e abandonados em nossas necessidades essenciais de apoio, carinho, compreensão e intimidade?A vantagem é que, sendo você o autor e o diretor da peça da sua própria vida está nas suas mãos reescrever esse roteiro nefasto que o conduziu a esse “beco-sem-saída” existencial”, deixando você completamente dividido entre o que você quer e o que a sociedade autoriza você a querer.

Como o seu médico já lhe disse, você não me parece portador de nenhum problema físico, mas protagonista de um duríssimo conflito de valores. Sua falta de tesão, nesse caso, seria apenas a ponta de um imenso iceberg, que você está tendo dificuldade de ver na sua totalidade.

O melhor a fazer nesse caso seria mesmo buscar um(a) psicanalista ou psicoterapêuta que lhe ajudasse a descobrir e a entender as origens e as manifestações do seu conflito. Esse seria, ao meu ver, o modo mais consistente de você superar o seu sentimento de culpa, vencendo as inúmeras “armadilhas” que a sociedade coloca no caminho da realização do nosso desejo, a fim de nos manter sob controle e alimentar nossos mecanismos de auto-punição.

Letícia Lanz
www.leticialanz.org
26-01-2010

 

Sou casado há 7 anos. Nunca senti vontade no ânus, mas minha mulher tem brincado comigo e as fantasias aumentado. O que faço?

Olá,
Bem... Eu nunca tive relacionamento bi ou homo. Mas depois que me casei, há 7 anos, meus desejos se modificaram. Minha esposa começou a me tocar e no início achei ruim. Depois deixei, para não prejudicar o relacionamento entre nós, pois sempre que lhe pedia para fazer anal ela comentava: "você quer o meu, mas acha ruim eu tocar o seu". Com o tempo, comecei a perceber sensações nas nádegas e no ânus. Dizendo melhor, passei a ter tesão nessas partes. Pensei que cessariam por ali, mas hoje é diferente. Sinto prazer em ver vídeos de travesti transando com homens e mulheres e homens penetrando outros homens (beijos eu não sinto tesão). Tenho curiosidade em saber como é chupar um pênis e saber como é ser penetrado de verdade (hoje ela me penetra às vezes com os dedos enquanto estou dentro dela). Não sei onde tudo isso pode parar. Quando estou com tesão, falo coisas de ter mais pessoas conosco e imagino até ela sendo penetrada por outra pessoa junto comigo, principalmente por uma travesti que poderia fazer com os dois. Porém, depois que terminamos o sexo, meus pensamentos se tornam pesados e eu perco toda a vontade de realizar essas fantasias. Mas isso dura somente umas duas a três horas porque depois o tesão e os pensamentos recomeçam. O que eu posso pensar ou fazer?...Não sei o que sou, e o que fazer realmente para que eu possa viver de forma racional.

LETICIA LANZ RESPONDE:

Caro amigo,

Então você não sabe quem você é? Você é apenas um ser humano, absolutamente comum e normal, tendo desejos sexuais como qualquer outro ser humano. Ah! E com direito a fantasiar mil maneiras de satisfazer esses desejos, com certeza!

Acredite: - não há nada de errado, anormal ou irracional nesses seus desejos e fantasias sexuais. Portanto, pare de afligir-se inutilmente imaginando que você está sendo “menos racional” do que as outras pessoas, simplesmente por estar tendo desejos como os seus.

É essa sociedade hipócrita e falsamente moralista em que vivemos que nos levou a ver o sexo – e tudo que se relaciona com ele – como sendo basicamente feio, sujo, indecente ou “irracional”, como você diz se sentir quando tem as suas fantasias sexuais. São essas religiões decadentes e ideologias políticas perversas, com seus líderes completamente malucos que, ao longo da história da humanidade, através do medo e da força, impuseram seus princípios morais em cima dos nossos impulsos naturais, com a finalidade de nos dominar e nos oprimir, tornando-nos inteiramente submissos à sua vontade.

O que é que essas religiões e esses sistemas, que vêem o sexo como degradação e pecado, nos trouxeram até hoje além de guerras, conflitos, intolerância e repressão? Contudo, apesar do mal imenso que já nos causaram, seu poder de dominação continua aí, firme - e parece interminável. Em pleno século XXI, a maioria das pessoas ainda vê como indecência e depravação qualquer coisa relacionada a sexo.

É preciso vencer o medo desses sistemas dominadores e deixar o nosso desejo natural se manifestar. Com certeza, haverá muito menos ódio e guerras na nossa sociedade. Esse, aliás, foi o objetivo e o lema principal do movimento “hippie”, na década de sessenta do século passado: “faça amor; não faça a guerra”.

O que é que essas religiões e esses sistemas que vêem o sexo como pecado nos trouxeram até hoje além de guerra, conflito, intolerância, e repressão? Contudo, apesar do mal imenso que já nos causaram, seu poder de dominação continua aí, firme, e parece interminável. Em pleno século XXI, a maioria das pessoas ainda vê como indecência e depravação qualquer coisa relacionada a sexo. É preciso vencer o medo desses sistemas dominadores e deixar o nosso desejo natural se manifestar. Com certeza, haverá muito menos ódio e guerras na nossa sociedade. Esse, aliás, foi o objetivo e o lema principal do movimento “hippie”, na década de sessenta do século passado: “faça amor; não faça a guerra”.

Você NÃO pediu para ter desejo sexual: - ele nasceu junto com você, entende? Você não “inventou” suas fantasias sexuais: - elas surgiram em você, naturalmente, como uma flor nasce à beira da estrada, sem ninguém plantar. Tanto a sexualidade quanto as suas infinitas formas de expressão são coisas absolutamente naturais e espontâneas em qualquer humano.

TODA FORMA DE EXPRESSÃO SEXUAL DEVE SER RECONHECIDA COMO LEGÍTIMA, desde que haja IGUALDADE DE CONDIÇÕES ENTRE AS PARTES, ou seja, desde que as atividades sexuais se realizem com o total consentimento mútuo e propicie a satisfação das partes envolvidas.

Existem formas de expressão sexual – como a pedofilia e o incesto (particularmente entre pais e filhos) – que não têm legitimidade exatamente por não atenderem o princípio, acima exposto, de igualdade de condições entre as partes. A pedofilia é uma forma de expressão sexual ilegítima porque explora crianças e adolescentes sem amadurecimento suficiente para decidir sobre o que devem ou não fazer, tornando-se assim vítimas da atividade sexual do outro – em vez de parceiros em condições de igualdade – como deve ser. As atividades sexuais envolvendo pais e filhos (uma das formas do chamado incesto), também carecem de legitimidade em virtude do imenso poder psicológico que os pais exercem sobre os filhos, em todos os sentidos, que os coloca sempre numa posição de total superioridade em relação a eles - jamais numa posição de igualdade de condições entre as partes, como pressupõe o princípio anteriormente exposto.

Não há motivo nenhum para bloquear a expressão da sua sexualidade ou para sentir-se “irracional” cada vez que tem um desejo sexual. Você pode explorar a sexualidade na sua plenitude sem esse terrível sentimento de culpa que o aflige só de você pensar nas suas fantasias! Imagine em que estado você ficaria se realizasse uma delas! Pelo jeito que você diz, a vergonha e a culpa levariam você ao desespero total.

Embora possam ser vistas como depravações pela moral vigente, as suas fantasias de chupar o pênis de outro homem ou experimentar ser penetrado por uma travesti, junto com sua mulher, sempre serão formas de expressão sexual perfeitamente legítimas se forem realizadas com o livre e total consentimento das partes envolvidas - e para a satisfação de todas.

Desde Freud, sabemos que muitas doenças físicas são causadas pelo desejo sexual reprimido. Muitos ataques cardíacos e muitos cânceres acontecem porque a pessoa bloqueou a livre circulação da sua energia sexual no organismo, em virtude de crenças e valores que lhe foram impostos pela sociedade.

Quis a natureza que a expressão da sexualidade se constituísse nessa que é a maior de todas as fontes de prazer ao alcance dos seres humanos. Não deixe que a sociedade force você a adotar um único padrão de expressão da sua sexualidade, como se a única coisa certa, boa justa e verdadeira em matéria de sexo fosse a penetração vaginal realizada por um homem em uma mulher e com o propósito único de procriar.

Viver em conflito com nossos próprios desejos é uma das piores formas de tortura que a sociedade nos impõe. Procure olhar com seus próprios olhos, ou seja, sem nenhum preconceito, para todas as múltiplas possibilidades que a sua sexualidade lhe oferece. Deixe que a sua sexualidade lhe diga o que ela é e de que forma ela deseja se expressar. Não imponha a ela as normas rígidas do que as religiões e ideologias consideram como certo ou errado em matéria de sexo. Repressão sexual é um jeito terrível de se auto-destruir, um envenenamento lento e mortal.

Letícia Lanz
www.leticialanz.org

 

Se você tem alguma dúvida..... mande seu relato, com o maior número de detalhes possíveis e seja atendida no Divã da LANZ - um lugar especial que irá acolher seu coração e te mostrar novos horizontes. Escreva para casadamaite@gmail.com

PS – Para investir no seu prazer, no presente e no futuro, faça somente sexo seguro: - use sempre camisinha.

 

Tenho uma filha de 18 anos e já fomos para cama várias vezes. O que devo fazer para reconquistá-la e continuarmos essa relação?

Encontrei este site e acredito que me será muito útil, pois tenho um assunto a .tratar que acredito que você, com sua experiência e mente aberta, poderá me ajudar. Olha, sou casado e tenho uma filha de 18 anos do primeiro casamento. Desde seus 15 anos temos uma relação muito aberta e já fomos pra cama várias vezes. No início foi difícil para ambos, mas depois de passarmos por várias situações onde nos sentimos atraídos, abrimos mão dos preconceitos e pudores e nos entregamos ao prazer. Ela ainda fica um pouco sem jeito, mas vai se soltando e fazemos de tudo, trocando carícias como um casal de namorados. Apenas ainda não transamos e ela continua virgem. Mas estamos brigados e sem nos falarmos. Meu desejo por ela tem aumentado demais. Sonho em fazer sexo com ela, pois não consigo apagar de minha mente todos os momentos em que a tive nos meus braços, nua com seus seios deliciosos em meu corpo, minha língua percorrendo todo o corpo dela, meu pênis em sua boca e sua boceta na minha. Sempre foi uma delícia ficarmos juntos e gozávamos com muito prazer. E hoje, o que devo fazer para reconquistá-la e continuarmos essa relação ainda mais a fundo? Ela agora está de namorado e isso vai impedir de ficarmos juntos novamente.
Beijos a você e aguardo ansioso o seu contato.

 

 

LETICIA LANZ RESPONDE:
 

Caro amigo,

Para um relacionamento que, segundo você, vem acontecendo há pelo menos 3 anos, com muita satisfação mútua, seria de se estranhar a “falta de jeito” da sua parceira ou o seu pé-no-freio, quando se trata de consumar pra valer a relação sexual entre vocês dois. Pelo menos, da sua parte, sua parceira ainda continua virgem, apesar de vocês já terem ido pra cama tantas e tantas vezes.

Seria de se estranhar, sim, se os parceiros não fossem, respectivamente, pai e filha, vivendo uma relação chamada “incesto”, a qual é totalmente interditada e inteiramente reprovada e repelida por todos os tipos de sociedade, desde a mais primitiva até a mais evoluída. Em uma relação sexual como essa, cercada de tantas proibições e totalmente estigmatizada, não é de se estranhar que um dos parceiros “fique sem jeito” e que o outro, instintivamente, mantenha o pé no freio na “hora agá”...

Não cabe aqui discutir as razões que levaram as sociedades humanas a proibir drasticamente relações sexuais entre pais e filhos. Essas razões variam de políticas, culturais e religiosas a econômicas e biológicas, com uma escala especial no campo da saúde psíquica dos seres humanos vivendo em sociedade. Mas quaisquer que sejam os motivos apresentados para a interdição do incesto, é preciso reconhecer que não há nada nem de natural e muito menos de simples ou comum num relacionamento sexual entre pais e filhos.

Pai e mãe são figuras de autoridade com um peso pra lá de grande na vida de qualquer pessoa. Até que nem tanto o pai e a mãe de carne e osso, mas o que cada um desses personagens simboliza na vida em sociedade. Quer estejam ou não presentes na educação da criança, pai e mãe são os principais responsáveis pela formação ou deformação da nossa personalidade.

