Crossdresser

warning: Creating default object from empty value in /home/maite/public_html/modules/taxonomy/taxonomy.module on line 1390.

Primeira vez com meu primo

Bom deixa eu me apresentar, tenho 53 anos, sou casado e bem casado, amo minha mulher mas tenho um problema, se é que posso chamar isso de problema! Eu adoro me vestir com calcinha, sutiã e camisola, meu sonho e sair com um homem também casado (casado tem que ser discreto) e ser uma fêmea para ele nunca sai ainda com um homem, até que um dia... Conto isso mais abaixo. Há tempos que sonho em me realizar, e com tanta vontade eu comprei um consolo que mede 17 x 4,5 e me masturbo satisfazendo os meus desejos mais íntimos, só que não deve ser mesma coisa, nada melhor que uma rola de um homem para sentir como deve ser possuído por um macho.

Enquanto isso não se realizava, eu me visto com roupas íntimas e meu consolo, fico aqui na net a procura de um homem. Sempre entro, depois da 00h00min e fico aqui na net, na sala de bate-papo sala de Campinas 1 ou 2 com o nik (M.Mor/HCas/Passivo). Eu quero um homem casado legal carinhoso, discreto e de referência que more na minha cidade, que tenha no mínimo uns 40 a 53 anos. Más um dia aconteceu, meu irmão mora sozinho e um primo veio morar com ele, na verdade ele não é bonitão ou um homem sarado e nem mesmo casado, ele é solteiro, tem 47 anos e minha mente foi longe, pensei comigo: Será que eu consigo algo com ele?

O que eu sei, é que nunca se casou, e não é de sair por ai, e quem sabe algo acontece algo entre nós, eu só sei que ele gosta de assistir filmes de qualquer tipo, inclusive pornô. Depois de alguns dias já morando com meu irmão, eu estava esperando uma oportunidade para conversar com ele, chegou este dia. Eu conversei com ele várias coisas, neste dia eu não falei de sexo, só disse que tinha bastantes filmes, se ele quisesse poderia ir até a minha casa buscar alguns já que somos vizinhos. Em um sábado ele bateu na porta de casa, veio emprestar um filme, eu mostrei vários e ele pegou alguns, menos pornô, pois meu filho e minha mulher estava em casa. Falei que a noite lá por volta das 19h minha mulher iria à casa de sua irmã e depois poderia buscar alguns. Não deu outra, levei minha esposa e meu filho na casa da sua irmã e voltei.... Antes tomei um belo de um banho fiquei cheirozinho, eu escondi no banheiro calcinha, sutiã, camisolinha e KY, quem sabe iria rolar algo, sabia que ele veria buscar os filmes pornôs, e eu que não sou nada bobo, também preparei um filme bem sexy fazendo de conta que estava assistindo. Deduzi que ele iria assistir também.

Não demorou muito e ele chegou, quando viu que eu estava assistindo se sentou no sofá e começou assistir junto comigo. A cada cena, não dava para não ficar excitado, ele fixava o olho no filme que fiquei admirado, ainda mais que a mulher estava levando rola no cuzinho. Falei para ele assim:

- Como elas agüentam esta rola né, será que um homem agüentaria isso tudo.

Ele respondeu:

- Se homem for carinhoso, ele agüenta sim.

E passou a mão por fora de seu short em sua rola, e pelo que vi já estava dura, com certeza já estava a ponto de bala. Nisso passou uma cena que a rola do cara era igual à dele, pois eu já tinha visto sua rola há muito tempo, era torta, eu joguei o verde e colhi o maduro rsssssss.

Eu disse para ele:

- A rola do cara é torta? - Não igual a sua? - Se não me falha a memória sua rola é torta!

E ele respondeu:

- Sim, é torta sim, e ainda fui operado de um testículo, tenho um só.

Com um ar de espanto, ele me disse:

- Duvida! Quer ver? - Você é quem sabe, estamos sozinhos aqui, se quiser mostrar...

Ele tirou no mesmo instante para eu ver, estava dura e baband .... Eu delirava de tesão, que rola, tinha uns 17 cm não muita grossa e nem fina, eu me abaixei para comprovar, falei que era verdade mesmo e ai ele guardou sua rola, mas começou a alisar em cada cena, e eu lá firme olhando esperando uma brecha para eu soltar a franga.Quando ele disse para mim:

- Estou com tanto tesão, até um homem eu traçava neste instante, faria ele ser uma fêmea para mim.

- Você teria coragem, está afim mesmo? - Sim estou!

E eu perguntei:

- Você está querendo algo de mim? - Sim, eu quero você! Quero passar a mão na sua bundinha...

Nossa, eu não acreditava, pois eu estava com tesão por ele e ele por mim. Ai eu me soltei mesmo e falei que queria há muito tempo um homem para eu dar, chupar ser uma mulherzinha, inclusive com roupas íntimas se ele desejar. Ele falou com um ar de macho:

- Aqui esta ele, pode se aprontar, você vai ter o que quer.

Fui ao banheiro e coloquei calcinha, sutiã, e fui até ele. Ele delirou de tesão quando me viu, olhou para mim disse que eu estava uma verdadeira mulher.

Eu adorei quando falou isso, ele tirou seu short, sua camisa, ficando somente de cueca, dava para ver sua rola dura dentro da cueca, me virou de costas, ergueu minha camisola, quando viu minha bundinha ficou louco de tesão, disse que era a bundinha mais bonita que já viu e com a calcinha preta ficava redondinha, começou a me abraçar, e eu rebolava, esfregava nele, ficamos assim por uns 10 minutos, beijava minha nuca, falava no meu ouvido que eu era muita gostosa e eu continuava a rebolar em sua rola. Ai tirou minha camisola com jeito de macho, abaixou minha calcinha, tirou sua cueca, pediu para eu ficar de 4 e começou a chupar o meu cuzinho, nossa que língua.

Lubrificou sua rola e apontou a cabeça de sua rola na portinha e bem devagarzinho começou a enfiar, a cada cm que entrava eu suspirava de tesão, ele sabia mesmo como comer um cuzinho, não senti uma dor sequer.

Em um vai vem bem compassado, ele me chamava de putinha, que eu seria sua mulher para sempre, eu respondia que ele seria meu, meu macho meu homem. Depois de uns 20 minutos, enfiando cada vez mais rápido e dizendo coisas que eu adorava ouvir, ele parou, tirou e enfiou, deu uma enfiada bem forte que senti seu único testículos bater na minha bunda, parecia que ele queria entrar junto com sua rola no meu cuzinho, depois de umas deliciosas estocadas cada vez mais forte, começou a gozar, gemendo de tesão dizia que eu era demais, nem uma mulher fez o que eu fiz.

Gozei com ele de tão gostoso que estava, senti aquele macho as mãos dele puxando, aquele homem, aquela rola me comendo, me possuindo como eu fosse uma putinha, eu sendo sua mulher .... Que delicia que tesão, nossa nunca tive tanto prazer como aquele. Depois que eu ele terminamos, ele disse que queria repetir sempre que fosse possível, eu falei que a hora que tivermos oportunidade vamos sim repetir, pois eu tinha gostado muito. Agora quando minha mulher sai ele entra, e eu fico como uma fêmea, uma mulher para ele o meu primo. quem quiser ter uma aventura dessas me escreve:

ursaopassivo10@bol.com.br

 

Uma pessoa adequada

Sou o que se pode chamar de uma pessoa “socialmente adequada”. Sempre arquei com as minhas obrigações, mesmo sabendo que, na sua maioria, elas foram estabelecidas inteiramente à minha revelia. A despeito da falta de democracia nas escolhas que fizeram por mim, cumpri com meus deveres da melhor maneira que pude e soube.

Ao par disso, trago dentro de mim uma total falta de identificação com o gênero masculino. Nunca correspondi exatamente ao que pode ser chamado de estereótipo de homem. Com exceção do quesito preferência sexual, em que sempre me inclinei praticamente 100% para mulheres, certamente, também, pela natural dificuldade de me relacionar com outros homens. Ao mesmo tempo, sempre fui atraído pelas roupas, calçados, bijuterias, maquiagem e atividades socialmente atribuídas à mulher e “desaconselhadas” para o homem.

Não fosse por esse pequeno e totalmente desprezível “detalhe” de comportamento - preferir ser e agir socialmente dentro do estereotipo da mulher, sendo homem – minha imagem de pessoa socialmente adequada jamais poderia ser posta em dúvida.

Mas por causa desse pequeno e desprezível “detalhe” do meu comportamento - tive um trabalho árduo comigo mesma a fim de me ver e me aceitar como uma pessoa “socialmente adequada” a despeito da força e da vigilância permanente da opinião pública.

Minha peculiar identidade de gênero, em contraste às vezes tão acentuado com o meu sexo biológico, pode fazer com que muita gente me veja como “impróprio” para o convívio “normal” com outras pessoas. Pode fazer com que eu próprio muitas vezes me sinta como se eu fosse portador de alguma grave patologia mental ou de uma absurda “feiúra” moral que devesse ser mantida “oculta” para não causar perplexidade nas pessoas à minha volta.

Levei muito tempo para entender isso tudo e mais ainda para me convencer de que não existe nenhuma patologia em jogo no ato de me travestir, nem do ponto de vista médico, nem do ponto de vista moral. O que sobrevive por aí é apenas o estúpido “fantasma da suposta superioridade do macho”, assombração judaico-cristã que ainda encontra eco na ex-todo-poderosa mente do macho (ele ainda finge que é, para não surtar de vez...)

Levei muito tempo para ME OLHAR de frente e dizer para mim mesma, com amoroso orgulho, que eu sou uma pessoa adequada e muito querida, digna de amar e de ser amada pelos meus grandes “amores íntimos”, mas, sobretudo, de ser amada por mim mesma.

O resto é o resto. Resto mesmo, portanto, desnecessário e totalmente prescindível para o meu estar nesse mundo. Resto que, ademais, não merece de maneira nenhuma desfrutar da minha intimidade, nem conhecer e conviver com a linda pessoa que eu sou.

Auto-aceitação, de novo...

Uma vez a Lalá me disse que o que eu realmente quero é aparecer, chocar, causar frisson, gerar "tititi". Diagnóstico absolutamente correto o dela. E mais: - ela me disse que não havia mal nenhum nisso, que isso era apenas um aspecto da minha história pessoal, uma história muito mais rica no seu contexto geral do que algo tão simples e bobo como esse de querer me expressar como mulher, sendo homem.

Meu drama, naquela época, era eu mesma, que NÃO ACEITAVA DE MANEIRA NENHUMA QUE EU, UMA PESSOA TÃO ESPECIAL ETECETERA E TAL (pois sim!), ESTIVESSE QUERENDO UMA COISA TÃO BOBA, DOIDA, IDIOTA...



Ninguém imagina os conflitos homéricos que eu tive de enfrentar até aceitar, de uma forma bem confortável, como faço hoje em dia, que, o tempo todo, eu tento ser a imagem do meu desejo e que está perfeitamente bem ser assim.



É claro que, para isso, eu tive de abrir mão daquele "superego" gigante que me fazia crer ser eu uma "pessoa especial". EU SOU ESPECIAL COISÍSSIMA NENHUMA!!! EU SOU É HUMANA, DE CARNE, OSSO E DESEJO. EU TINHA MAIS É QUE PARAR DE CONCORRER COM O CRIADOR EM MATÉRIA DE PERFEIÇÃO E ASSUMIR A MINHA NECESSIDADE DE EXPRESSÃO!!!



No momento atual, se ainda não faço 100% de tudo "que dá na telha do meu desejo" é porque eu sei que não estou suficientemente apto para fazê-lo. Não porque eu me considere uma "pessoa especial" em qualquer aspecto e muito menos porque eu considere meu desejo como feio, desprezível, aberrante e outros adjetivos tão despropositais quanto esses.

EU NÃO SOU ESPECIAL, MEU DESEJO NÃO É BOBO E EXISTEM PESSOAS QUE, COM TODO DIREITO E RAZÃO, EM VIRTUDE DA EDUCAÇÃO QUE RECEBERAM, NÃO ACEITAM QUE EU EXPRESSEM O MEU DESEJO DA FORMA QUE EU QUERO. É com essa realidade que eu tenho que lidar e é com ela que eu estou lidando. Com muito prazer e conforto pessoal, a maior parte do tempo, pelo menos.

Quando o Assunto é Exposição Pública do Crossdresser

Quando o assunto é exposição pública, penso que existem, pelo menos, três grupos de CDs, bastante diferenciados um do outro:

1 - CDs CUJO PRAZER ESTÁ JUSTAMENTE EM NUNCA SAIR DO ARMÁRIO

O verdadeiro desejo dos CDs nesse grupo é poderem montar-se completamente às escondidas de TODO MUNDO. Seu prazer decorre fundamentalmente de imaginarem que "poderiam ser descobertos" - e assim tomarem todos os cuidados para jamais serem. É desse jogo de permanência no armário que esses CDs retiram toda a sua recompensa psíquica. Embora possa até fazer parte do seu discurso, sair do armário para eles é uma idéia totalmente fora de cogitação, pois perderiam a sua maior fonte de recompensa.

2 - CDs CUJO PRAZER ESTÁ EM PASSAR COMPLETAMENTE BATIDO EM PÚBLICO

Esse grupo de CDs é obcecado por produções tão diferenciadas (não necessariamente requintadas. ..) dos traços dos respectivos sapos que JAMAIS SEJAM reconhecidos em público. A grande fonte de recompensa nesse grupo é "passar batido".

3 - CDs CUJO PRAZER É SER RECONHECIDO E ACEITO PELOS DEMAIS PELO QUE SE É

A busca aqui não é pela ocultação, mas pela exposição ostensiva daquilo que se é como pessoa. Pode ou não ser buscada uma produção requintada, mas o principal interesse é ser o que se é.



CDs do grupo 1 podem até se queixar de preconceito dos outros, mas apenas como reforço/argumento de apoio à sua firme determinação (inconsciente? !) de jamais saírem do armário.

Como seu propósito é passar inteiramente batido, completamente anônimo, o grupo 2, em princípio, não tem motivos reais para queixar-se de preconceito. A menos que não consiga uma montagem convincente o bastante... Nesse caso, o argumento de "preconceito dos outros" servirá como uma boa desculpa para sentirem seus egos "profundamente" feridos...



Assim, o grupo 3 é o único que poderá, realmente, queixar-se de "preconceito dos outros", uma vez que seu desejo é expor o seu crossdressing pública e abertamente, a qualquer momento e em qualquer circunstância e lugar.



Ora, é inevitável que alguma forma de "estranhamento" ocorra da parte dos outros ao nosso respeito. Como um homem não ser notado, passando completamente sem ser visto, quando comparece numa cerimônia de casamento vestido de mulher?



Aqui está o grande dilema dos CDs dentro desse grupo 3. Querer expor-se publicamente, sem a preocupação de "passar batido", e não gerar nenhum "estranhamento" por parte dos demais. Ora, ainda que o crossdressing não seja ilegal de maneira nenhuma, ele está fora dos costumes de vestuário admitidos para o gênero masculino. Note-se que o gênero feminino JAMAIS viverá esse dilema, pois seus códigos de vestuário são completamente abertos e flexíveis a todo tipo de experimento.

Infelizmente, essa é uma dura escolha que todo transgênero nesse grupo 3 tem que fazer mais cedo ou mais tarde: - seguir a força do próprio desejo, com todas as implicações que envolve o grau totalmente aberto e incondicional de exposição pública ou reprimir, recalcar, encobrir, negar e abandonar o desejo, em nome de continuar merecendo a aprovação dos demais, sem causar neles nenhum tipo de estranhamento. Adianto que, as duas coisas, ao mesmo tempo, será praticamente impossível a gente conseguir no atual estágio de desenvolvimento da sociedade.



Eu me incluo nesse grupo 3. E por me incluir nele, quero dizer que eu concordo inteiramente com você: o preconceito - muito antes de ser DOS OUTROS EM RELAÇÃO A NÓS - é da gente em relação a nós mesmas!!!

Ou seja, antes de esperarmos pura e simplesmente que os outros nos aceitem PELO QUE SOMOS, é preciso que a gente SE ACEITE. Aceite, inclusive, a terrível idéia de que SOU EU É QUE NÃO SUPORTARIA A IDÉIA DE PENSAR QUE OS OUTROS PODERIAM DEIXAR DE ME ACEITAR!!! SOU EU É QUE NÃO CONSIGO IMAGINAR-ME VIVENDO SEM A APROVAÇÃO PÚBLICA DOS OUTROS.



Entretanto, é muito mais fácil e cômodo cultivar a idéia paranóica de que eu não me monto porque a sociedade (esposa, pais, amigos e inimigos...) NÃO ME ACEITARIAM.

Como se vê, um posição altamente conflituosa para um CD que se veja dentro do grupo 3. Melhor que ele trate de ACEITAR-SE ou migre, o mais rápido possível, para um dos outros dois grupos.

Os Riscos e as Oportunidades de Praticar Crossdressing

Cada CD entende e pratica crossdressing de um jeito totalmente pessoal, creio eu que ajustado aos seus desejos e fantasias e, naturalmente, às suas dificuldades e limitações.



Cada uma, dentro da realidade em que vive, e a partir das aspirações que tem, realiza ESCOLHAS e TOMA AS DECISÕES necessárias para implementá-las.

Toda escolha implica em certos ganhos e certas perdas, assim como toda decisão implica em certas oportunidades e certos riscos. Nem sempre a oportunidade é maior do que o risco, assim como nem sempre os ganhos são maiores do que as perdas. Trata-se de uma partida de resultado absolutamente incerto. A saída en femme que nos descreveste não esteve fora dessa lei implacável.

Quando decidimos praticar o nosso crossdressing da forma que escolhemos, de um jeito ou de outro avaliamos, nem que seja por alto, os ganhos e as perdas que estarão eventualmente em jogo, assim como as oportunidades e os riscos.

A maioria absoluta das crossdressers não são mulheres de tempo integral, como as travestis e as transexuais. Nem mesmo de tempo parcial. Na realidade, pouquíssimos de nós podem ao menos sustentar o título de "cds assumidos". A maioria vive se equilibrando em vidas paralelas, mantendo uma delas totalmente fora do conhecimento até mesmo das pessoas mais próximas de si (como esposas, familiares ou amigos), que possam ser acionadas numa eventualidade qualquer sem se estarrecerem com a súbita "descoberta".