Apaixonar-se pelos progenitores, particularmente pelo progenitor do sexo oposto, já foi evidenciado como parte do desenvolvimento psicossocial normal da criança. Isto pode envolver até mesmo a fantasia de se ter uma relação sexual com o progenitor do sexo oposto. Para Freud, é justamente a resolução dessa “fantasia pelo amor dos pais” (complexo de Édipo), através da compreensão e aceitação dos limites impostos pela vida em sociedade, que faz de cada um de nós o “sujeito” da sua própria história. Da mesma forma que para Freud, a falta de solução do drama edipiano constitui a mais importante fonte das neuroses.

Na condição de parte mais forte da relação, os pais têm a obrigação social e política de ajudar os filhos a superar sua fantasia edipiana, estimulando-os a encontrar os “substitutos adequados” para o amor ao pai e/ou à mãe. Ao contrário, muitos pais tendem a transferir para os filhos as carências e insatisfações da sua vida conjugal, transformando-os, consciente ou inconscientemente, em objeto de desejo. Os filhos, caídos nessa armadilha dos pais, para não se sentir culpados, tentam desesperadamente suprir as demandas que os pais lhes dirigem a partir das suas frustrações conjugais. Inclusive demandas sexuais não atendidas. Não é a toa que, na maioria dos casos documentados de incesto (a maioria permanece sem registro), quando uma filha ou um filho são dominados por desejos sexuais pelo pai ou pela mãe, estes foram em geral provocados e/ou estimulados, de forma consciente ou não, pelos próprios progenitores.

Não é meu propósito julgar do ponto de vista moral a sua iniciativa de transar sexualmente com a própria filha. Mas desejo que você tenha em mente as conseqüências que um ato como esse pode acarretar para a saúde psíquica da sua filha. Por mais que haja consenso entre as partes, relações sexuais entre pais e filhos tendem a apresentar fortes conteúdos de sedução/subjugação dos progenitores relativamente aos seus rebentos. Diante da “enormidade psicológica” que um pai ou uma mãe representa para um filho ou filha, dificilmente poder-se-ia falar de “relações consensuais”, ou de “igual para igual”, entre eles. Exatamente por causa da supremacia do poder dos pais em relação à vontade dos filhos, as relações incestuosas dependem muito mais da vontade dos pais do que da vontade dos filhos. E ainda que você tenha convicção de estar havendo consenso entre você e sua filha para o que vocês fazem na cama; ainda que você descreva a existência de um intenso desejo mútuo de vocês transarem, é necessário você levar em conta o tamanho da interdição sócio-cultural que cerca uma relação como a de vocês.

Você disse estar brigado com sua filha nesse momento. Embora não tenha mencionado a razão ou razões disso, sua filha está se valendo desta oportunidade para desenvolver vínculos afetivos com um rapaz. Não lhe parece que ela está tentando libertar-se da pressão psicológica que representa “ser cortejada” pelo próprio pai? Sob todos os pontos de vista, esse namoro é um corte muito maduro da relação de filha que ela vinha mantendo com você até então, um grande avanço emocional da parte dela. Talvez você ainda não tenha ouvido mas, com esse namoro, ela está lhe dizendo claramente que não quer ser sua, que quer estar com outra pessoa e que está na hora de você procurar outra mulher.

Não seria mais importante, nesse momento, você pensar um pouco mais no bem estar dela, em vez de simplesmente “tentar reconquista-la” e “ir ainda mais fundo nessa relação”, como você disse que é o seu desejo?

Mesmo que já tenha passado da hora, ainda é tempo de você viver o seu papel de pai, estimulando sua filha a encontrar e seguir os próprios caminhos dela, ajudando-a a libertar-se da fantasia infantil de ter um romance com o próprio pai. Ou será que essa fantasia não tenha sido sempre foi muito mais sua do que dela, ou seja, um pai desejando ter relações sexuais com a própria filha?

Letícia Lanz
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Sou noiva, mas conheci uma amiga lésbica no trabalho e tenho saido com ela. Mas não consigo sair desta confusão. O que faço?

DÚVIDA:

Vou lhe contar um pedacinho da minha vida para você saber se poderá me ajudar. É uma verdadeira confusão! Entrei nessa e não tenho como sair. Procuro uma saída, mas não posso me abrir com ninguém! Tenho 19 anos, namoro com um rapaz há 3 anos e ficamos noivos há 8 meses. Estava feliz e pra mim era um sonho realizado, até que conheci uma garota no trabalho, nos relacionamos muito bem e, por incrível que pareça, me interessei por ela, sabendo que ela era lésbica. Acabou que ficamos várias vezes. Ela também já dormiu na minha casa, conhece toda a minha família e eu conheço a dela. Na minha família, ninguém sabe de nada; pra todo mundo ela é somente uma amiga. Mas a família dela já sabe que ela é lésbica! Já tentei várias vezes me afastar dela mas não consigo. Ela também tem seu relacionamento de 2 anos com uma moça que morre de ciúmes! O tempo ta passando e faz 4 meses que estou ficando com ela, mas agora me deparei que isso é uma grande confusão. Só que eu não consigo me soltar dessa confusão! O QUE É QUE EU FAÇO???? Por favor me ajude! É ou não é uma confusao??? rrsrr ESTOU PERDIDA!!! Obrigada por me ajudar !! Beijãoooooo.
 

 

LETICIA LANZ RESPONDE:

Querida amiga,

Desde o momento que você saiba – e aceite – o que você realmente quer, não haverá mais confusão nenhuma em sua vida. Basta clarear pra si mesma qual é o seu desejo nessa situação que tudo ficará límpido e claro à sua volta. A “confusão” a que você tantas vezes se refere é, na verdade, apenas a sua indecisão quanto às escolhas que, mais cedo ou mais tarde, terá que fazer. Eu não estou dizendo que as coisas ficarão automaticamente simples e fáceis de serem resolvidas, mas apenas que elas ficarão claras se você decidir o que quer fazer da sua vida.

Parece que a relação com o seu noivo já não andava tão forte assim, quando você encontrou sua amiga. Afinal de contas, três anos de namoro e oito meses de noivado parecem estar indo para o ralo com muita facilidade, em apenas quatro meses de convívio com outra pessoa. E, ao que tudo indica, a principal atração que essa “outra pessoa” lhe ofereceu foi exatamente um tipo de prazer sexual que você não tinha experimentado com o seu namorado/noivo. Talvez a sua relação com ele, tal como você disse, estivesse sendo tão somente a “realização de um sonho” de encontrar o seu príncipe encantado e viver com ele felizes para sempre, exatamente como boas garotinhas devem fazer, segundo os “modelos de vida” que lhes são impostos por tradições seculares, permanentemente reforçadas pelas novelas e filmes da “sessão da tarde”...

Muitas mulheres estão descobrindo hoje em dia que o seu “príncipe encantado” não era lá tão encantador assim, como nas lindas histórias que lhes contaram. Em matéria de sexo, então... A maioria do estoque de príncipes no mercado está completamente despreparada pra satisfazer algumas das carências mais essenciais da mulher, como contato físico pleno e prolongado e companhia para conversar e se divertir. Não teria sido por coisas como essas que você se interessou por sua amiga lésbica, além de uma simples amizade de trabalho? Ao que tudo indica, sua relação com o seu noivo estava, no mínimo, “balançada” por carências e insatisfações que, até então, podiam até terem lhe passado desapercebidas. É aí que sua nova amiga aparece. Ela não surge do nada, não aparece por acaso na sua história.

Do ponto de vista prático, você tem algumas escolhas importantes a fazer. É natural que seu noivo esteja pensando seriamente em casamento, e ele merece uma decisão sua a respeito, o quanto antes. Afinal de contas, você concordou em ficar noiva dele. Dependendo da intimidade que existe entre vocês, seria até possível abrir para ele o seu conflito – em todo ou em parte. Dependendo do amor que existe entre vocês, seria possível mudanças e adaptações na vida do casal, de modo a acomodar os seus desejos e os desejos dele. Por outro lado, se não existe uma intimidade entre vocês, que lhe permita apresentar a ele o seu conflito, sem o temor de “conseqüências nefastas” e comportamentos infantis da parte dele, é bastante improvável que a relação de vocês tenha bases seguras para se manter a longo prazo, na forma de um matrimônio estável. Essas coisas, infelizmente, não há como lhe dar dicas do que fazer. Você terá de descobrir o que fazer por si mesma, ouvindo a sua cabeça e o seu coração.

Do lado da sua amiga, existe a mesma coisa, pois ela mantém um relacionamento mais ou menos estável com outra pessoa há algum tempo – a quem deve, no mínimo, alguma explicação quanto ao que está ocorrendo. Mas essa é uma área de decisão que não lhe pertence e sobre a qual você deve se omitir inteiramente de “dar palpites”. Assim como cabe a você decidir a respeito do que quer fazer da sua vida – e com quem quer ou não ficar – da mesma forma cabe à sua amiga decidir isso, sem a interferência de uma na vida da outra.

Talvez a sua família – a outra envolvida no que você chamou de “confusão” – seja a parte menos problemática nas escolhas que você tem a fazer nesse momento. Pelo que entendi, você é maior de idade, trabalha e já se mantém. Isso lhe dá, no mínimo, uma maior flexibilidade para tomar suas próprias decisões.

Beijos

 Letícia Lanz
www.leticialanz.org

 

 

Sou gay e muçulmano. Como é tudo sempre escondido, sou somente usado e não recebo carinho. O que faço?

DÚVIDA:

Bem, a minha história é um pouco complicada, e nem sei se vais te interessar, porém eu preciso desabafar com alguém, entendes? Em primeiro lugar, eu sou gay, e sou muçulmano. Não é fácil viver escondendo dos outros a minha sexualidade, mas eu não tenho muita escolha. Todos sabem que no Islamismo homens e mulheres não têm contato livre com o outro sexo e que assim é muito frequente que haja relação sexual homoerótica, mas é tudo muito escondido. Eu nunca transei com mulher, apenas com homem, e sinto atração pelos mais velhos do que eu (eu tenho 22 anos), mas fazer sexo não é muito frequente na minha vida.

Em fevereiro, eu terminei um relacionamento de 1 ano e 16 dias com um cara de 37 anos. Eu o amava muito, mas ele confessou que só ficou comigo por necessidade econõmica, e a verdade é que me trocou por outro que ganhava muito mais do que eu. Eu gostava demais dele, ainda gosto. Quando nos separamos, já fazia 4 meses + ou - que não dormíamos juntos. Com ele, e com todos os caras com quem eu já fiquei, eu sou muito piegas, muito carente. Mas já cansei de pedir carinho e não ter, então eu nunca fui feliz no sexo.

Tenho sempre medo de não gostarem do que eu pedir. Gosto de dar prazer ao cara, não importa em que papel eu fique, se ativo ou passivo, embora no mais das vezes eu seja passivo, e até gosto. Amo carícia, toque... Será algum problema psicológico? Meus parceiros não me deixaram muito fazer sexo oral neles, querem logo o anal. E, ainda assim, não tocam no meu pescoço, nem nas minhas costas, nem nos meus mamilos - regiões do meu corpo em que eu sinto muita emoção. A parte do corpo que eu mais gosto neles são as mãos, que se são grandes, fortes e peludadas, me deixam louco! Mas elas sempre se recusam a me tocar... Eu também sinto tesão na boca, muito, e gosto de usar os meus lábios, coisa que raramente dá pra frazer. Odeio a rapidez com que o sexo acontece, e depois que ele termina, eu me sinto usado.

Me sinto, sei lá, andando por um caminho que só vai me entristecer. Porém mulheres está fora de questão para mim, não sinto nada pelo sexo oposto. A vida parece muito irônica paara mim, porque eu não gosto de mulher, mas também os homens não me fazem feliz nunca. Eu me sinto uma criança idiota.

PS.: Não precisa nem ler se não tiveres tempo... sei que está muito longo o texto. Acho que exagerei um pouquinho.

 

LETICIA LANZ RESPONDE:

Caro amigo,

A sociedade - sistemas políticos e religiões incluídas - costumam negar e desrespeitar o que há de mais divino no ser humano, que é a unidade de cada pessoa. Ao contrário, fragmentam as pessoas em mil pedaços, transformando-as em meros “papéis” com todo um elenco de atribuições e expectativas sociais a serem atendidas. A verdadeira religião seria aquela que pudesse promover o que o próprio nome “religião” indica, ou seja, a “re-ligação” dos “pedaços” em que o ser humano se transformou, em função da sua vida em sociedade.