A verdade é que, vivendo nas nossas condições, O RISCO DE SERMOS DESCOBERTOS É SEMPRE UMA VARIÁVEL DE PESO ASSUSTADORAMENTE ALTO. Talvez, exatamente por causa desse peso assustador, a maior parte dos CDs passem suas vidas inteiras trancados em seus armários...

O preço dos bons momentos, vivendo as nossas fantasias mais queridas e desejadas, acreditando que estamos em total sigilo, pode muita vezes ser exatamente a perda do nosso sigilo que, em princípio, é o que a maioria mais quer preservar - mais ainda até do que a realização dos próprios desejos e fantasias.

Continuo acreditando, como sempre acreditei e defendi, que é possível, SIM, praticarmos um crossdressing sob medida para cada uma de nós, SEM A NECESSIDADE DE NOS EXPORMOS ALÉM DO LIMITE DE EXPOSIÇÃO POSSÍVEL PARA CADA UMA - E DENTRO DE UMA FAIXA DE SEGURANÇA QUE NOS PROTEJA DE RISCOS DESNECESSÁRIOS, QUE AMEACEM A NOSSA PRÓPRIA INTEGRIDADE PESSOAL.

O primeiro passo para uma prática segura do crossdressing é nos abrir para a esposa ou companheira, ou para alguém mais próximo de nós, colocando franca e honestamente esse estranho impulso que nos leva a querer nos montar e sair. A preocupação aqui não deve ser se a esposa ou companheira vai nos entender e aceitar, mas sim de que ela fique ao par de quem a gente é. Deixar de fazer isso - ou adiar fazer - é acumular problemas muito mais graves para o futuro.

Crossdressing: Homens, salvem o mundo! Usem meias de seda e camisola

O mundo deveria receber muito bem o crossdressing masculino (em vez de lhe atirar pedras...).

Os homens, porque o crossdressing (eonismo) lhes proporciona uma vida mais longa, mais saudável e elimina a larga diferença hoje existente, em favor dela, entre a expectativa de vida do homem e da mulher.

As mulheres porque, liberando o seu self feminino, mais suave, mais terno e mais carinhoso, os homens se tornam menos dominadores, menos agressivos, menos exigentes, menos competitivos e menos opressivos. Dessa forma, as mulheres terão menos necessidade de desenvolver atributos masculinos para competir com eles.

É fato amplamente conhecido que a guerra é produto da agressividade masculina. E a tragédia para o nosso mundo é que a mulher moderna está sendo encorajada a desenvolver e expandir a sua própria agressividade (até agora reprimida), ao mesmo tempo em que o homem moderno continua a ser encorajado a suprimir e reprimir qualquer manifestação de feminilidade no seu modo de ser.

Se a sociedade continuar nesse patamar, a expectativa de vida masculina continuará a cair uma vez que a pressão e o stress sobre o homem continuará a subir nessa nossa sociedade cada vez mais competitiva. Mas a expectativa de vida da mulher também começará a cair, na medida em que mais e mais mulheres desenvolvam e deixem emergir os aspectos masculinos da sua própria personalidade, colocando de lado o seu self feminino.

E esta é a verdadeira tragédia da liberação feminina: o fato de que, em vez de meramente adicionar aspectos da masculinidade às suas vidas, muitas mulheres têm permitido que a masculinidade assumam inteiramente o controle das suas personalidades. Em vez de agregarem um pouco de agressividade, poder, ambição, dominação, prestígio, controle e outras manifestações culturais de masculinidade à suavidade, sensibilidade, gentileza, amor, compaixão e outros aspectos culturais da feminilidade, muitas mulheres parecem ter se rendido inteiramente ao perfil masculino, deixando que ele repusesse inteiramente qualquer traço de feminilidade nelas existente.

Inclusive, atualmente, MUITAS MULHERES NEM SEQUER SE VESTEM MAIS COMO MULHERES; elas usam roupas masculinas capazes de tipificar poder e agressividade abandonando roupas femininas que simbolizam suavidade, ternura e feminilidade. Usam jeans e botas para irem às compras e taillers de padronagem e corte marcantemente masculino para irem ao trabalho. Conversam como homens, falam palavrões como homens, bebem como homens e se comportam como homens. Em muitos lares modernos, o cônjuge mulher desempenha um papel muito mais masculino do que o cônjuge homem: - É ELA QUEM USA CALÇAS (tanto literal quanto figurativamente), controla a família, o orçamento doméstico (comumente provendo boa parte ou a maior parte dos fundos) e toma todas as decisões mais importantes.

O MUNDO ESTÁ SE TORNANDO CADA VEZ MAIS MASCULINO E CADA VEZ MENOS FEMININO; se continuar assim, num futuro não muito distante, o masculino será o nosso único “gênero”. E, em mundo absolutamente masculino, não era para ninguém se surpreender que a violência, a guerra, o stress e a depressão estejam crescendo em ritmo cada vez mais acelerado.

O crossdressing é uma parte essencial da liberação e emancipação do homem. O homem que se veste com roupas culturalmente associadas à mulher está mais propenso a se integrar melhor na sociedade, mais em paz consigo mesmo, menos em guerra com o mundo, muito mais feliz, saudável e mais completo e inteiro como ser humano.

Nós não podemos mudar de sexo facilmente: ele é determinado pela genética, pela anatomia e pela fisiologia. E a maioria dos crossdressers masculinos não têm absolutamente nenhum desejo de trocar de sexo: eles estão perfeitamente felizes e contentes de serem homens. No entanto, desejam ter a oportunidade de escapar (ainda que só ocasionalmente) da sua masculinidade, de serem “machos estereotipados”, com todas as responsabilidades, imposições e limitações associadas à figura do macho na nossa cultura, inclusive da necessidade atávica de lutar e vencer. Querem ter a oportunidade de expressar a sua feminilidade latente e reprimida.

O resto da sociedade pode considerar o crossdresser como um “desafortunado” mas, na verdade, o crossdresser é um ser muito “afortunado”. É justamente essa imensa parcela de uma sociedade completamente desafortunada que ainda não consegue ver em que consiste a verdadeira fortuna da humanidade.

***

Ao longo do século XX, AS MULHERES LUTARAM E CONQUISTARAM O DIREITO DE EXPRESSAR TODOS OS ASPECTOS DA SUA PERSONALIDADE – FEMININOS E MASCULINOS. AGORA É A VEZ DOS HOMENS CONQUISTAREM SEMELHANTES DIREITOS PARA SI PRÓPRIOS.

O aumento, entre homens, da incidência de doenças relacionadas a stress e a disparidade da longevidade (e das condições de vida socialmente ativa) entre os dois sexos é a prova definitiva do quanto é desesperadoramente importante para os homens se esforçarem para entrar em contato (e expressarem mais livremente) a sua “feminilidade recalcada”. Exclusivamente do ponto de vista da saúde, asseguro que mais homens praticando crossdressing significará aumento da expectativa de vida masculina (bem assim de suas vidas socialmente ativas, com maior prazer de viver e mais sentido existencial).

Guardo a esperança de que o “afortunado cidadão andrógino” do futuro seja capaz de expressar simultaneamente, sem nenhum embaraço, vergonha ou culpa, características que ainda hoje são definidas como exclusivamente masculinas ou exclusivamente femininas.

E será muito esperar que as mulheres, ao verem mais homens se libertando do peso opressivo da sua própria masculinidade, façam um esforço para reassumir uma feminilidade colocada em risco de extinção no mundo moderno?

Quem não se lamenta dessa masculinidade opressiva? Quem não percebe que o mundo está precisando de mais amor, compaixão, ternura e gentileza e menos poder, menos violência, agressividade, aspereza, competitividade e toda essa lista infindável de cruéis atributos masculinos?

Quando qualidades humanas como generosidade, ternura e compaixão deixarem de ser rotuladas como “atributos femininos” e deixarem de ser vistas com estranheza e desconfiança se exibidas por um homem, o mundo será certamente um lugar mais feliz, com menos violência, menos agressividade, menos luta e menos desperdício inútil de energia.

Os homens não devem se envergonhar de exibir suas qualidades femininas; não devem relutar em demonstrar abertamente as suas emoções; não devem se envergonhar de pedir ajuda e suporte para combinar sua tradicional rigidez masculina com a leveza e a suavidade de “atributos femininos” profundamente adormecidos e recalcados dentro de cada um. E as mulheres devem se esforçar ao máximo encorajando os homens à sua volta para expressarem abertamente a sua feminilidade.

Há muitas maneiras e possibilidades dos homens deixarem fluir o seu lado feminino.

Eles podem aprender a compartilhar seus medos e a admitir sua vulnerabilidade; compartilhar medos faz com que eles diminuam ou até desapareçam.

Eles podem aprender a ouvir (e a atender) seus impulsos interiores, quase sempre imediatamente reprimidos quando vêm à superfície. Eles podem aprender a compartilhar seus sentimentos com seus amigos (exatamente do modo como as mulheres habitualmente fazem).

Eles podem demonstrar sua dor, em vez de enterrá-la nas profundezas do seu ser, em lugares escuros e inacessíveis de onde ela brota de volta como um profundo silêncio.

Eles podem permitir que as pessoas vejam seu lado compassivo e afetuoso; os homens não podem se envergonhar de deixar que as pessoas saibam que eles se importam com elas.

Mas não é fácil fazer essas coisas quando a gente passou décadas fazendo exatamente o oposto – e lutando para agüentar firme nos momentos de crise ou sérias dificuldades existenciais.

E é por isso que um número cada vez maior de homens está descobrindo que existe um atalho; vestindo roupas femininas eles conseguem liberar o seu lado feminino, o seu lado gentil e amoroso – e, pelo menos temporariamente, escapar da agressividade e da ambição que o seus self masculino continuamente lhes demanda.

Alguns indivíduos descrevem o crossdressing como uma carência ou um vício mas eu penso que isso é um exagero; em termos psicológicos o crossdressing seria melhor categorizado como um desejo do que como uma carência. É o desejo que escapa das demandas de se ser exclusivamente homem e leva para as delícias de ser (parcialmente) mulher, ainda que temporariamente. As roupas servem meramente para projetar a imagem que o crossdresser está tentando mostrar: - ELAS SÃO UM MEIO PARA UM FIM. O uso de roupas (maquiagem, adereços) femininas é meramente uma manifestação externa de uma necessidade interna. O crossdresser está “atuando num palco”; criando a imitação de uma mulher a fim de libertar e expressar uma parte essencial da sua própria personalidade.

SE O CROSSDRESSER É CONSIDERADO COMO UM EXCÊNTRICO, EXTRAVAGANTE E GROTESCO HOMOSSEXUAL MASCULINO O PROBLEMA É COM O OBSERVADOR PORQUE O CROSSDRESSER É, NA REALIDADE, UM HOMEM MUITO BEM EQUILIBRADO QUE RECONHECEU E ESTÁ APRENDENDO A TIRAR VANTAGEM DE TODOS OS ASPECTOS DA SUA PERSONALIDADE. CROSSDRESSING NÃO É UMA “SÉRIA” CONDIÇÃO MÉDICA (COMO GRANDE PARTE DA SOCIEDADE AINDA IMAGINA). DE FATO, NÃO CHEGA NEM MESMO A SER UMA “CONDIÇÃO MÉDICA” E NÃO EXIGE NENHUM TIPO DE TRATAMENTO.

Eu espero que tantos homens vivendo sob pressão que nunca antes sonharam de experimentar um vestido ou uma camisola sintam-se encorajados a tentar o crossdressing por conta própria. Crossdressing é a forma menos danosa de recuperação do stress que eu já encontrei. O que se pode perder? Uns poucos momentos se sentindo um tanto ao quanto tolo e um ou dois sorrisos nervosas?

Crossdressing é um “solvente de stress” que apresenta nenhum efeito colateral que se possa temer.

~*~

O Dr. Vernon Coleman, médico e pesquisador inglês internacionalmente famoso, é um crossdresser publicamente assumido, membro ativo da The Beaumont Society, um dos mais tradicionais clubes de CDs da Inglaterra. Os resultados completos da sua pesquisa sobre crossdressing aparecem no seu livro “Men in Dresses" (Homens em Vestidos), disponível para download gratuito (clique sobre o título para acessar).

Uma condição básica para ser crossdresser

Eu não vou descrever porque vocês vivem isso na pele e sabem que não é fácil ser crossdresser. Ninguém gosta de nós.



No cinema, na televisão e na literatura o crossdressing masculino invariavelmente é retratado de modo desajeitado, ora como tragédia, ora como farsa. Somos mostradas sempre ou como o elemento periférico e destoante da sociedade “normal” e que, portanto tem que ser afastado do convívio com os demais (Vestida para Matar, Brian di Palma, 1980; O Silêncio dos Inocentes, Honathan Demme, 1991) ou como palhaços, fazendo todo mundo rir das nossas trapalhadas como mulher (A Noiva Era Ele, de Howards Hawks, 1949 ou Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, 1959).



O único momento cinematográfico em que o crossdressing masculino é levado a sério é na forma drag, dentro do contexto gay. Entretanto, essas histórias tipicamente focalizam mais a vida e as vicissitudes de homens gays, com o crossdressing (drag) fazendo um papel de apoio secundário (Priscila, a Rainha do Deserto, de Stephan Elliot, 1994 ou Para Wong Foo, Obrigada por Tudo, Julie Newmar, de Beeban Kedron, 1995)



Para ajuda-las a compreender o meu ponto de vista, tentem imaginar Hollywood fazendo um filme, estrelado por três astros do momento, com o enredo girando em torno de três crossdressers heterossexuais dirigindo de Nova York para um evento em Atlanta e cujo carro quebra em algum pequeno vilarejo ao longo do trajeto. Poupe o seu fôlego...



Sempre que homens heterossexuais se travestem em filmes isso acontece em nome da farsa, da comédia, da palhaçada. Outro dia eu estava olhando títulos na banca de saldos da minha loja local da Barnes & Noble e encontrei um pequeno livro sobre drags no cinema. O livro era muito interessante: se você o folheasse de um jeito, leria sobre homens se vestindo de mulheres nos filmes. Se você o virasse de ponta a cabeça e folheasse de trás para a frente leria a respeito de mulheres se vestindo de homens nos filmes. As duas partes se encontravam no meio do livro.



Em todos os exemplos do livro, as mulheres que se vestiram de homens no cinema encarnaram personagens marcantes, com problemas reais que só puderam ser resolvidos quando elas assumiram a identidade (e o status) de homem. Mesmo quando o filme era uma comédia, as mulheres travestidas de homens não eram, em nenhum aspecto, apresentadas de maneira burlesca ou cômica.



Homens vestidos de mulheres? Jerry Lewis, Os Irmãos Marx, Lou Costello, Tony Curtis, Jack Lemon, Cary Grant. No caso desses personagens, o uso de vestuário feminino é sempre feito no contexto de situações embaraçosas, becos-sem-saída em que até mesmo o “ato desonroso” de vestir-se de mulher passa a ser aceito. Para o público, não era de maneira alguma a opção mais desejável, mas era o único jeito. E isso faz com que a situação dos protagonistas apareça como hilária.



A ficção literária não faz muito melhor. No livro de Tama Janowitz "The Male Crossdresser's Support Group" (O grupo de suporte do Crossdresser Masculino), o personagem principal, uma mulher marginalizada trabalhando para uma Agência de Acompanhantes em Nova York finalmente “estoura” em sua profissão quando ela revela que na verdade é um homem.



A maioria das pessoas nunca vai encontrar nem será apresentada a um crossdresser. Podem até conhecer gente que é crossdresser, mas elas nunca saberão que eles são. Tudo que a maioria das pessoas sabe a respeito de crossdressing chegou a elas não apenas em segunda mão, mas também de modo altamente deturpado e preconceituoso. Definitivamente, nenhum crossdresser pode culpar as pessoas por terem uma concepção tão errada do que é crossdressing.



Mas e o que dizer a respeito da comunidade gay? Posso afirmar que nos meios gays não existe aceitação ampla e irrestrita dos crossdressers. Ao contrário do pensamento das massas, orientação sexual não está inerentemente conectada com gênero, assim como a imagem do homossexual afeminado é apenas um estereótipo.

Ainda que mais e mais organizações de gays e lésbicas estejam adotando políticas de inclusão dos chamados “transgêneros”, eu ainda não acredito que, ao nível de política de relacionamento pessoal, um gay ou uma lésbica sejam particularmente inclinados a aceitar um crossdresser.



Muitos crossdresser pensam que suas saídas estão limitadas aos bares e boates gays das suas comunidades. Eu tenho freqüentado bares nos últimos 25 anos, até mesmo trabalhado na porta de um ou dois. Nos bares, as pessoas não têm o mesmo tipo de comportamento que costumam ter no trabalho ou em casa. Você está tão propenso a encontrar problemas num bar gay como num bar hétero.



Finalmente chegamos à nossa própria pequena comunidade crossdresser, e cara, nossa casa é uma bagunça!



Recentemente o Transgender Fórum colocou a seguinte questão para os seus participantes: “O que mais incomoda você na comunidade transgênera?”

Esmagadoramente, a maior concentração de respostas foi a respeito das suspeitas, disputas e rixas entre crossdressers, travestis e transexuais. O “cisma” existente dentro da comunidade transgênera foi de longe a queixa número um.



Eu tenho podido comprovar isso na própria cidade onde eu moro. Aqui há duas filias de organizações de apoio aos crossdressers. Uma é a Tri-Ess; outra é a auto-denominada “grupo aberto” (Open Group). A freqüência a ambos os grupos é muito baixa, algumas vezes não passa de 4 ou 5 participantes em cada reunião, que é semanal. Novas afiliações estão estagnadas, com o número de novos membros a cada ano ficando igual ou inferior ao número de desligamentos por falta de renovação ou simples desaparecimento.



Embora a política de filiação do Tri-Ess seja mais rígida, a maioria dos afiliados pertencem a ambas as agremiações. A participação de S/Os é praticamente nula.