Você é só mais uma das bilhões de pessoas que vivem infelizes nesse mundo, tentando equilibrar-se como podem entre o que cada uma é efetivamente e o que a sociedade esperaria que cada uma fosse. O seu conflito é só o mesmo e velho conflito entre os nossos desejos e os impedimentos e obstáculos que a sociedade interpõe no caminho para a sua realização.

Seu problema não é ser homossexual: - ser homossexual jamais foi e jamais será um problema. Seu problema é estar rodeado de pessoas e instituições que acreditam que ser homossexual é um problema e, por causa dessa crença, acham que você é doente, pecador, anormal e outras bobagens semelhantes.

Sua sensação de desconforto e desamparo provém do desajuste entre o que você é e o que a sociedade espera que você seja. A escolha que cada um de nós tem que fazer em algum ponto da vida é exatamente essa que você tem pela frente, ou seja, seguir os modelos tradicionais de conduta que nos foram ensinados - e que são a fonte principal de todas as nossas angústias - ou começar a expressar livremente a nossa verdadeira natureza individual, mesmo correndo o risco de desagradar umas tantas pessoas e estruturas.

A outra face do seu desconforto está relacionada à sua insatisfação com sua vida sexual. Você diz que não tem conseguido realizar-se sexualmente porque todos os seus parceiros querem ir logo para a parte final da relação, deixando-o carente das carícias e afetos que tanto deseja.

Também aqui, ainda que você não perceba, o “dedo” da sociedade está presente. Embora haja uma enorme diferença entre “sensualidade” e “sexualidade”, as pessoas – particularmente os homens – são educados para considerar as duas como se fossem uma coisa só. E não são.

Quando você busca por contato físico, toque, afagos, carinhos prolongados, estimulação lenta e gradual de zonas erógenas do seu corpo, você está tentando expressar e ao mesmo tempo suprir a sua sensualidade. Quando sua meta imediata é o “gozo orgásmico”, você está tentando expressar e ao mesmo tempo suprir a sua sexualidade.

É essa diferença, sutil e ao mesmo tempo radical, que está deixando você confuso e angustiado. Confuso, por ter “aprendido”, através de “condicionamento sócio-cultural” que sensualidade é apenas um “item auxiliar”, um mero acessório secundário, a serviço da sexualidade. Angustiado, por perceber que sexo, sozinho, não lhe permite satisfazer a sua sensualidade. Para isso, seria necessário muito mais do que penetrar e/ou ser penetrado na relação.

E aí vem a parte mais complicada da história. Homens em geral – héteros ou homossexuais – não recebem treinamento social que lhes permita expressar livremente sua sensualidade. Muito pelo contrário, são constantemente desaconselhados e impedidos de manifestar suas sensações corporais através de toque, contato físico e carícias. Portanto, a sensualidade masculina acaba ficando restrita apenas à região genital, que é o lugar natural de expressão da sexualidade. Esse, aliás, é o grande conflito entre o homem e a mulher: - ele, altamente reprimido em sua sensualidade; ela, completamente liberada.

Para satisfazer a nossa sensualidade, como você já percebeu, é necessário muito mais do que uma simples relação sexual. É preciso encontrar alguém que a gente goste de tocar, acariciar, beijar e que também goste de nos tocar, acariciar e beijar. Nem é preciso dizer que uma relação amorosa é o terreno mais fértil para que a sensualidade se manifeste naturalmente entre os parceiros, sem necessidade de nenhum artifício e sem ser um mero “recurso cênico auxiliar” da sexualidade.

De qualquer modo, se ainda não foi possível encontrar uma relação amorosa onde a sensualidade se manifeste de modo espontâneo entre os parceiros, você sempre pode – e deve – falar abertamente, seja com quem você venha a se relacionar, que só se satisfaz numa relação sexual onde existe a possibilidade de toque, de carinho, de beijo, de contato físico amplo, geral e irrestrito.

E assim como cabe a você declarar ao outro o seu desejo, cabe ao outro decidir se quer ou não participar com você de uma relação assim. Não se preocupe se o outro disser que não quer. O mundo é muito grande e você sempre acabará encontrando alguém que esteja desejoso de encontrar alguém como você.

Letícia Lanz
www.leticialanz.org

 

Tenho vontade de estar com outros homens. Amo minha esposa e quero contar para ela. O que devo fazer?

DÚVIDA:

Boa noite, tenho vontade de me abrir para minha esposa sobre a vontade de sentir e de ser penetrado novamente por um pênis de verdade. Explico: - quando transamos ela sempre faz carinhos no meu ânus e às vezes me penetra com consolos que temos em casa e ainda ao meu ouvido diz coisas que me deixam alucinado como "é isso que você quer? uma pica de verdade?", entre outras... Bem, eu adoro ser penetrado por picas da verdade mas ela não sabe... Eu acho... Tenho vontade de revelar a ela as inúmeras vezes em que fui uma verdadeira fêmea para outros homens. O que devo fazer? Me ajude!!!

LETICIA LANZ RESPONDE:

Até muito recentemente, a homossexualidade era tida como pura sem-vergonhice e grave desvio de conduta moral. Qualquer pessoa que desejasse sentir prazer, transando com indivíduos do mesmo sexo, estaria sujeito a terríveis sanções por parte da sociedade. A rigor, ainda é assim em muitas partes do mundo, como você deve saber.

Entretanto, as coisas mudaram e continuam mudando muito, de uns vinte anos para cá. De tal forma que até mesmo aqui no Brasil, que gosta de ostentar uma fachada de liberal e progressista mas que, no fundo, ainda é um país muito conservador, a homossexualidade foi descriminalizada (ou seja, não é mais crime ser homossexual) e desmedicalizada (ou seja, não é mais tida como doença, nem física, nem mental).

A única coisa que ainda permanece viva é a tradição de que macho tem que ser macho, o que inclui evidentemente transar apenas com mulheres. O problema é que nem todo macho nasce com orientação heterossexual. Segundo os estudos científicos mais recentes, estima-se que 10 a 15% da população de machos nasce com orientação homossexual. Mais uns 10 a 15% nascem com orientação hetero e homossexual, ou seja, são bissexuais.

Pelo seu perfil, é bem provável que você tenha orientação bissexual, ou seja, goste de transar tanto com mulheres quanto com homens. Como também pode ser que você tenha orientação apenas homossexual mas, preocupado em atender as exigências das “tradições”, contraiu matrimônio a fim de dar satisfação à sociedade e manter-se à salvo, dentro das aparências.

Qualquer que seja a sua orientação sexual, quero lhe dizer que ela é normal e é legal. Você não precisa manter-se refém do seu próprio desejo, nem envergonhar-se, nem desesperar-se por querer buscar a forma de prazer com a qual o seu corpo realmente se satisfaz.

A única questão que eu sempre levanto, no caso homossexuais ou bissexuais casados, é a necessidade de buscarem, o quanto antes, um diálogo franco e honesto com suas esposas.

Vida a dois requer confiança e intimidade absoluta entre os parceiros e questões envolvendo a sexualidade do casal, quando omitidas pelas partes, poderão minar a relação de modo incontornável e definitivo. Portanto, o melhor que você faz é preparar-se para revelar à sua esposa, o mais cedo possível, esse seu desejo por relações homossexuais, mesmo porque, pelo que você descreve, é muito pouco provável que ele desapareça por si mesmo. Ou seja, você vai ter que conviver com esse desejo com o qual, aliás, já vem convivendo há bastante tempo.

Mas esse é um papo delicado que exige muita preparação da sua parte. Antes de mais nada, é preciso reconhecer e aceitar a sua orientação sexual predominante. Pode ser até mesmo necessária a ajuda de um profissional da área psi. Não hesite em busca-la se sentir que está difícil encontrar sozinho uma solução.

Quanto à sua mulher aceitar ou não a sua orientação sexual, essa é outra história que, evidentemente, só diz respeito a ela. Tal como você, ela também é livre para decidir fazer o que julgar melhor para ela.

O que eu gosto sempre de lembrar, para pessoas que, como você, mantêm relacionamento sexual fora do matrimônio, é da necessidade de se resguardar tomando os cuidados necessários na hora de transar (leia-se camisinha), a fim não apenas de se proteger, mas também de proteger sua esposa que, num descuido seu, pode ser desnecessariamente contaminada por alguma DST.

Beijos,

Letícia Lanz

Se você tem alguma dúvida..... mande seu relato, com o maior número de detalhes possíveis e seja atendida no Divã da LANZ - um lugar especial que irá acolher seu coração e te mostrar novos horizontes. Escreva para casadamaite@gmail.com

 

 

 

Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. Será que por gostar de travesti eu sou gay?

DÚVIDA:

Olá, tudo bem? Eu me chamo Guilherme tenho 32 anos e sou casado, mas tenho muita atração por travestis. Tenho vontade de terminar meu casamento e ir morar com uma travesti. O que será que devo fazer pois, no momento, estou gostando mais de travesti do que de mulher, e isso eu não consigo mais controlar. Será que por gostar de travesti eu sou gay?

LETICIA LANZ RESPONDE:

Caro Guilherme,

Gostar não depõe contra ninguém. Odiar, sim, é fato muito feio e vergonhoso. Ter prazer não é vergonha pra ninguém. Desconforto e desprazer são, sim, coisas muito feias e vergonhosas. Todo mundo devia fazer tudo para ser feliz pois, pessoas infelizes, acabam contribuindo para que outras pessoas sejam infelizes também.

Senti você confuso não apenas quanto ao seu sentimento, mas também – e sobretudo - quanto à sua sexualidade. “Será que eu sou gay?” é algo que parece lhe incomodar muito mais do que a idéia de “correr atrás do seu desejo, fazendo aquilo que lhe dá prazer”. Essa preocupação “mais do que exagerada” pela orientação sexual é muito comum entre homens, cuja educação estimula tanto um “embotamento” dos sentimentos quanto um medo tremendo de “manchar a própria masculinidade” praticando alguma forma de “sexualidade errada”.

Acontece que não existe nenhuma sexualidade certa e nenhuma sexualidade errada. Apenas “convencionou-se” que homens devem fazer sexo com mulheres, assim como mulheres devem fazer sexo com homens. Essa é uma idéia baseada na crença (basicamente religiosa) de que o sexo é algo sujo e pecaminoso, devendo destinar-se exclusivamente à reprodução.

Você, felizmente, está descobrindo que o sexo é uma infinita fonte de prazer existencial. E que, felizmente, vai muito além do simples propósito de reprodução.

As mulheres evoluíram muuuuuuuuuuuuuuuuito nesse sentido. Inclusive, já são capazes de se reproduzirem por si mesmas, sem nenhuma ajuda presencial de um homem. Basta que decidam por ter um filho e se dirijam a um Banco de Sêmen...

Os homens, ao contrário, permanecem na “idade da pedra”, em termos de sexo, sexualidade e prazer.
Sua maior preocupação não é a de “ter prazer” mas a de “manter a imagem da masculinidade”. Morrem de medo de “não serem” ou “deixarem de ser homens”, por terem feito isso ou aquilo que, dentro do vetusto e ultrapassado “código da masculinidade” possa vir a depor contra eles.

Já notou que as mulheres nunca “se pelam” nessa dúvida cruel de se são ou não mulheres por fazerem isso ou aquilo? Elas não estão nem aí. Brincam entre elas, andam de mãos dadas na rua, se beijam, se abraçam, dormem juntas, vestem-se com roupas masculinas, etc, etc, sem jamais “entrar em parafuso” com essa pergunta absolutamente ridícula: será que eu sou gay?

E se você for gay, hein? Que diferença faz? Em que é que o fato de você ser ou não gay vai contribuir para que você seja uma pessoa melhor ou pior nesse mundo? Quem lhe disse que o “certo” é ser “hetero” e o “errado” é ser gay, como você deixa transparecer na sua pergunta tão “perturbadora” quando “desproposital” e nonsense: - será que eu sou gay por gostar de travesti?

Notou que lhe importa muito menos o fato de “gostar” – que deveria ser o seu principal objeto de atenção – do que o fato de “ser gay”, que não tem a menor importância no contexto da sua felicidade e satisfação pessoal nesse mundo?

Será que você está querendo dizer que é preferível sofrer, padecer, reprimir-se e repudiar o seu desejo por travesti do que “correr o risco” de ser reconhecido como “gay” pelos outros? Você não acha muita tolice desprezar o seu “desejo real” em nome da manter uma “fachada” daquilo que a sociedade chama de masculinidade?