Eu queria ter ganho um dólar para cada vez que ouvi a frase “ser apenas um crossdresser” ao longo dos últimos dois anos. Vinda de um crossdresser, soa como uma apologia ao gênero. Dita por transexuais, um rebaixamento. Quantas vezes eu ouvi de alguém que começou recentemente a tomar hormônios coisas do tipo “e pensar que há um ano atrás eu era apenas uma crossdresser!”. Você pode imaginar o general Colin Powell se dirigindo a algum negro desempregado da periferia de uma cidade grande dizendo, todo sorridente e feliz, “e pensar que há 40 anos atrás eu era apenas um favelado!”



Eu já ouvi transexuais dizerem que não saem em público com travestis porque elas sempre poderão ser mais facilmente identificadas por estarem perto deles. Por dedução, pode-se concluir que é ainda mais difícil “passar” se estiverem em companhia de crossdressers... Bem, pelo menos transexuais e travestis têm algo em comum conosco: todos nós desejamos “passar”. Deveríamos pensar nisso, antes de nos encastelarmos em esquinas opostas.



Eu não sou nenhum paradigma de feminilidade (seja lá o que for que isto signifique), mas eu sempre me saí muito bem em público. E já fui a restaurantes e lojas com algumas transexuais realmente muito feias e desajeitadas, em função das quais eu recebi um monte de olhares e risinhos maliciosos que me doeram pra burro e deixaram minhas bochechas vermelhas, não de “blush”, mas de raiva. Mas eu tornaria a fazer isso de novo, com prazer.



O mundo hétero não gosta de nós, nós não temos nenhuma serventia para a comunidade gay e mesmo a nossa própria comunidade transgênera gostaria de se livrar de nós. Estranho, considerando que, como pessoas, crossdressers são esposos, pais, empregados, empregadores, profissionais liberais e proprietários de negócios. Cuidamos das nossas famílias, fazemos o nosso trabalho, estamos atentos à educação das nossas crianças, participamos da vida das nossas comunidades, enfim, cuidamos de nós mesmos e não aborrecemos ninguém.



Não fazemos nada que nos torne algum tipo de persona non grata dentro das nossas comunidades. Ah! Eu quase me esqueci: - a gente é crossdresser...



Bem, aqui estou eu, uma página e meia de um artigo intitulado “uma condição básica para ser crossdresser” e nem comecei a responder a questão. Como tem sido o caso de muitos outros tópicos da minha vida, este tema também ganhou um novo enfoque a partir do exercício do meu papel de pai com a minha filha de nove anos.



Nos próximos anos, a vida dessa garota vai ser virada de ponta a cabeça e, na faixa dos 12 ou 13 anos, ela terá de tomar decisões a respeito de fazer sexo, usar drogas, beber, fumar, o que fazer do seu futuro. A maior parte do tempo ela estará em companhia de pessoas que estarão passando pelo mesmo redemoinho existencial, se deparando com os mesmos problemas, ameaças, oportunidades e desafios. Será que ela pode procurar algum tipo de ajuda e aconselhamento entre seus pares? De jeito nenhum!



Como adolescente, ela desejará pertencer ao grupo, simplesmente pelo fato de pertencer ao grupo. Volta e meia, ela terá que decidir se deve se comportar como todo mundo ao seu redor, ou comportar-se da maneira que ela acha mais correta. Como é que ela tomará essa decisão? O que neste mundo poderá prevenir que uma garotinha seja apanhada nas armadilhas e seduções de uma infinidade de mensagens verbais e não verbais que ela recebe diariamente do seu grupo?



A resposta é: uma pequena voz dentro da sua cabeça. Uma voz que a chama, tentando conduzi-la para um lugar seguro dentro dela mesma, onde a sua individualidade possa desabrochar e crescer de maneira segura, calma e auto-sustentada. Onde ela possa viver com ela mesma, do jeito que ela acha que deve ser.



Um amigo meu, muito sábio, que também é crossdresser, chamou-me a atenção para algo contido na nossa linguagem. Nós sempre pensamos nos seres humanos como tendo cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato, embora nós usemos frases como “senso de humor” e “senso de direção”. Ainda que eles sejam sentidos, certamente não podem ser estudados cientificamente, como os cinco sentidos anteriores. Assim, obviamente, a ciência médica não os reconhece. O que dizer, então, a respeito do “sentido de si mesmo”?



Será que você tem um sentido de si mesmo quando deixa outras pessoas dizerem a você quem você é, o que você é, o que você deve pensar, como você deve se sentir? Você pode distinguir entre idéias originais e pensamentos que surgem de dentro de você mesmo e que refletem a atividade do seu “self” ou você permite que de alguma forma as idéias e as palavras de outras pessoas se transformem nas suas próprias?



Um forte sentido de si mesmo torna-se indispensável quando percorremos um caminho como o nosso, que a maioria à nossa volta considera inadequado, desonroso e impopular.



Um forte senso de si mesmo é absolutamente essencial quando participamos de um grupo ou organização que prescreve regras muito rígidas de como seus membros devem ser e agir. A pressão para se conformar a essas regras e condições choca diretamente com nossa noção do que somos como indivíduos.



Geralmente falamos de alienação no sentido relacional ou seja, no sentido de estar distanciado de outras pessoas, fatos ou eventos. Porém, a mais devastadora forma de alienação é o distanciamento de si mesmo, a perda do “self” individual e sua substituição por um “corpo coletivo”, ou seja, os padrões de comportamento do grupo.



Como uma garotinha adolescente, nós crossdressers estamos permanentemente sendo ora ameaçados, ora seduzidos pelo ambiente à nossa volta. As mensagens são claras e consistentes. Para todo lado que a gente olhe, as pessoas e as circunstâncias estão sempre nos dizendo que nós estamos errados. Para muitos, começa dentro da própria casa, com a rejeição e a perplexidade de esposas, filhos, pais, parentes e amigos ao nosso modo de vida. Mesmo entre nossos pares, há quem use o seu conhecimento de crossdressing para nos marginalizar ou nos submeter. E, é claro, dentro da própria comunidade (?) transgênera, há subgrupos que claramente não nos aceitam e francamente nos combatem e rejeitam.



Isto não significa dizer que travestis e transexuais sejam culpadas de todos os problemas dos crossdressers. Longe disso. Transgeneridade é muito mais uma criação de uns mil anos de patriarcado, primeiro cristão, depois patriarcado científico, do que o tabu de homens usando vestuário feminino. A existência de um diagnóstico clínico para a transexualidade e a tecnologia médica para “trata-la” faz as crossdressers parecerem indesejosas de procurarem ajuda para o seu problema. De fato, muitas crossdressers não vêm a si mesmas como tendo problemas.



E isso leva embora uma razão para o crossdressing. No modelo transexual, usar vestuário feminino faz com que a imagem exterior coincida com a imagem interior. Crossdressers, entretanto, não buscam ser mulheres no sentido definitivo do termo. Assim, a imagem interior permanece masculina enquanto a exterior se transforma em feminina. E daí?



E eu ainda vou acrescentar mais. Quando feita de maneira adequada por uma crossdresser que dedica tempo e energia para aprender a criar uma imagem de qualidade, que aprende a arte e o uso da maquiagem, que observa cuidadosamente a moda e aquilo que é mais apropriado usar tendo em vista o seu biótipo, sua aparência exterior é grandemente melhorada. O uso apropriado de maquiagem e vestuário melhora a aparência de qualquer um, homem ou mulher.



Já encontrei pessoas muito atraentes que eram homens usando maquiagem e indumentária feminina. Não garotas espetaculares, apenas pessoas de boa aparência. Elas “passam”? Provavelmente não, mas sua aparência bem cuidada certamente mereceria o respeito e atenção de todos. Não havia nada imoral ou pernicioso na sua aparência ou no seu comportamento.



Muitos crossdressers (e transexuais) não sabem o suficiente a respeito do uso de maquiagem nem sobre o tipo de roupa que lhes cai melhor, nem o que está na moda. Muitos não sabem nem mesmo combinar peças e complementos de vestuário. O resultado disso é uma imagem sofrível. Mas essas coisas são itens que qualquer pessoa pode aprender e melhorar sensivelmente a partir da prática.



Infelizmente, os mesmos quesitos para ser crossdresser – um forte senso de si mesmo e uma natureza independente – também dificultam os crossdressers de se agruparem. Não é do perfil de pessoas com tais características se amontoarem em grandes rebanhos. Figuradamente, podemos dizer que o meio crossdresser é uma comunidade de capitães, cada um à procura de uma tripulação.



Teoricamente, qualquer crossdresser viveria com muito menos stress se permanecesse como um “homem normal”, vivendo o anonimato de uma vida de “homem normal”, fora do alcance de qualquer tipo de reprovação da sociedade.



Mas não é da natureza de quem é crossdresser. Ser CD significa expor a essência da sua própria natureza, ainda que isso desafie todos os cânones da sociedade, por representar a escolha de um caminho não-aceito e condenável.



Para isso é necessário um forte senso de si próprio, uma forte aceitação de si mesmo. É isto que faz um crossdresser. É isso que, de resto, faz qualquer pessoa realizar-se em qualquer coisa que venha a fazer na vida.

________________________________________

(*) Yvonne é uma crossdresser casada com uma esposa S/O que mora em Albany, na região de Nova York. Seu site contém ótimos artigos e dicas para a vida de toda crossdresser.

Desejos, Limitações e Possibilidades

Tem coisa mais perversa e sacana do que conselho de livro de auto-ajuda? Esses do tipo "aceite-se" ou "seja a pessoa que você é"?



Eu tenho passado séculos da minha vida tentando fazer exatamente isso: - aceitar-me como eu sou, reunindo toda forma de coragem disponível em mim, praticando toda espécie de sacrifício, consumindo todas as minhas reservas de energia, do nascer ao por do sol, de segunda a sexta-feira, de janeiro a dezembro, do berço à cova.

E sabem o que eu consegui até agora? APENAS UMA MISERÁVEL CONSCIÊNCIA DE COMO EU SOU FRÁGIL, DE COMO EU SOU CAPAZ DE CAIR, COM A MAIOR FACILIDADE, NAS MINHAS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES, DE COMO A MINHA NATUREZA HUMANA PODE SER TÃO INCONSISTENTE E VOLÁTIL.... Enfim, a DURA CONSCIÊNCIA DA "INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER", como Kundera tão propriamente apelidou a existência humana...



Nessa caminhada de altos e baixos (pelejando para me equilibrar em cima do salto alto...), volta e meia a gente tem o (des)prazer de conhecer, ao vivo e em cores, o autor (ou autora) de algum desses incríveis "manuais de iluminação", com suas notáveis pérolas de sabedoria humana. Em geral, o que a gente vê diante de nós (como eu tive o desprazer de ver ontem, ao dar de cara, numa recepção, com um conhecidíssimo GURU paulista), são pessoas ARROGANTES (portanto ALTAMENTE inseguras!), ARTIFICIAIS (portanto falsas e hipócritas!), além de COMPLETAMENTE INTOLERANTES, PRECONCEITUOSAS E CONSERVADORAS!

Pessoas que estão muuuuuuuito distantes de mostrarem, EM SI PRÓPRIAS, o mínimo sinal das virtudes apregoadas em seus manuais de "felicidade instantânea", largamente consumidos pelos incautos (ou seriam pelos que se acham mais espertos do que todos os demais?) que acreditam ser possível entrar no céu sem nenhum esforço, quem sabe pela porta dos fundos.



"Traços divinos" de aceitação, compreensão, tolerância e "descolação" que, quando comparados às suas "ações mostradas em público" transformam suas obras em "piadas de mal gosto", escritas na contra-mão do espelho das suas próprias existências vazias, inclusive de toda e qualquer forma de ÉTICA.



A vida de uma crossdresser está permanentemente repleta de enormes desafios de auto-aceitação. Mas, superá-los e vencê-los, é uma questão que vai muito além de simples receitas prontas de auto-ajuda. Aliás, como tudo o mais na vida, depende de uma enorme coragem para testar, na prática, o que vem a ser isso de auto-aceitar-se.

Evidentemente, pra começar, é algo muito mais intenso e profundo do que conversa de guru mal-resolvido em sua própria existência pessoal. Aceitar-se significa respeitar os seus desejos, os seus limites e as suas possibilidades de realização pessoal.

Comecemos pela aceitação dos próprios desejos, a tarefa mais difícil de todas, já que somos exaustivamente treinados, desde pequenos, para rejeitar toda manifestação de desejo próprio, para nos submetermos tão somente aos desejos que os outros desejam para nós. É preciso encher-se de coragem e dar espaço - permitir - que se manifeste em nós um SER DESEJANTE PRÓPRIO. O que é que eu realmente quero para mim, independente do que as outras queiram que eu queira? O que é que realmente importa para mim nesse mundo? Que é capaz de me mover, de me levar adiante, a despeito de todos os obstáculos e dificuldades que surjam à minha frente?

No processo de auto-aceitação, o item de aceitar as próprias limitações é, sem dúvida, o mais fácil de todos, porque é o que a gente já faz, o tempo todo, ATÉ MUITO MAIS DO QUE DEVIA! Claro que ainda não é da forma que realmente deveria ser porque, em geral, as limitações que a gente aceita NÃO SÃO as nossoas próprias e verdadeiras, mas as que os outros nos impõem. Mas, pelo menos, o treinamento para essa passividade

Porque homens usam vestidos? (e porque algumas mulheres ficam tão transtornadas com isso?)

Vernon Coleman(*)

Tradução: LetíciaLanz



Poucas atividades conseguem atrair sobre si tanta repulsa e malícia quanto o crossdressing. Pedofilia talvez seja pior. Mas nem tanto.

Uma jornalista, ao descobrir que seu ex-marido era travesti, passou a considera-lo um pervertido e chegou a despejar um monte de roupas velhas dela na porta da casa da mãe dele, para torna-la ciente disso.

O que pode inspirar um ódio desse tamanho em tantas mulheres? Medo, eu suponho. Mas medo de que? Medo da competição pela gaveta de calcinhas? Medo de que ele pudesse ser gay? Medo de que ele irá alargar tudo, arruinando seus shorts e bermudas de lycra? Medo de que os vizinhos possam descobrir?

Vestir-se com roupas e acessórios normalmente usados pelas mulheres é uma das atividades mais inofensivas que existem por aí - e ainda assim é uma das mais incompreendidas pela sociedade.

Grande número de homens se veste a caráter para suas atividades – como maçons, soldados ou celebrantes – e o travestismo é só uma variação do tema “vestir-se a caráter”.

Entretanto, a sociedade considera que, o que a gente escolhe usar, define, em larga escala, o que que a gente é, quem a gente é e o que os outros pensam de nós. O juiz usa toga, o padre usa batina, o cardeal usa, inclusive, uma batina especial (toda vermelha). Os reis usam manto e coroa. Porteiros de hotel, manobristas de estacionamento, comissários de empresas aéreas e pessoas em mil outros diferentes tipos de emprego usam roupas que ajudam a identifica-los. Mecânicos usam macacões. Médicos usam guarda-pós brancos.

À medida que nossa sociedade se torna mais e mais complexa, os uniformes se tornam mais e mais importantes. Nós inclusive classificamos as profissões das pessoas entre colarinhos brancos e colarinhos azuis.

Homens que se transvestem estão causando a ruína desta peça da máquina social, tão finamente balanceada. Assim, não é surpresa nenhuma que o crossdressing produza tanta confusão, espanto, ressentimento e tantos comentários pejorativos.

Apesar da popularidade do travestismo, pouquíssima coisa é conhecida a respeito deste “hobby” – além do fato de que um monte de homens o praticam (um monte de mulheres também se travestem mas, no caso delas, a prática do travestismo é socialmente aceita. Milhões de mulheres usam regularmente calças e paletós.).

A idéia de homens em roupas usualmente usadas pelas mulheres pode soar como uma piada. Mas não é. Vestir roupas femininas é, para milhares de homens, a melhor maneira de lidar com o stress e escapar das responsabilidades de ser homem. “Se eu não me montasse,” me diz um homem,”eu estaria morto. Eu tenho pressão alta que medicamentos não podem controlar. Usar roupa feminina coloca minha pressão sanguínea sob controle.

Números exatos são difíceis de se obter mas minha pesquisa mostra que, semanalmente, 100.000 de cada 1.000.000 de homens se vestem por algum tempo com alguma coisa macia, sedosa ou cheia de babados. Frequentemente eles apenas usam camisola e calcinhas debaixo dos seus trajes masculinos.

A maioria dos CDs vivem em constante medo de serem apanhadas. Cerca de um quarto dos travestis masculinos nunca ousou compartilhar seu segredo com suas esposas. Isso significa que, pelo mundo afora, milhões de mulheres são casadas com travestis – e não sabem disso. Em cada milhão de mulheres haverá em torno de 25.000 que não sabem que estão casadas (ou vivendo) com travestis.

O travestismo cruza todas as barreiras sociais e profissionais. Seu melhor amigo, seu parceiro de tênis, seu médico, seu chefe ou seu marido podem ser secretamente travestis. As chances são altas de que alguém que você conhece seja um crossdresser.

Aqui estão alguns fatos que eu levantei numa pesquisa com 1014 travestis britânicos: (é, eu penso, o maior levantamento feito com crossdressers)

  • Bem mais do que ¾ de todos os travestis usam regularmente roupa íntima feminina debaixo dos seus trajes masculinos. Muitos dos restantes fariam o mesmo se não tivessem medo de serem apanhados pelas esposas.
  • Quase a metade de todos os travestis saem às ruas montados como mulheres e maioria deles é honesta o bastante para admitir que não enganam ninguém. Mas para a maioria este não é um aspecto importante. Eles querem se vestir como mulheres - não se tornarem mulheres.
  • O travestismo deve ser um dos hobbies mais inofensivos. E, ainda assim, quase ¾ dos travestis masculinos admitem viver em medo constante de ser apanhados ou reconhecidos por parentes preconceituosos, vizinhos ou empregados. Um homem que me escreveu para colaborar com essa minha pesquisa precisou ir até uma cidade mais próxima para colocar sua carta anônima no correio.
  • A maioria diz não entender porque as mulheres podem usar roupa masculina – e os homens não podem usar roupas femininas.
  • Algumas esposas repudiam e zombam do crossdressing de seus maridos. Outras tratam o assunto com certa condescendência, embora se recusem a participar ou tentar entender.
  • A toda hora eu recebo cartas lamentosas de travestis cujas esposas “autorizam” que eles se montem uma hora por semana – desde que façam isso em segredo.
  • ¾ de todas as parceiras de travestis sabem que o homem das suas vidas veste roupas femininas; ¼ delas não sabe. Uma razão para manter o crossdressing em segredo é que, a maioria das esposas ou namoradas que ficam sabendo que seus parceiros são travestis, desaprovam totalmente esse comportamento. Elas perdem um bocado de diversão por serem tão egoístas, tão pouco generosas e terem uma visão tão estreita das coisas.
  • Felizmente, mais de 1/3 das esposas e namoradas ajudam ativamente seus parceiros a se montarem como mulheres, escolhendo roupas e acessórios e fazendo maquiagem.
  • Muitas admitem, inclusive, que ficam sexualmente excitadas ao verem seus parceiros produzidos como mulheres. É comum travestis, cujas parceiras aprovam, terem relações sexuais com elas enquanto estão montados como mulheres.
  • A vasta maioria dos travestis são heterossexuais.
  • Na média, um travesti passa 12 horas por semana vestido como mulher, mas gostaria de passar 70 horas (ou seja, mais da metade da semana “útil”)

Um número cada vez maior de homens está descobrindo que colocar meias de seda e saia justa é a forma mais rápida de escapar das estressantes responsabilidade de ser homem. Eu não tenho dúvida de que os homens viveriam muito mais e seriam muito mais felizes se o travestismo fosse mais largamente aceito.