Antes de mais nada, diga-me o que é ser homem? E diga-me, também, o que distingue um homem de uma mulher ou de uma travesti? A propósito, o que é masculinidade? O que é feminilidade? Tente responder a essas questões e a sua cabeça vai dar um nó sem tamanho pois, apesar de serem coisas que a gente defende de unhas e dentes no dia a dia, ninguém sabe dizer exatamente o que é, exceto “moralistas”, “pregadores fundamentalistas” e outros embusteiros que baseiam suas conclusões dos seus próprios preconceitos e/ou se baseiam em idéias de cinco mil anos atrás ou mais.

Se a “sociedade” diz que a união deve acontecer entre um homem e uma mulher - e não entre um homem e uma travesti – caberá a você decidir como é que você deseja posicionar-se em relação a isso. Uma coisa é o que a sociedade diz; outra coisa é o que lhe diz o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça. Para onde pende o seu “querer” mais íntimo e verdadeiro? O que vale são as suas respostas, não as respostas prontas que a sociedade tem para lhe oferecer.

Você gosta de fazer sexo com travesti? Faça. É isso que deixa você feliz? Pois então, o que está esperando? Ponha de lado essas perguntas tipo “isso é/não é coisa de macho?”, “isso é/não é coisa de gay?”, cujas respostas não terão jamais nenhuma importância concreta na definição da sua felicidade. E daí se for “coisa de gay”? E daí, se você for gay? Será que você será menos “você”, sendo gay, isto é, tendo orientação homossexual? Será que é bom pra você continuar vendendo por aí uma imagem de “macho hetero”, e vivendo uma vida miserável, totalmente infeliz por não estar sendo a pessoa que é e por não estar fazendo aquilo que o seu coração, seu corpo e a sua cabeça desejam?

Amar travestis não é crime e ser gay também não é. E o que importa mesmo é a relação entre duas pessoas humanas, independente de que rótulos elas tenham recebido por parte da sociedade.

A única consideração que eu teria para lhe fazer não tem nada a ver com você gostar de travesti e ser ou não ser gay. Como eu já lhe disse, essas coisas não fazem e não farão a menor diferença na sua história de vida.

O que realmente me chamou a atenção é de você estar casado com uma pessoa, no caso uma mulher, e estar tendo relacionamentos fora do casamento, motivado por insatisfação da vida a dois. Se fosse o contrário, ou seja, se fosse a sua esposa que estivesse se relacionando sexual e/ou afetivamente com outras pessoas você ficaria satisfeito com isso?

Em vez de você se perguntar uma tolice dessas – se é ou não gay por gostar de travestis – deveria se perguntar se é bom pra você permanecer dentro de uma relação sem querer realmente ficar nela. E pior: se é justo “trair” uma relação firmada com outra pessoa e que está lhe servindo apenas de “fachada pública” pois, como você disse, gostaria de terminar seu casamento e ir morar com uma travesti. Fora os eventuais problemas de promiscuidade da sua parte, que podem afetar a sua companheira, não é legal de maneira nenhuma trair os sentimentos ou os desejos de outra pessoa, seja ela uma mulher, um homem ou uma travesti, tal como você está fazendo, permanecendo dentro de um casamento onde você não se sente nem feliz, nem realizado nem satisfeito.

Ser ou não ser gay por gostar de travesti, repito, não tem nada a ver. São só preocupações machistas totalmente bobas e sem sentido. Pare com isso, ouça o seu coração, o seu corpo e a sua cabeça e vá atrás do seu desejo, da sua felicidade.

Agora, se não está bom ficar casado – seja com uma mulher, com um homem ou com uma travesti, pouco importa - se não é isso que você quer, caia fora da relação. Não fique ao lado de alguém só por conveniência, para manter uma “máscara” social aceitável. Isso faz muito mal, tanto pra você quanto pra outra pessoa.

Espero que você reflita sobre tudo isso e vá atrás do seu desejo. Você é a única pessoa que pode fazer por você.

Beijos,

Letícia Lanz

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Como devo falar ao meu namorado que tenho hiv?

DÚVIDA:

Como devo falar ao meu namorado que tenho hiv? O namoro é recente e não sei como devo levar isso pra frente ainda não tivemos nada pois estou sempre adiando...Por favor, dê-me uma luz.
Grata pela atenção!

LETICIA LANZ RESPONDE:

Querida,

Eu queria muito ter uma fórmula mágica para dar a você nesse momento.
Posso imaginar como você se sente, tendo que revelar pra alguém que você quer muito que continue ao seu lado, uma verdade que pode colocar em risco a própria relação amorosa entre vocês.

Mas rejeição é apenas uma das inúmeras possibilidades que podem surgir da conversa que você tiver com ele. E não há razão nenhuma para você, antecipadamente, ficar pensando que é a única coisa que pode acontecer. É isso que tem feito você adiar uma conversa muito necessária para uma saudável continuidade do seu namoro.

Portanto, aposte no melhor, em vez de colocar todas as suas fichas numa rejeição antecipada. Acredite num bom desfecho para a sua conversa, sobretudo se, até agora, você agiu com ele de forma honesta e segura, procurando preserva-lo ao máximo de qualquer possibilidade de contágio do vírus através de você. Se ele for uma pessoa bem informada, saberá que, hoje em dia, as pessoas soro-positivas têm plenas condições de viver uma vida normal, desde que usem os medicamentos necessários, que o Brasil, por sinal, é referência mundial na fabricação e distribuição através da rede pública de saúde.
Mas a verdade é que não é nada fácil nem agradável a gente ter que revelar verdades ao nosso respeito que podem ser desconcertantes para as outras pessoas.

Eu vivi uma situação semelhante à sua quando, depois de 25 anos vivendo com a mulher que eu sempre amei e amo, percebi que não podia mais segurar a minha condição de pessoa transgênera, que eu havia abafado a vida inteira dentro de mim. Como você, eu também senti que não poderia mais ocultar dela um fato tão fundamental da minha vida.
Desde que tomei a decisão de me abrir com ela, fui arrastada por um turbilhão de emoções muito confusas e angustiantes. Provavelmente muito semelhantes às suas próprias emoções nesse momento. No centro das minhas preocupações estava o medo da minha revelação ser o fim de um lindo romance, vivido por mais de um quarto de século - e que eu não queria terminar de jeito nenhum. Mas que mulher poderia aceitar a revelação de que o homem da vida dela era meio-mulher? Como ela iria entender que essa quase-mulher ainda continuava amando-a e desejando-a sexualmente, como sempre? Será que iria entender que seu marido quase-mulher não era homossexual, mas lésbica?

Depois de muitos dias vivendo no vale de lágrimas do “conto” ou “não conto”, infelizmente a coragem não veio. Em vez de contar, saí de casa. Queria sumir da vida dela, da vida dos filhos, da vida de todo mundo que eu amava. Fugindo daquela maneira eu me sentia a pior e a mais indigna criatura da face da terra. Mas, mesmo sofrendo, eu estava fugindo para não ter que enfrentar a possibilidade de sofrer mais ainda, diante da possibilidade de ser repudiado e excluído pela pessoa que eu mais amei em toda a minha vida.

Ela foi em meu encalço, até me encontrar. E quando me encontrou, quis que eu lhe contasse a verdade, fosse qual fosse. E sabe o que ela imaginava ser a minha verdade? Que eu tivesse encontrado outra mulher! Na verdade eu tinha sim; só que a “outra” mulher era eu mesma. Ao vê-la torturada pela idéia de que eu a tivesse trocado por outra, reuni as poucas forças que ainda me restavam e contei pra ela tudo sobre mim. Minha pressão arterial, que sempre tinha sido baixa, tinha ido a 24 por 16 naquele dia e minha cabeça parecia um barril de pólvora com o pavio aceso, quase no fim.

Nunca vivi momento tão difícil e tão cruel em toda a minha vida. Era a minha verdade, a verdade de uma vida inteira, colocada na mesa, diante da pessoa que eu mais amo na vida. Mas o que ela faria com a minha verdade já não me importava mais, diante do alívio que senti de ter tirado aquele peso da minha cabeça. O pavio apagou-se, mas o barril de pólvora se transformou num balde cheio de tristezas. Chorei.

Só me lembro dela ter acariciado meus cabelos, como sempre faz quando me vê desamparada e sem rumo, e ter dito essas quatro palavras que nunca deixaram de ecoar na minha cabeça: - mas é só isso?

Só isso! Ela pensava que o meu enorme “isso” era um “só isso”! Ela estava vendo como uma coisa pequena, como um “só isso, a coisa “mais maior de grande”, o fantasma que tinha me apavorado a vida inteira!

Já se passaram muitos anos desde que isso aconteceu e nós continuamos juntas, cada vez mais amorosas, cada vez mais cúmplices, mais amigas e mais inseparáveis uma da outra. Pode ter certeza que não é nada fácil e que estamos muito longe de “viver nas nuvens” o tempo inteiro. Transgeneridade não é uma “coisa pequena” como ela pensava. E ser casada com uma pessoa transgênera é uma estrada cheia de surpresas, medos e preocupações. Não é nada fácil, nem pra ela, nem pra mim, nem para os filhos, que hoje já conhecem toda a minha história e ainda me amam e me respeitam.

Como eu disse lá no início, infelizmente não tenho uma fórmula mágica com a qual lhe presentear nesse momento e que pudesse livra-la de todo o desconforto e desamparo que você está vivendo neste momento.

Mas você tampouco precisa de fórmulas mágicas porque já sabe o que tem que fazer e já decidiu que tem que ser feito. Honestidade, clareza, objetividade, calma e uma conversa sem meias palavras. A hora virá. Cabe a você identificar a sua chegada.

Pode ser que não haja compreensão por parte dele. Ouço muitos casos em que realmente não houve. Foi nesses casos que eu pensava quando fugi, com medo de expor a minha verdade. Infelizmente, coisas primitivas como a ignorância e o preconceito ainda são muito comuns em pleno século XXI. Se ele não demonstrar compreensão, querida, não deixe de se amar por causa disso. Continue se amando muito e acreditando que você é uma pessoa digna, um ser humano lindo, cheio de vida e com muita vontade de viver.

Mas pode ser que haja compreensão da parte dele. Não sei por quê, mas os casos de compreensão são também muito comuns, só que não recebem tanta publicidade quanto os casos de intolerância e rejeição. Talvez porque, como diz um amigo meu, jornal com notícia boa não vende...

E pode ser que, além de compreensão, você receba aceitação e apoio. Acredite! Isso existe! E foi por isso que eu lhe dei o meu testemunho acima. Para que você não duvide que o amor existe mesmo e que ele é lindo. É esse amor pela pessoa – e não o medo de perde-la – que deve nortear a conversa que você vai ter.

Qualquer que seja o resultado da exposição da sua verdade - não só a esse seu novo namorado como a qualquer pessoa com quem você queira estreitar suas relações - é você que sempre estará colhendo o melhor dos resultados que alguém pode aspirar nesse mundo: - o prazer de estar vivendo uma vida pautada no amor, na ética e na verdade. Nada substitui a sensação de estar em paz com a gente mesma.

Beijos

Letícia Lanz
30-04-2009

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Por qual motivo perco minha ereção quando sou penetrado?

Oi Letícia. Gostaria de permanecer anônimo, pois sou casado e tenho filhos. Bem desde criança tive tendências homossexuais e na adolescência comecei a ter relações com meus irmãos. Somos seis irmãos homens, morando no interior, sem muito contato com mulheres. Eu era a mulherzinha deles quase todos os dias mas, como nem sempre estava disposto a ceder, eles me pegavam a força, às vezes até me machucando. Quando cheguei à idade de 18 anos conheci minha mulher. Casei, tivemos filhos e permaneci hétero até os 38 anos. Um dia, entrei em um banheiro público e vi um homem se masturbando no mictório. Entrei no banheiro, fechei a porta e percebi que havia nela um buraquinho de onde se podia observar quem estava no mictório. Fiquei ali olhando aquela cena e a partir daquele dia voltou o desejo de me relacionar com homens novamente. Tenho tido muitos parceiros e nas preliminares fico excitado mas, quando sou penetrado, perco a ereção. Isso é normal ou é porque fui forçado na adolescência e tenho receio do meu parceiro ser estúpido, principalmente no primeiro encontro, pois ainda não o conheço? Desde já fico grato por sua atenção. Obrigado.


Caro amigo anônimo,

Sua história pessoal confirma uma das principais conclusões do famoso Relatório Kinsey, de que a orientação sexual de uma pessoa pode sofrer variações ao longo da sua vida, ao contrário do que se pensava até então. Somente para esclarecimento, o Relatório Kinsey sobre a sexualidade humana foi elaborado a partir das pesquisas que o Dr. Alfred Kinsey conduziu no final da década de 1940 e início dos anos 50, entre adultos americanos. Se você estiver interessado, pode inclusive pegar o filme sobre o Dr. Kinsey, chamado “Kinsey – vamos falar de sexo”, geralmente disponível na maioria das videolocadoras.

Você teve uma orientação homossexual durante parte da infância e da adolescência, depois fixou-se por muitos anos em um padrão de comportamento heterossexual para novamente retomar sua atividade homossexual. Você também não disse, mas acredito que continue a transar regularmente com sua esposa, já que não parece que se separou dela e vocês, como casal, ainda são bastante jovens ao que parece. Nesse caso, poderíamos dizer que sua orientação sexual no momento estaria tendendo para a bissexualidade, já que você estaria tendo relações sexuais tanto com sua parceira e esposa quanto com outros homens, em encontros extra-matrimoniais.

Um outro aspecto que chamou a atenção em sua mensagem foi o fato de apenas você se considerar homossexual na relação com os seus irmãos. Só porque eles se comportavam de maneira ativa, não significa em absoluto que eles tinham orientação heterossexual!!! Sempre que um macho transa com outro macho (ou uma fêmea, com outra fêmea) estamos diante de uma relação sexual em que ambas as partes são homossexuais – e não apenas a parte que assume o papel chamado de “passivo” na relação!!! Está completamente errado considerar que machos que transam com outros machos de maneira “ativa” (ou seja, penetrando) têm orientação heterossexual e apenas quem é “penetrado” é que tem orientação homossexual. Isso é um completo contrasenso, fruto de uma mentalidade machista que ainda vigora enormemente em países latino-americanos, como é o nosso caso. Para serem considerados heterossexuais, seus irmãos teriam que transar exclusivamente com mulheres. Portanto, no máximo, devem ser considerados bissexuais; jamais heterossexuais.

Quanto ao seu “retorno” à bissexualidade nessa altura da vida (continuo sem saber se você ainda tem atração sexual por sua mulher, pois você não mencionou isso, mas imagino que vocês continuem juntos) basta que você saiba que é uma coisa perfeitamente normal. Você não está só nessa história e tem na verdade milhões de pessoas pelo mundo afora com a mesma orientação sexual que você.

Agora, passemos à sua questão central, que era a respeito da perda de ereção logo após ser penetrado por um parceiro, particularmente por um parceiro que você ainda não conhece e, portanto, não faz a mínima idéia de como ele vai se comportar na relação com você.

Embora isso seja uma afirmação muito difícil de ser feita, posso quase lhe assegurar que a sua perda de ereção após a penetração não está diretamente relacionada ao seu suposto “episódio traumático” da infância, quando seus irmãos, às vezes, faziam sexo com você à força. Por que penso assim? Simplesmente porque episódios realmente traumáticos, capazes de provocar alterações de comportamento nas pessoas afetadas, dificilmente são “lembrados” com a facilidade que você lembrou. Em geral permanecem ocultos nas profundezas do ser, não se revelando jamais com a facilidade que você os menciona.

Eliminada essa hipótese, restam-me duas: a) o fato da perda de tesão acontecer quase sempre quando a relação é nova e, portanto, você ainda não sabe praticamente nada a respeito do seu novo parceiro ou b) a mudança de foco do gozo, do pênis para a penetração anal e a massagem prostática especialmente muito prazerosa que o movimento de entra e sai pode produzir.

Comecemos pela hipótese (a). Toda nova relação traz normalmente uma carga adicional de ansiedade que pode resultar numa eventual perda de tesão, sim. Acontece muito, por exemplo, com jovens adolescentes que vão transar pela primeira vez com a namorada e acabam brochando completamente, de tão ansiosos que ficam. Tesão e ansiedade são definitivamente duas coisas que não combinam uma com a outra. Nesse caso, a sua ansiedade pelo “desfecho” da penetração – incluindo a possibilidade de abuso e maus tratos – poderia estar levando você a um grau de ansiedade tão grande que supera a sua própria tesão de fazer sexo naquele momento. Mas também aqui eu tenho sérias dúvidas de que seria isso que está acontecendo com você. A experiência de ansiedade na relação é típica de pessoas muito inexperientes, sem nenhuma ou com baixíssima iniciação sexual, o que não é o seu caso em absoluto.

Assim, eu vou ficar com a terceira hipótese que levantei para a sua “perda de ereção” que está ocorrendo logo depois da penetração e especialmente com novos parceiros, que ainda não conhecem o modo de satisfaze-lo na cama – assim como você também não. Acontece, meu caro amigo “anônimo”, que sexo anal é uma arte extremamente complexa e delicada que para ser realmente prazerosa necessita de uma “sintonia fina” entre os parceiros que a praticam, ativa ou passivamente. Você disse que isso não acontece com seus “antigos” parceiros, ou seja, com parceiros que se acostumaram com o modo como você gosta de ser penetrado e também você já se acostumou com eles quanto ao modo como eles gostam de penetrar. É essa “simbiose” entre os parceiros que garante um sexo realmente prazeroso, seja ele anal, vaginal ou de qualquer outra modalidade.

A questão é que é preciso “ensinar” a quem vai penetra-lo o modo que você gosta de ser penetrado, assim como quem penetra precisa “ensinar” o modo como gosta de penetrar. É questão de muito ajuste, de muita sintonia fina. Coisa que definitivamente não se resolve apenas com algumas “bombadas” e, ainda por cima, em clima de muita ansiedade. É por essa razão mesma que muitas vezes é preferível usar um brinquedinho para a penetração do que fazer um sexo completamente insosso, sem graça e sem tesão.

Por último, uma observação que você já deve ter constatado – e que também poderia ser até considerada uma hipótese para a sua perda de ereção, não fosse a contundência de outros fatos que examinamos aqui. É que quando você é penetrado de uma maneira realmente prazerosa, o centro de tesão pode se deslocar do pênis para o ânus (especialmente na proximidade da próstata), fazendo com que você sinta um outro tipo de tesão inteiramente distinto do tesão que se sente no pênis. Há vezes em que esse prazer anal é tão intenso que pode acontecer um clímax sem que o pênis seja nem ao menos tocado ou tenha ficado totalmente inerte e amolecido durante a relação.

E eu não poderia terminar essa resposta sem lhe fazer sérias recomendações quanto às regras de segurança extra que você deve observar por ser uma pessoal bissexual casada e transar com inúmeros e diferentes parceiros na rua. O risco de contrair alguma DST (doença sexualmente transmissível) aumenta quase exponencialmente com um simples aumento linear do número de parceiros. Ou seja, se você passa de dois para quatro parceiros não significar que as chances de você contrair uma doença vão simplesmente dobrar. Elas simplesmente se multiplicam, passando de quatro para dezesseis!!!
Sexo é bom, sexo é prazeroso, mas sexo deve ser feito de modo seguro, pois pode colocar em risco a sua própria vida e a vida de muitas outras pessoas inocentes, inclusive da sua mulher, que parece desconhecer inteiramente o fato de você fazer sexo na rua, com outros parceiros.

Lembre-se sempre do conselho da Letícia: - sexo seguro ou segure o seu sexo para quando ele puder ser seguro!!!
 

Letícia Lanz
Uma pessoa “trans”, com certeza!

Fale diretamente comigo escrevendo para leticialanz@yahoo.com.br

 

 

Orgasmo retal - existe mesmo ou é somente ficção?

DÚVIDA:

Olá Leticia

Tenho lido o seu artigo sobre as várias formas e significado pessoas do mesmo sexo como são classificadas, o que acho extremamente interessante.

Eu sou por natureza um homem ativo, mas gostava um dia de experimentar sexo com um homem. Mas existe na minha cabeça certas dúvidas como por exemplo "o orgasmo retal". Este existe mesmo ou é pura ficção?.

A minha experiência como passivo é só através de acessórios sexuais. Houve uma vez que senti um prazer enorme, mas não sei se tive ou não um orgasmo retal porque, numa dada altura, quando tirei o acessório retal (dildo ou consolo) veio junto um líquido que escorria pelas pernas. Fiquei sem saber se era só o creme que tinha posto para melhor conforto ou se era de fato um orgasmo retal. Agradecia que me pudesse esclarecer, pois existe esta dúvida que me prossegue. Espero que me possa responder.

Com os meus Agradecimentos

Animador
Lisboa, Portugal.

 

 

LELANZ RESPONDE:

Caro Animador,

Vamos direto ao ponto: - o orgasmo retal existe, é extremamente prazeroso e só não é mais divulgado e praticado pelos homens devido ao enorme tabu, mistério e interdição cultural que cerca o gozo anal masculino. Infelizmente, o milenar estigma sobre a penetração pelo ânus ganhou um aliado de peso no vírus do HIV, que pode ser facilmente contraído através de atividade sexual promíscua, irresponsável e sem proteção.

Tanto no macho quanto na fêmea, a região anal é um dos locais no corpo humano onde existe maior concentração de terminações nervosas. Sob estimulação adequada, essa rede de enervação altamente sensível pode proporcionar sensações físicas incrivelmente agradáveis, produzindo orgasmos completamente diferentes daqueles obtidos através da estimulação peniana, no homem, e estimulação clitoriana/penetração vaginal, na mulher.

Tanto homens quanto mulheres são capazes de alcançar o chamado gozo anal. Todavia é no macho que esse tipo de prazer ganha toques ainda mais requintados, em virtude da presença daquele órgão chamado próstata, inexistente na fêmea, e que possui uma incrível sensibilidade.

A próstata só pode ser “tocada” através do ânus, como acontece nos exames de toque retal para localização de anomalias nesse órgão. Embora a maioria dos homens se recuse ao menos a falar sobre isso, a verdade é que o “toque” da próstata proporciona uma das sensações mais prazerosas que o macho pode sentir. No seu famoso Relatório sobre a Sexualidade Masculina (1981), a sexóloga Shere Hite identificou a próstata como sendo o “ponto G” masculino, chamado hoje em dia de “ponto A” por sexólogas como a canadense Sue Joahnsen.

A estimulação da próstata pela via retal pode ser feita com os dedos, com um vibrador ou com penetração feita por um parceiro. Qualquer que seja o modo escolhido, o segredo é ir devagar, uma coisa muito difícil de ser praticada para a maioria dos homens treinados para obter seus 5 segundos de orgasmo peniano antes de cair sono.

Higiene e segurança são dois aspectos fundamentais que devem ser observados na penetração anal. O reto é o local onde o organismo armazena as fezes antes de lança-las no meio-ambiente externo. Por causa disso, o reto tem a reputação de ser um lugar sujo e até repulsivo pra muita gente. Essas pessoas ficariam perplexas se descobrissem que há muito mais bactérias, fungos e outros micro-organismos na boca do que no reto!!!
De qualquer maneira, uma boa higiene local é sempre uma idéia muito bem vinda antes de qualquer penetração, solitária ou em companhia de um parceiro. A forma mais fácil e rápida de se fazer isso é utilizando a mangueirinha do chuveiro. Basta retirar o chuveirinho da ponta, mantendo a mangueira na entrada do ânus e deixando a água, de preferência morna, esguichar para dentro por alguns segundos. Segure a água (como se estivesse segurando para evacuar) e solte, de preferência em um vaso sanitário. Repita a operação até que desapareçam todo resíduo.

Mais do que a limpeza, a parte de segurança na penetração é fundamental. Jamais realize a penetração de uma vez só, principalmente se nunca realizou nenhum tipo de penetração ou faz isso com muito pouca freqüência. E essa recomendação vale tanto para a penetração realizada com um dedo quanto para a penetração realizada com um dildo bastante mais avantajado que um pênis de tamanho normal. É preciso ir sempre aos pouquinhos, lentamente. O ânus possui dois músculos, separados um do outro cerca de 3 cm, chamados “esfíncteres” e que são responsáveis pelo seu mecanismo típico de contração e relaxamento. Para que a penetração se dê de uma maneira natural e confortável é preciso que os esfíncteres estejam bem relaxados, e isso é algo que não se consegue “no tapa”. É preciso paciência e suavidade de toque para ir relaxando todo o mecanismo. O uso de um lubrificante tipo KY é essencial nessa operação de relaxamento, cuja duração varia enormemente de pessoa para pessoa. Uma coisa é certa: - quanto mais tensa a pessoa estiver, mais tempo irá levar para que ocorra um bom relaxamento do esfíncter e, dependendo da pessoa, ela não consegue se relaxar de maneira nenhuma. Nesse caso, a penetração será inevitavelmente desconfortável e até dolorosa.