Acredito que travestismo é um dos hobbies menos prejudiciais de todos, e um hobby que nenhum homem devia se sentir envergonhado de praticar. É, creio eu, um modo perfeitamente aceitável de qualquer homem escapar dos estresses de ser homem em um mundo estressante. É divertido e claramente proporciona para muitos homens uma enorme quantidade de prazer. E é difícil pensar numa outra atividade que seja tão pouco propensa a causar dano a quem quer que seja.

Homens que se vestem com roupas femininas põe à mostra uma parte normal e saudável da sua própria feminilidade, alargando sua visão da vida e desfrutando de um repouso temporário das responsabilidades e demandas de ser homem.

Fico triste ao saber do grande número de mulheres que não aceitam o crossdressing dos seus maridos. A toda hora eu abro cartas de homens que, por causa do seu crossdressing, foram (ou estão sendo) tratados da maneira mais horrenda e hostil possível pelas suas esposas.

Como também acho que é uma terrorista qualquer mulher que tem a temeridade de dizer para o seu parceiro: “se você diz que precisa, então eu acho que você precisa – mas você só pode fazer isso por uma hora, uma vez por semana, e você deve se certificar que as cortinas fiquem bem fechadas e que eu esteja bem longe de casa e, a propósito, que eu não veja nenhum vestígio dessas suas ridículas coisas de mulher quando eu voltar”. Nenhuma mulher ousaria dizer coisa semelhante para um parceiro que tivesse como hobby o aeromodelismo ou o tênis.

É triste ver o travestismo ser considerado muito mais horrendo do que qualquer outra coisa – embora eu saiba que na raiz disso tudo estejam preconceitos completamente falsos e tão profundamente arraigados na nossa cultura.

Muitas mulheres acreditam que a maioria dos travestis são homossexuais ou candidatos a uma cirurgia para mudança de sexo. Mas, no cômputo geral, existe uma expressiva diferença entre travestis e transexuais. Transexuais são como jogadores de golfe – eles perdem suas bolas. Travestis são ávidos para conservar as deles.

Minha pesquisa deixou absolutamente claro que a vasta maioria dos travestis são heterossexuais e estão felizes de serem homens. Curiosamente, o crossdressing é tão mal entendido e comumente injuriado que algumas mulheres, sem dúvida, iriam preferi-lo se descobrissem que seus maridos são gays ou desejam uma mudança de sexo.

O Dr. Vernon Coleman, médico e pesquisador inglês internacionalmente famoso, é um crossdresser publicamente assumido, membro ativo da The Beaumont Society, um dos mais tradicionais clubes de CDs da Inglaterra. Os resultados completos da sua pesquisa sobre crossdressing aparecem no seu livro “Men in Dresses" (Homens em Vestidos), disponível para download gratuito (clique sobre o título para acessar).

Moral farisaica

Os fariseus se caracterizavam pela total falta de modéstia e de autocrítica. Consideravam-se superiores em tudo, demonstrando excesso de arrogância,orgulho e soberba nas suas relações comunitárias.



Dentro dessa "neura" de perfeição moral, estética, filosófica, religiosa (e carnavalesca...) eles "oravam" agradecendo a Deus por pertencerem a grupo altamente selecionado de pessoas, uma elite da época em todos os sentidos, e não terem nascidos “nem gentio, nem plebeu, nem mulher”... Traços desse comportamento podem ser vistos em Lucas (18:11): o fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano...



Entretanto, o fato mais evidente na conduta dos fariseus é que, na prática das suas vidas, eles eram exatamente o oposto do que apregoavam em suas falsas e surradas "lições de moral e de bem-viver". Eram exatamente os piores elementos, os que mais ofendiam e transgridem as regras mais elementares de convívio humano. O discurso moralizante dos fariseus era apenas uma máscara da sua ação nefasta e predatória dentro da sociedade.



Desde sempre, o farisaísmo tem sido um dos maiores obstáculos para a construção de um mundo mais justo e verdadeiro, em todos os sentidos. Por se julgarem acima de tudo e de todos, fariseus não se consideram, nem se permitem, ser gente. Não erram, não têm desejos “ vulgares”, não sonham, não vivem suas fantasias. Encastelam-se nos seus rígidos princípios de conduta moral - para os outros seguirem, naturalmente - uma vez que eles, "ungidos da graça divina" como se acham, não necessitam de seguir nenhuma regra de conduta...



É essa "moral de fachada" que nos vigia e espreita, do alto da sua falsa máscara de hipócrita beatitude. É o olho que julga, que pune e ofende, que jamais compreende ou acolhe. O olho que, apesar de estar profundamente entranhado dentro de nós, também está nos "outros": - esposa, filhos, parentes, colegas de trabalho...



Penso nessa moral farisaica, quando eu me vejo, ou vejo qualquer uma de nós, sofrendo, às escondidas, sem conseguir revelar ao mundo seu desejo tão banal de ser/estar mulher. Penso na hipocrisia de uma sociedade apodrecida no fingimento, quando escuto ou leio relatos pungentes de pessoas com as quais me identifico plenamente falarem do sofrimento incompreensível e atroz, pelo simples fato de se recusarem a pertencer ao mais farisaico dos gêneros - o masculino - seja porque motivos for. Penso, enfim, na falsidade, na artificialidade da “ moralidade” humana, quando nos vejo tão desconfortáveis no nosso pleito de expressão dentro da sociedade, tão bloqueadas nas nossas confissões, impedidas de esboçar um sorriso feminino em um dia claro de verão, tendo que nos refugiar nos "armários" da vida ou nos esgueirar noite adentro, feito almas penadas, apenas para sentir um minuto de conforto e realização pessoal.



Penso nessa moral farisaica e nos praticantes dela – inclusive, e sobretudo, os fariseus instalados dentro de nós – lançando-nos seu olhar reprovador e nos submetendo à tortura da vergonha, da culpa, da negação.



A moral, legislando sobre os “bons costumes” e principalmente sobre os “maus”, é o principal eixo em torno do qual gravitam as famílias, as organizações e as sociedades. A moral é um conjunto de regras de conduta que impõe deveres, pressupondo de antemão que os indivíduos são naturalmente incapazes de deliberar livremente sobre o seu próprio destino e que, para a segurança e o bem estar da sociedade todos precisam observar as mesmas normas e padrões de conduta. Nada a obstar à moral, enquanto ela representar apenas "padrões de referência" para a conduta dos indivíduos e lhes deixar amplas escolhas a respeito do que querem fazer das suas vidas. Porém, é necessário observar sempre que sexualidade é assunto absolutamente pessoal e privado e que quanto mais autoritária (e, muito provavelmente, mais farisaica) for uma família, organização ou sociedade, mais a sexualidade dos seus membros será objeto de repressão.

Contudo, é necessário reprovar e escorraçar para bem longe essa moral ambígua e absolutamente sacana, que reprova a conduta sexual dos indivíduos , que é assunto pessoal de cada um, e faz vista grossa para a invasão do território público, por ladrões disfarçados de representantes do povo e de "escolhidos do senhor". Que moral é essa? Que credenciais de lisura e respeito nos oferecem os seus "dignos" representantes? Malas entupidas de dinheiro arrancado com total má-fé de gente simples e de boa-fé? Fachadas de respeitabilidade, com bigode, terno cinza, gravata preta, óculos de aro e face "carregada" de pudor - ocultando comportamentos abjetos, nojentos e repulsivos?



Hipócritas é o que são, esses abjetos seres sub-humanos, que querem nos fazer sentir vergonha de ser nós mesmos, que querem que sejamos "não-guéns" nesse mundo.



tirem suas mãos sujas e seus olhares libidinosos do meu corpo, que é a única coisa que realmente me pertence nesse mundo. Dinheiro público é que é assunto público: tirem suas mãos sujas dos recursos que pertencem a toda a comunidade e não apenas para um grupo de fariseus sujos, auto-eleitos como “escolhidos do senhor”...