A masturbação anal, usando os dedos ou um dildo é a melhor maneira de experimentar uma penetração e de se treinar para ser penetrado por outro homem, se esse for realmente o seu desejo. Lembre-se só de uma coisa: experimentar prazer anal é algo muito diferente do vapt-vupt do prazer peniano. Deve ser tudo muito lento e muito tranqüilo, para ser realmente muito bem curtido.

Com o esfíncter devidamente relaxado, a penetração pode ser um momento de prazer extremo. Não é por outra razão que se afirma por aí que, o homem que experimenta uma penetração anal, sozinho ou na companhia de outro homem, dificilmente abandona essa prática, pois ela é realmente muito prazerosa.

A penetração anal, sobretudo quando há consciência de estimulação local da próstata pode, sim, conduzir ao orgasmo, com descarga de sêmen através do pênis sem que muitas vezes o pênis não precise nem mesmo de ser tocado.

Entretanto - e essa era uma das suas dúvidas na mensagem que você me enviou – não há nenhum líquido específico que “escorra” do ânus no auge de uma penetração. Provavelmente o que você viu trata-se apenas de muco e líquidos naturalmente existentes no trato intestinal. Ou, se você fez uma boa lavagem retal antes da penetração, resto de água que tenha ficado por lá. Ou ainda o material lubrificante que você utilizou para ajudar na penetração. Líquidos resultantes de orgasmo só o sêmen que naturalmente só é expelido através do pênis.

E jamais se esqueça de usar camisinha - e camisinha de boa qualidade -, pouco se importando que vai ser penetrado por um dildo (consolo) ou por outro homem. Nem pense em se arriscar fazer qualquer tipo de penetração sem camisinha! O gozo retal existe e é bom mas, sem camisinha, vira uma roleta russa que pode levar a pessoa à morte.

Finalmente, se realmente escolher ser penetrado por outro homem, faça uma escolha criteriosa. Muitos praticantes de sexo anal mediante o uso de dildos (consolos) costumam decepcionar-se enormemente quando vêm a ser penetrados por outro homem. Na minha opinião, ser penetrado por outro homem é algo que vai muito, mas muito além mesmo, da pura e simples penetração. Se o negócio for pura e simplesmente penetração, um “consolo” sempre será a melhor escolha.

Os homens estariam muito melhores se em vez de perderem tanto tempo em fazer guerras, gastassem mais horas fazendo amor, explorando o próprio corpo, se conhecendo melhor.

Tenho certeza que as guerras e a competição acirrada entre os machos nada mais é do que descarga sexual reprimida, sexo mal feito, feito às pressas, com uns poucos segundos de “gozo” peniano e pronto.

A penetração anal, com sua sutileza, seu vagar, sua capacidade de estender-se longamente até um grande ápice deveria ser considerada como uma das melhores saídas para o estresse contemporâneo.

Sem falar que a massagem prostática, propiciada pela penetração, é comprovadamente uma das formas mais eficazes de se prevenir o câncer de próstata.

Beijos e boa sorte com suas descobertas.

Letícia Lanz

 

Afinal.... o que são e quem são as pessoas TRANS?? Fique sabendo tudo aqui...

Se você tem alguma dúvida..... mande seu relato, com o maior número de detalhes possíveis e seja atendida no Divã da LANZ - um lugar especial que irá acolher seu coração e te mostrar novos horizontes. Escreva para casadamaite@gmail.com

 

DÚVIDA:

A discussão põe em pauta algumas dificuldades na classificação que inclusive ecoam em casos como o meu, que sou jornalista. Nunca adotei, por exemplo, o "TTT", pq acho muito complicado ficar estendendo a sigla, e até LGBT já me parece muito. Mas, enfim, o "TTT", pelo que sei é travestis, transexuais e transgêneros. Mas o que são cada uma dessas categorias? Penso que está sendo necessário dar um pouco mais de consistência conceitual a cada um dos termos nesse momento.

Há alguns anos, lembro vividamente que o "T" = transgêneros, que era uma palavra que englobava travestis e transexuais em conjunto e que o que diferenciava os dois grupos era, geralmente, o desejo de fazer a cirurgia e "migrar" integralmente para o outro sexo.

Depois, a palavra "transgêneros" passou a ser desacreditada, pois muitas trans e travestis não gostavam dela, além de ter um problema de acuidade em seu uso. Passou a ser "TT" = travestis e transexuais, mantendo o diferencial do desejo de cirurgia.

Então, fiquei sabendo que esse diferencial não era tão diferencial assim. Que existem trans, notadamente trans FTM (female to male), que muitas vezes estavam de fora da discussão até então, que não desejam a cirurgia de redesignação sexual, seja por motivos estéticos ou funcionais. Então, a coisa passou integralmente a ser a questão de identidade de gênero, ou seja, a travesti não quer operar, e a trans também não precisa querer operar. O que determina é se uma se sente mulher e a outra, não. Percebam que isso já deixou a coisa mais complicada para se definir.

Posteriormente, se descobriu, com razão, que não existe essa diferenciação travesti-transexual tão forte no exterior. Lá, costuma-se usar "pessoa trans", ou "trans", para se referir a qualquer pessoa que migre entre os gêneros. Percebi que era verdade, pois mesmo dentro do segmento em que trabalho, a pornografia, tudo pertence ao gênero "trans" ou "transexual". Mas aí fiquei na dúvida: não devo mais usar "travesti"? Agora, uso "pessoa trans"? E as trans de antes, continuam tendo o mesmo conceitual que agora?

Então, como se não bastasse confusão suficiente, o desacreditado "transgêneros" voltou à baila! Fui informado que ele agora engloba quem não é travesti, nem transexual, ou pessoa trans (whatever). Agora, ele engloba drags, crossdressers, etc., o que já me causou estranheza, pois até o momento não consegui notar a relação entre parte desses grupos e o conceito de identidade de gênero, que então tinha sido minha salvação. E descobri, de repente, que, talvez por já ter usado roupas do sexo oposto e me permitir ser tratado dessa forma (sim, experiência pessoal), de repente, posso ser um transgênero? Mas sempre me vi como homem gay. Deu "tilt".

E tudo isso esbarra numa questão de falta de literatura própria balizada e algumas dúvidas pertinentes que permanecem sem resposta convincente. Afinal, uma trans MTF que faz a cirurgia de redesignação e muda os documentos (caso da Roberta Close), deixa de ser trans e passa a ser mulher efetiva? O conceito de trans é necessariamente atrelado ao "in process", ou permanece como classificação tendo em vista o histórico da pessoa?

Já perceberam quanta confusão? E isso não está partindo de um jornalista da grande mídia que só entra em contato com a questão LGBT, ou LGBTTT esporadicamente. Acompanho o movimento, as discussões, cubro os eventos. Imagine, então, tentar explicar o "encaixe" a quem é de fora. Então, fica aqui a pergunta:

- O que é exatamente travesti?

- O que é exatamente transexual?

- O que é exatamente pessoa trans?

- O que é exatamente transgênero?

Acredito que essas questões têm de ser trabalhadas no início, pois atualmente, nem dá pra saber direito qual termo usar!

 

DRA. LETICIA LANZ RESPONDE:

Caro Jornalista amigo,

Você sabe que suas perguntas não são nada simples de responder. Sempre haverá alguém insatisfeito com as respostas que eu trouxer, nessa “sopa de letrinhas” em que se transformou o universo humano da orientação sexual e da identidade de gênero.

Para enfrentar o desafio que você propôe, vou antes lhe pedir licença para repassarmos juntos alguns conceitos que considero fundamentais na elaboração das nossas respostas. Embora nitidamente distintos um do outro, esses conceitos não só costumam ser confundidos na prática como são muitas vezes reduzidos e tratados como se fossem uma só e única coisa. São eles: - sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

Comecemos pelo mais concreto de todos, que é o conceito de “sexo”, diretamente relacionado às características genitais primárias e secundárias de cada indivíduo. É simples: em função de ter um pênis ou uma vagina, os indivíduos da nossa espécie são classificados em “machos” ou “fêmeas” ao nascer. Quando alguém nasce com as duas coisas – pênis e vagina – ele é chamado de intersexuado (antigo hermafrodita), sendo que médicos, parteiras, pais e sociedade farão todos os esforços do mundo para “eliminar” essa “ambigüidade” que, apesar de produzida pela própria natureza, não pode ser suportada pelos rígidos parâmetros de gênero que discutiremos a seguir.

Como o sexo é uma condição herdada geneticamente, ela é absolutamente natural em toda pessoa humana, ao contrário do conceito de gênero, que não passa de uma “criação” da mente humana. Portanto, “gênero” é um conceito muito mais complexo do que sexo.

Chamamos de “gênero” o sistema binário de classificação que, partindo exclusivamente do sexo biológico que alguém apresenta ao nascer – macho ou fêmea - divide os seres humanos em dois grandes grupos - homens e mulheres, ou masculino e feminino. O gênero pode ser visto como uma espécie de “sexo social”, ou seja, uma apropriação arbitrária do sexo biológico dos indivíduos para o atendimento de interesses da sociedade.

A inclusão do indivíduo em um dos gêneros - feita ao nascer e exclusivamente em função do órgão sexual que traz entre as pernas - implica na adoção de comportamentos e papéis sociais fixos, ou seja, modelos de desempenho socialmente esperados, que ele deverá assumir e atender compulsoriamente ao longo de toda a sua vida.

Ao contrário do sexo, gênero NÃO É um dado da natureza, mas um MODELO DE CONDUTA SOCIAL que nos é imposto ao nascer, em função da genitália exposta que trazemos entre as pernas na hora do parto, já que essa é a única característica anatômica capaz de distinguir bebês machos de bebês fêmeas naquele momento.

Felizmente, por tratar-se de uma CONSTRUÇÃO SOCIAL, o “gênero” está longe de ser uma variável IMUTÁVEL, como ainda é considerado pelo pensamento conservador, podendo ser, portanto, modificado a qualquer tempo, bastando para isso que haja vontade política da sociedade, ou seja, das pessoas.

“Identidade de gênero” é, ao mesmo tempo o mais subjetivo e o mais forte, do ponto de vista individual, dos quatro conceitos que estamos repassando. Sua força na vida de uma pessoa é tão grande que pode-se dizer sem sombra de dúvida ser ele o verdadeiro motor do desejo de cada pessoa.

Podemos definir “identidade de gênero” como sendo a maneira pessoal e peculiar de cada ser humano se ver e se reconhecer como “pessoa no mundo”. Evidentemente o grande parâmetro inicial que cada um de nós tem para “aferir” a própria identidade de gênero é o gênero com que fomos agraciados ao nascer: - “homem” ou “mulher”. Contudo, para muitas pessoas, essa identificação nem é imediata, nem é natural e muito menos tranqüila, como a sociedade gostaria que fosse. Mesmo tendo nascido macho, um indivíduo pode, por uma vastíssima confluência de fatores, “sentir-se” fêmea, ou o contrário, tendo nascido fêmea, reconhecer-se como macho. Como também pode sentir-se perfeitamente confortável com sua genitália de macho mas identificar-se com papéis de gênero e vestuário tipicamente femininos. A identidade de gênero é assim uma espécie de “auto-etiqueta” que cada indivíduo cola em sua própria testa, ao lado (ou em cima!) da etiqueta de “gênero” que lhe foi colada pela sociedade quando ele nasceu.

Uma pessoa é chamada de “cis-gênera” (cis=mesmo) quando as etiquetas – do indíviduo e da sociedade – dizem a mesma coisa, ou seja, há não nenhum conflito entre a “identidade de gênero” percebida pela pessoa e o gênero que lhe foi consignado ao nascer. Ao contrário, quando a etiqueta “auto-colada” pelo indivíduo apresenta alguma (ou muita) divergência com o gênero que lhe foi consignado ao nascer, dizemos então que se trata de uma pessoa “trans-gênera”.

Se o sexo biológico está entre as pernas, gênero (e identidade de gênero, mais ainda!) está “entre as orelhas” ou seja, na cabeça de cada pessoa.

Por último, o conceito de “orientação sexual” que diz respeito, basicamente, ao sexo biológico da(s) pessoa(s) pela(s) qual(is) um indivíduo se sente atraído sexualmente.

Para a sociedade em que vivemos, existem oficialmente apenas dois tipos de orientação sexual: - o individuo é “heterossexual” quando se sente atraído por pessoas do sexo oposto ou é homossexual quando, é atraído por pessoas do seu próprio sexo. Mas, para o pensamento conservador (que, afinal de contas, é quem ainda “dá as cartas”...), só a heterossexualidade é validada como sendo a orientação sexual saudável, “normal” e “de acordo” com a natureza. Evidentemente, essa suposta vinculação da “heterossexualidade” com “natureza” e “normalidade” baseia-se invariavelmente em critérios de “moralidade”, baseados em crenças, tradições, interditos e proibições de ordem cultural ou religiosa, sem nenhuma base científica.

Alfred Kinsey, no final dos anos quarenta e durante a década de cinqüenta demonstrou, através de extensas pesquisas de campo, que a orientação sexual humana é altamente diversificada, podendo, inclusive, variar enormemente ao longo da vida de uma mesma pessoa. Assim como Freud, antes dele, já havia postulado que toda criança nasce basicamente bissexual (na verdade, mais do que isso, ele disse que a criança possui uma sexualidade polimorfa), “decidindo” paulatinamente a sua “orientação sexual predominante” em função de uma série de fatores biológicos conjugados a fatores ambientais (como educação e relação com os pais, por exemplo).

Munidos desses quatro conceitos, estaremos bem mais amparados e confortáveis para construir respostas para suas perguntas que, adianto, não são nada fáceis de responder e as respostas estão longe de serem verdades definitivas. Mas o que vale é o desafio.

1 - O que é exatamente travesti?

A travesti é a pessoa transgênera por excelência: - sua “identidade de gênero” está em conflito com o gênero que lhe foi consignado ao nascer. A travesti é tradicionalmente um indivíduo do sexo macho, sexo com o qual se sente confortável e não pretende mudar, na maior parte das vezes (o termo travesti raramente é utilizado para referir-se a fêmeas com discordância de identidade de gênero).

Em graus diversos, e variando muito de pessoa para pessoa, a travesti pode buscar desenvolver características genitais secundárias, como seios, nádegas proeminentes, quadris largos, ausência de pelos, etc, assim como, em uns poucos casos, buscar cirurgia de redesignação genital.

Do ponto de vista de orientação sexual, a travesti em geral é bissexual. Mas, se considerarmos o grupo como um todo (travestis + crossdressers) os casos de hetero e de homossexualidade (menos) se tornam muito representativos.

A travesti tanto pode viver como mulher 24/7/30/365 como apenas expressar-se dessa maneira parte do seu tempo, situação em que vive, então, duas vidas paralelas: - uma como homem e outra como mulher.

Muitas das pessoas em regime de “atividade esporádica” não se reconhecem como nem gostam de ser chamadas de travestis, preferindo o termo “crossdresser”, sobre o qual não paira o estigma que costuma rondar a simples menção do nome “travesti”.

2 - O que é exatamente transexual?

A transexual é uma pessoa do sexo macho ou do sexo fêmea em conflito com o seu sexo biológico e, por consequência, em conflito com o gênero que lhe foi consignado ao nascer, de homem ou de mulher.

Contudo, diferentemente da travesti, para quem a identidade e a expressão de “gênero” constituem o núcleo principal do conflito, na transexual o conflito se situa no próprio sexo biológico da pessoa, com foco principal na sua genitália, da qual a maior parte das transexuais deseja intensamente se livrar (embora muitas transexuais ainda se considerem transexuais mesmo não chegando ao ponto de realizar a cirurgia de redesignação sexual).

Ou seja, a demanda da transexual vai muito além de questões meramente relacionadas a gênero, como é o caso das travestis e crossdressers.

Por isso mesmo, boa parte da comunidade transexual rejeita o rótulo de transgênera, por julgar que o seu conflito é muito diferente do das outras classes incluídas nesse grupo, onde o conflito principal está tipicamente relacionado a identidade e expressão de gênero.

Realmente, no caso das transexuais, o conflito de identidade de gênero pode ser visto apenas como adjacente a um conflito muito mais original e profundo que é o próprio sentimento de se estar presa num corpo diferente daquele que a pessoa acredita que deveria ter. A transexual MtF (male to female ou macho para fêmea) se considera uma “mulher presa em corpo de homem” assim como a FtM (female to male ou fêmea para macho) que se considera um homem preso em um corpo de mulher. Muitas transexuais MtF afirmam, categoricamente, que não travestem, como fazem as travestis e crossdressers, mas vestem roupas de mulher porque é isso que faz sentido para elas, posto que são mulheres. Num outro extremo, contudo, há registros de transexuais MtF que chegam a fazer a cirurgia para readequação sexual e continuam levando a vida confortavelmente dentro do gênero que lhes foi consignado ao nascer.

Quanto à orientação sexual de transexuais, a despeito da grande incidência de homossexualidade (a rigor, heterossexualidade, considerando a natureza da queixa da transexual que é a de estar presa em um corpo diferente do sexo a que ela/ele sente pertencer) há também uma incidência considerável de heterossexualidade (homossexualidade, pela mesma razão anterior) e de assexualidade, ou seja, completo desinteresse por quaisquer tipo de relações sexuais.

Também deve ser relatado a ocorrência de um padrão de auto-erotismo conhecido como auto-ginecofilia, por sinal um tema altamente polêmico dentro da comunidade transexual na atualidade.

3 - O que é exatamente transgênero?

Como já comecei a descrever anteriormente, o transgênero é uma pessoa cuja identidade ou expressão de gênero é diferente das expectativas da sociedade em relação ao que ela chama convencionalmente de masculinidade e de feminilidade. Por exemplo, uma pessoa transgênera pode sentir um desejo incontornável de se vestir e ou de se comportar de uma forma que não é socialmente esperada (ou muito menos “aprovada”) para o gênero em que ela foi classificada ao nascer.

Desde o seu surgimento, na década de noventa, o termo transgênero tem sido basicamente empregado como uma espécie de “guarda-chuva”, abrigando pessoas, estilos e tendências que por algum motivo, dos mais simples e passageiros ou mais complexos e duradouros, simplesmente não se encaixam nas descrições das categorias tradicionais de gênero. Dentre as classes abrigadas pelo “guarda chuva da transgeneridade” se destacam as travestis, crossdressers, transexuais, indivíduos intersexuados (antigamente chamados de hermafroditas), drag-queens e transformistas, além de muitos outros segmentos, com suas próprias dificuldades de enquadramento nos rótulos oficiais de gênero.

Podemos dizer que existem vários “graus” de transgeneridade, onde o mais superficial seria, por exemplo, o uso totalmente ocasional de uma roupa socialmente consignada para o gênero oposto ao da pessoa e o mais profundo envolveria a transformação radical do próprio corpo em nome de se tornar uma pessoa de outro sexo. Por outro lado, a transgeneridade pode ocorrer apenas umas poucas vezes ao longo de uma vida inteira, como pode vir em “ondas” de freqüência variável (urges), como pode ser ainda uma necessidade permanente, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

A pessoa transgênera pode ser tanto do sexo macho quanto do sexo fêmea. Quanto à orientação sexual, estima-se que o comportamento sexual dentro da classe transgênera como um todo repita basicamente as mesmas proporções encontradas na classe cisgênera (não-transgênera).

Finalmente, é importante lembrar que, por se tratar de um conceito muito novo e de uso muito recente ainda pairam muitas dúvidas e controvérsias sobre a conveniência da sua utilização. Como já dissemos antes, boa parte das transexuais, por exemplo, não concordam em ser vistas como parte de um grupo que reúne, ao mesmo tempo, travestis, crossdressers, drag-queens, intersexuados e transformistas.

4 - O que é exatamente pessoa trans?

Ainda bem que essa é a sua última pergunta! Porque você há de concordar comigo que a nossa jornada até aqui não foi nada fácil, hein?

Como eu espero que esteja claro para nós todos que dizer uma pessoa “trans” é o mesmo que dizer uma pessoa “transgênera”, no sentido mais amplo que esse termo vem sendo utilizado, peço licença para utilizar a sua última pergunta como motivo para fazer uma reflexão.

Para mim, pessoa “trans” é aquela está em permanente “trans-formação”, disposta a “trans-por” todos os obstáculos e resistências, internos e externos, no caminho da mudança. É aquela pessoa que “trans-gride” regras e padrões de conduta que se tornaram obsoletos e opressivos “trans-mitindo” à sociedade, de forma absolutamente “trans-parente” novas ou ainda inexploradas possibilidades de realização do ser humano. Pessoa “trans” é aquela que “trans-cende” a si mesma, tentando expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da pessoa que o mundo acha que ela deveria ser.

Beijos

Letícia Lanz
Uma pessoa “trans”, com certeza!

Fale diretamente comigo escrevendo para leticialanz@yahoo.com.br

 

 

Sou casado, amo minha mulher, mas gosto de andar nú e vestir suas calcinhas. Sou normal? Existem outros homens assim como eu?

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DÚVIDA:

Bom dia Leticia,



Eu li seu artigo (Devo contar para minha esposa? ) eu amei o texto. Eu já envie e-mail para vários escritores e psicólogos mas nenhum me respondeu nada direito. No seu artigo ficou muito claro a minha posição em relação ao assunto.



Segue meu caso para que você me ajude se possível ou me responda eu já enviei para vários sites e ninguém me respondeu. Olha, se você quiser publicar pode, mas não me identifique-me, use outro nome e cidade. Olha sou homem mas gosto de ler esta revista pois traz muitos assuntos importantes. Segue meu caso



O fato é que sempre gostei de ficar nu deste pequeno. Hoje, casado, sempre que posso fico nu em minha casa. Gosto muito de sexo com minha esposa, mas gosto muito de vestir calcinha me sinto muito excitado com isso. Às vezes tenho fantasia com homem chupando outro homem (nunca fiz) e tenho muita tesão no ânus. Essas coisas eu nunca contei para ela. Gosto dela passar a mão na minha bunda e gostaria que ela passasse a mão no meu ânus, mas tenho medo de pedir e ela não entender e achar que eu sou gay. Aliás, ela até já me perguntou se eu gostaria que um homem me penetrasse e eu fiquei sem jeito porque, na verdade, talvez eu gostasse. Mas não de um homem e sim ela mesma, com um pênis de borracha. Você acha que eu sou normal? Que tem outros homens com estas mesmas dúvidas?



Mas nunca tive contato com outros homens, e nem tenho atração por homens. O que mais me preocupa é esta loucura de ficar nu quando estou em casa para fazer as tarefas. Se estou sozinho, tiro a roupa e amo vestir as calcinhas da minha mulher. Mas só tenho atração por calcinhas! Fico louco, desde que eu era solteiro. Quando eu era adolescente, vestia as calcinhas das minhas irmãs e me masturbava até três vezes por dia. E depois de casado é a mesma coisa. Minha mulher sabe disso e às vezes me reprime, às vezes me apoia e incentiva. Também gosto muito de chupa-la e de ser chupado por ela.



Se você puder me dizer umas palavras sobre tudo isso, por favor me envie. Vai me ajudar muito, pois às vezes não sei se é normal ou não, e isso me deixa muito angustiado. Aguardo sua ajuda. Tenho 47 anos, 25 de casado e 3 filhos.



Atenciosamente



José (nome real omitido a pedido do autor da mensagem)

 

RESPOSTA DE DRA. LETICIA LANZ:

José,



A primeira coisa que tenho para lhe dizer é que é normal, sim. Tudo que você faz com o seu próprio corpo é lícito e perfeitamente normal. A única coisa que não é normal nesse mundo é a gente ser infeliz e, é claro, causar-se algum tipo de injúria, física ou mental, que, em si, já são formas devastadoras de infelicidade. De resto, lembre-se que o corpo é seu e a vida é sua, meu amigo.



A segunda coisa a lhe dizer é que não há absolutamente nada demais em você querer usar calcinhas em vez de cuecas - e excitar-se com elas. Nesse caso, elas devem estar funcionando para você como um fetiche sexual, ou seja, um Objeto de Desejo Sexual para o qual você canaliza suas pulsões libidinosas. Milhões de homens mundo afora também têm atração idêntica à sua por peças do vestuário feminino como calcinhas, soutiens, salto-alto, meias de seda, etc, etc. E não há nada de errado com isso. Tal manifestação só vira problema, evidentemente, quando causa muito desconforto, angústia, ansiedade ou culpa na própria pessoa. Nesse caso, deverá ser buscada ajuda clínica, não necessariamente para eliminar o fetiche da vida da pessoa, mas para aliviar sua culpa, reduzir sua angústia, fazer com que ela se sinta confortável com essa prática tão comum e, em si, absolutamente inofensiva a si mesmo ou a quem quer que seja.



Agora, só porque você gosta de se vestir com calcinhas de mulher, só porque sente tesão fazendo isso, não significa de maneira nenhuma que você é um crossdresser ou um travesti. Crossdressers e travestis não sentem tesão pelos objetos femininos que usam ou vêem alguém usando. A tesão de um CD está no próprio ato de se sentir mulher, que é algo muito diferente do que gostar de roupas e objetos que uma mulher usa.



Da mesma forma que sentir prazer anal não significa de maneira nenhuma que você tenha uma orientação homossexual. A região anal é uma das partes mais erotizantes do corpo humano, pois além de ser dotada de uma rede de enervação muito sensível, é através do orifício do ânus que se pode ter acesso à próstata, conhecida como o ponto "G" masculino. A massagem prostática, realizada através do orifício do ânus, é uma arte conhecida desde tempos imemoriais como uma das atividades que produzem maior prazer erótico no homem.



Portanto, sentir prazer no toque anal nunca foi atributo exclusivo de homossexuais. Todo homem pode sentir – e sente – prazer no toque anal. Basta que ele “se autorize” sentir, uma vez que a cultura, as tradições e o valores “machistas” vetam terminantemente esse tipo de prazer no homem. Desde cedo o menino é treinado e advertido a se afastar léguas dessa prática, sob pena de ser reconhecido como “boiola”.



Não há absolutamente nada de errado em tocar e ser tocado por outro homem. A nossa cultura é muito dura e inflexível nessas questões de toque entre homens. Tristemente, um homem só pode tocar outro homem se for para molestá-lo através da luta, do soco, do pontapé. O cuidado deve ser apenas quanto ao uso de preservativos, caso você faça sexo com outro homem. E uma combinação prévia com sua mulher, já que vocês são parceiros de longa data e ela poderia considerar isso uma traição, caso você não conversasse com ela a respeito.



Porém, como você mesmo disse, o toque anal não precisa ser feito por outro homem. Pode ser feito perfeitamente por uma mulher. A sua, de preferência, já que ela mesma esboçou compreensão a respeito disso, quando perguntou se você não gostaria de ser penetrado por outro homem. Basta você conversar com ela francamente, sem evasivas, que esse é realmente o seu desejo e que gostaria de contar com ela para ajudar você a satisfazê-lo.



Aliás, você não acha que, vivendo com ela há 25 anos, já não passou da hora de ter uma conversinha com ela sobre todas essas coisas (rs rs)? Eu garanto que se você for verdadeiro com ela, como foi comigo, tudo isso que hoje parece tão oculto, misterioso, e cheio de culpa em sua vida vai se tornar uma rotina muito agradável, lindamente compartilhada por vocês dois.



Beijos



Letícia Lanz

 

Mãe de gay - pai calado, filho rebelde e mãe com culpa de tudo. O que fazer?

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DÚVIDA:

Sou de uma familia muito tradicional tive 2 filhos uma menina de 14 e meu filho de 19 quando ele tinha 17 anos comecei a observa-lo o seu comportamento diferente comecei a perceber algo estranho quando ele estava no computador quando eu chegava perto ele minimizava e não conseguia ver com quem estava falando, as vezes no msn eu via fotos mais sempre só de homem ate então não tinha certeza mais minha filha de 14 um dia chegou em mim e falou que iria ficar triste mais ela mesmo assim iria me falar foi ai que me falou que meu filho era gay.

Pra mãe o filho é sempre filho. No começo só chorava o tempo inteiro foi muito dificil pra mim, como esta sendo nunca tive coragem de contar para meu marido porque ele ficaria muito decepcionado e triste porque ele é muito calado não fala muito o que sente sabe. Eu acho que ele sabe, mais não quer se abrir. Meu filho se abriu comigo chorou bastante aceitei a situação sempre converso muito com meu filho sobre as doenças enfim sobre as consequencias.

Mas meu filho começou abusar levando os amigos em casas e fazendo bagunças chegando tarde em casa de madrugada com amigos e amigas. Aí conversei com ele que esta situação eu não iria aceitar porque o quarto de minha filha fica ao lado do dele e ela estava escutando algumas coisas que não seria legal, e ele sempre falava que iria embora quando foi no domingo passado ele pegou a mochila e foi embora para casa de uma familia não muito recomendada.

Sabe eu fico chorando porque amo muito meu filho e ele é muito agarrado comigo não sei o que fazer se vou atraz dele se fico esperando em casa sabe estou desesperada o que vc acho que devo fazer?

Me ajude por favor meu marido me culpa por tudo que meu filho me pedia eu fazia sabe, mais uma mãe quer ver seu filho feliz então tudo o que me pedia e fazia mesmo. Não me culpo pela criação ele nunca gostou de brincar com menino sempre só queria ficar em casa foi ai que comecei a perceber nunca gostou de pipas jogar bola. Apesar dele ser bem discreto. Não me importo por ele ser gay ele é meu filho e amo muito estou sentindo muita falta dele não sei o que fazer se não for atraz dele ele pensar que a mãe não se importa com ele ou se for atraz dele ele se achar que esta fazendo chantagem é muito dificil

Beijos não estou conseguindo mais escrever sabe

 

RESPOSTA DE DRA. LETICIA LANZ:

O que mais me chamou a atenção na sua mensagem foi a fortíssima tendência que você tem de se sentir responsável por tudo que ocorre à sua volta. Da “estabilidade emocional” da sua filha, comprometida pela falta de “harmonia no lar”, até a “paz” e “tranqüilidade” do seu marido, “fortemente abaladas” pela orientação sexual do seu filho, você passa nitidamente a idéia de acreditar ser a grande “causadora” de tudo. E que, por isso mesmo, também deve ser a “grande salvadora” de todos.

Eles, é claro, estão se esbaldando com isso. Quem não quer ter um “bode expiatório” de plantão, alguém para jogar a culpa de todos os seus desconfortos, problemas e frustrações, passadas, presentes e até futuras?

Tudo bem que, como esposa, mãe e dona-de-casa dedicada e amorosa que é, você queira e trabalhe intensamente para produzir o bem-estar e a felicidade de todos que a cercam. Tudo bem que, eventualmente, você faça até muito mais do que pode a fim de que eles se sintam confortáveis e felizes nesse mundo. Nada agrada mais a uma pessoa generosa como você do que ver a felicidade das pessoas que você ama.

Porém, tudo tem limites, com os quais, no seu afã de assegurar a felicidade dos outros, você tem rompido sistematicamente. Senão vejamos:

1 - O filho descobrir e assumir a própria orientação sexual é um processo inteiramente dele – e não da mãe, do pai ou de que quem quer que seja. Orientação sexual não é algo que a mãe ou o pai possam “escolher” pelo filho ou determinar a ele que seja dessa ou daquela forma. Só ele pode dizer como quer expressar ao mundo a sua própria sexualidade.

2 - A Sociedade – ou seja, os outros – não têm nada a ver com a orientação sexual de cada pessoa, a menos que seja uma manifestação mórbida e doentia, que “invada” o território do outro sem obter sua licença – como são os casos da pedofilia e do estupro. Fora isso, toda orientação sexual é saudável, com reconhece a própria Organização Mundial de Saúde, na sua Classificação Internacional de Doenças, o CID-10 (décima edição).

3 - A sexualidade se manifesta naturalmente em cada indivíduo, e nada poderá impedir a sua manifestação. De resto, o que há em torno da homossexualidade é puro preconceito. De homens “machões” (e mulheres “machonas”) que não admitem a hipótese de um homem (ou de uma mulher) tendo relações com outro homem (ou outra mulher).

4 - Fale francamente com seu marido. EM PLENO SÉCULO XXI, AS PESSOAS AINDA NÃO CONVERSAM SOBRE UMA COISA TÃO FUNDAMENTAL QUANTO SEXO!!! Se seu marido se sentir “desconfortável” com a orientação sexual do filho, diga-lhe que converse sobre isso COM ELE. Não se faça de pára-raios ou de porta-voz dos desconfortos dele, porque o problema (se é que ele quer ver isso como um problema...) DEFINITIVAMENTE NÃO É SEU.

5 - Em momento nenhum aceite a acusação “esfarrapada” do seu marido de que seu filho possa ter “escolhido” ser homossexual por causa da forma como você o criou, fazendo todos os desejos dele. Já pensou que, da mesma maneira “esfarrapada” você poderia lhe acusar de coisas tão bobas quanto: - da "caladez" dele, da sua sistemática "omissão" na criação do filho? Mas corra dessas acusações vazias e de “bate bocas” inúteis. Se ele "se irritar" por saber da orientação sexual do filho, simplesmente recomende que ele se eduque a respeito da sexualidade humana da qual, pelo jeito, ele deve saber muito pouco...

6 – Uma coisa é seu filho ter uma orientação sexual homo que, como eu disse, é assunto íntimo dele – e de mais ninguém. Outra coisa, é ele se sentir “dono do pedaço”, sentindo-se no direito de invadir a privacidade dos outros que o cercam. Aqui existem duas questões absolutamente distintas que ele, espertamente, está tentando fazer com que você creia ser apenas uma única. MAS NÃO É! Seja a pessoa hétero, homo, bi, tudo isso junto ou coisa nenhuma, isso NÃO A AUTORIZA fazer DEMONSTRAÇÕES PÚBLICAS E OSTENSIVAS DA SUA SEXUALIDADE!!! Aqui não é questão de orientação sexual MAS DE SENSO DE LIMITES, CONSCIÊNCIA DOS LIMITES DO SEU PRÓPRIO ESPAÇO. Parece que, infelizmente, seu filho, além de não demonstrar grande respeito pelo espaço dos outros, resolveu considerar-se vítima da situação que ele próprio criou . NÃO É A ORIENTAÇÃO SEXUAL DELE QUE ESTÁ EM JOGO, MAS O SEU DESPREZO PELO ESPAÇO DAS OUTRAS PESSOAS DA FAMÍLIA. Só uma curiosidade que tive a respeito da vida do seu filho "fora de casa": - quem está custeando as despesas dele? Ele trabalha, consegue se manter?

7 – O interessante aqui é que o pai, que você tanto quer "preservar" de saber da orientação sexual do filho – que não é, absolutamente, assunto da conta dele – parece ter-se omitido inteiramente na hora de fixar os limites para o filho DENTRO DE CASA – esse sim, assunto importantíssimo e inteiramente dentro da competência de um pai. Aqui, mais uma vez, jogaram tudo sobre as suas costas e, mais uma vez, você assumiu a carga.

8 – Seu filho saiu de casa, está andando em más companhias, sua filha está “agoniada” e seu marido continua "vivendo calado", comodamente "alienado" de tudo que está ocorrendo à sua volta. E todos, sem exceção, apontando o dedo para uma única pessoa responsável por tudo: - VOCÊ! Aliás, eles nem precisam mais apontar-lhe o dedo: - você própria já se acostumou a fazer isso, sempre que acontece alguma coisa do desagrado deles...

Agora é com você. Há muitas perguntas que você precisa responder para você mesma:
- Será que eu sou mesmo a responsável de tudo?
- Será que eu não estou assumindo coisas que não são – que nunca foram - da minha competência?
- Em nome de que eu estou me sentindo culpada pela situação e responsável por “salvar a pele” das pessoas envolvidas?
- Alguém nessa história lembrou-se que eu existo? Que eu também tenho as minhas próprias carências e dificuldades?
- Será que eu devo "continuar protegendo" todo mundo de assumir "as próprias responsabilidades nessa história?
- O que é que eu pretendo fazer a respeito disso tudo, daqui para a frente?
- etc, etc, etc.

Desejo que você encontre respostas BEM MENOS CULPOSAS do que as que tem hoje para perguntas semelhantes. E se forem, desejo que se arrisque a ACREDITAR NELAS, por mais que elas contrariem algumas das suas crenças pessoais mais arraigadas, pois você merece - e precisa - ser feliz.

Beijos

Letícia Lanz

 


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