Eles, os que nos vigiam e punem, querem todos os espaços do mundo, sobretudo os espaços e os direitos que nunca lhes pertenceram. Eu quero apenas o direito de ser quem eu sou.

Lidando Com Crises de Baixa Auto-Estima

Crises de baixa auto-estima são companhia inseparável da vida de qualquer pessoa. Porém, no caso de CDs, essas crises costumam ser ainda mais freqüentes e intensas do que na média da população. Somos invariavelmente criaturas muitíssimo passionais. Mulheres permanentemente à beira de um ataque de nervos, no melhor estilo Almodóvar.

Uma simples "mirada no espelho" (pés de galinha, nariz grande, pomo de Adão pronunciado, lábios estreitos ...) como qualquer observação "meio atravessada" de alguém (você está mais gordo, mais magro, mais velho, mais careca...) pode fazer com que uma CD se atire, de uma hora para outra, no mais fundo do poço, morrendo de pena de si mesma, e desejando que o chão se abra para leva-la de vez desse mundo que não a compreende e muito menos aceita.

É claro que, além desses dramalhões mexicanos, cheios de demonstrações gratuitas e despropositadas de auto-piedade neurótica, existem muitas outras formas possíveis de se lidar com uma crise de auto-estima.

Dê uma olhada nas sugestões abaixo, selecionando aquelas que sejam relevantes para a seus próprios conflitos de baixa auto-estima, em função do seu crossdressing. Medite sobre elas e tente aplicá-las ao seu dia-a-dia. Mas seja paciente com você mesma pois mudanças de comportamento sempre necessitam de algum tempo para se sobrepor aos seus velhos padrões de resposta para crises existenciais.

1. PARA VIVER SUA VIDA, VOCÊ NÃO PRECISA DA LICENÇA DE MAIS MAIS NINGUÉM, ALÉM DA SUA PRÓPRIA PERMISSÃO. PORTANTO, LIVRE-SE DOS “TENHO QUE” E DOS “DEVO ISSO" e "DEVO AQUILO”.

Concentre-se na busca de satisfazer suas próprias necessidades (ninguém vai fazer isso por você ou no seu lugar), em vez de se deixar bloquear por aquilo que os outros acham que você “deveria” ou não fazer. Esses “tenho que” afastam você dos seus verdadeiros desejos, interesses e objetivos pessoais. Descubra, então, o que você realmente quer fazer da sua vida, reúna seus talentos, conhecimentos e habilidades e vá à luta.



2. RESPEITE OS SEUS SENTIMENTOS

É muito duro sentir uma coisa e mostrar outra, apenas para agradar os outros. Com certeza, você jamais conseguirá agradar todo mundo. Portanto, vale a pena, pelo menos, tentar agradar a você, em primeiríssimo lugar. Assim, terá alguma chance de conseguir agradar mais alguém. Ao contrário, se você se bloquear sempre - em nome de agradar os outros - vai acabar paradoxalmente "explodindo" exatamente com eles, que você desejava tanto agradar...



3. DÊ ASAS O QUANTO QUISER À SUA IMAGINAÇÃO, MAS LEMBRE-SE DE ESTABELECER OBJETIVOS REALISTAS QUANDO FOR TRANSPOR SUAS FANTASIAS PARA A REALIDADE. Procure fixar seus alvos mais imediatos em cima de coisas que realisticamente você sabe que pode atingir. Liberte-se do perfeccionismo e concentre-se em suas reais possibilidades. Fixar metas como “ser a CD mais bonita, atraente e charmosa do universo” é a mesma coisa que convidar o stress e o fracasso para serem sua companhia permanente.



4. PROCURE VER-SE COMO CROSSDRESSER SEMPRE PELO LADO MAIS FAVORÁVEL E DE MANEIRA TOTALMENTE POSITIVA. Pare de dar ouvidos a esse seu cruel e terrível "eu crítico" que existe dentro de você e que não pára de lhe dizer o que está errado, o que não está bom, o que está ruim e inadequado em seu comportamento. Quando notar que você está se julgando, se criticando e duvidando da sua própria sanidade em função de ser uma crossdresser, reponha imediatamente tais idéias com pensamentos de auto-aceitação, auto-suporte e auto-motivação. Crossdressing é uma bênção em sua vida, não a desgraça que você as vezes imagina e até passa para as outras pessoas.

5. FAÇA TESTES DE REALIDADE. Uma das coisas que mais causam angústia existencial em uma crossdresser é ficar imaginando como as coisas serão SEM DAR UM PASSO PARA QUE ELAS PELO MENOS SEJAM. Separe suas reações emocionais – seus temores e “maus pensamentos”, enfim o conteúdo fantasmagórico da sua mente, da verdadeira realidade que você está vivendo. Por exemplo, você pode sentir desamparo e desespero relativamente a um projeto que ainda não conseguiu realizar mas, se examinar com clareza, verá que a situação sempre comporta você fazer alguma coisa a partir dos recursos que você tem.



6. CRIE PEQUENAS, MAS CONSISTENTES, OPORTUNIDADES DE SUCESSO. Procure construir situações nas quais sejam absolutamente altas as suas chances de sucesso. Identifique projetos em que você possa explorar ao máximo suas habilidades e talentos, sem estressar-se em demasia. Imagine-se sendo bem sucedido. Seja lá o que for que você alcance, por mais simples que seja o seu resultados, comemore seu êxito e sinta o fortalecimento que uma pequena vitória lhe traz para novos e mais ousados empreendimentos no seu crossdressing.



7. CORRA RISCOS CALCULADOS. Sem experimentação não há aprendizagem e é correndo riscos que a gente desenvolve a nossa auto-confiança como crossdressers. Cometer erros faz parte de qualquer processo de crescimento; não se desaponte se você não conseguir fazer uma montagem perfeita logo da primeira vez. Sinta-se bem em tentar outras vezes, realizando progressos e melhorando a sua competência a cada nova oportunidade.



8. ENCARE SUAS LIMITAÇÕES COMO O PONTO DE PARTIDA PARA TODAS AS SUAS CONQUISTAS - E NÃO COMO IMPEDIMENTO DEFINITIVO PARA QUALQUER COISA QUE VOCÊ QUEIRA FAZER. Muitas crossdressers olham para suas limitações pessoais para expressar os estereótipos da feminilidade e se sentem combalidas e humilhadas, pensando que jamais conseguirão encarnar na pele a mulher que têm dentro de si. A questão é que, em vez de se envergonhar ou se deprimir diante das limitações é sempre possível transformá-las em oportunidades de crescimento. Assim, em vez de tentar “fugir” de tais limitações, negando-as ou ignorando a sua existência, devemos encará-las de frente, empenhando-se em fazer com que elas trabalhem ao nosso favor, buscando caminhos e alternativas exatamente a partir delas e não contra elas. Correr das limitações que a gente possui é sempre a maneira mais fácil de minar ainda mais a nossa auto-confiança, uma vez que as limitações jamais " correrão de nós" por elas mesmas. Em resumo, aceite e sinta-se confortável dentro das suas atuais limitações mas, ao mesmo tempo, considere-as como ponto de partida para novas descobertas e aperfeiçoamentos pessoais.



9. FAÇA ESCOLHAS E TOME DECISÕES. Toda e qualquer situação que vivemos na vida TEM SEMPRE, NO MÍNIMO, DUAS ALTERNATIVAS: - fazer ou não fazer, ficar ou partir, continuar ou parar, etc, etc. A questão é que muitos crossdressers dizem QUE NÃO TÊM OUTRA ALTERNATIVA quando, na verdade, eles estão é SE RECUSANDO A ESCOLHER CONSCIENTEMENTE ENTRE AS ALTERNATIVAS EXISTENTES. Na medida em que a gente NÃO ESCOLHE CONSCIENTEMENTE, fica em nós a impressão de que ou fomos impedidos de escolher ou realmente não tínhamos outra alternativa, o que não é verdade. NÃO FAZER, escolhido de forma consciente, tem o mesmo valor, em termos de escolha, do que o próprio FAZER!!! E, mais importante de tudo, quando sou EU que escolhi NÃO FAZER - e não aquela lorota toda de que os outros me impedem, etc, etc - a minha auto-estima não fica nem um pouco abalada. Pratique tomar e implementar decisões, de modo firme e flexível, e a lidar com as conseqüências e repercussões das escolhas que fizer. Você se torna uma pessoa verdadeiramente comprometida com a vida quando você decide o que quer fazer e decide as ações que deve - ou não - realizar para realizar o seu desejo.



10. DESENVOLVA SEUS TALENTOS E HABILIDADES. Todos nós temos um dom especial, algo que nos destaca e nos diferencia das demais pessoas. Descubra qual é o seu e apóie-se nesse ponto para obter a energia que precisa para lidar com as competências que lhe falta desenvolver. Sabendo que tudo pode ser aprendido e que, depois de um certo tempo, nada continua sendo bicho de sete cabeças. Focalize mais no que você pode fazer do que naquilo que você não pode.



11. CONFIE NA SUA PRÓPRIA OPINIÃO A RESPEITO DE SI MESMO. O feedback das outras pessoas é sempre muito importante e deve ser sempre bem recebido. Mas reserve-se o direito de preparar o "relatório final" a respeito do seu desempenho em qualquer situação que a vida lhe ofereça. Acredite nos seus próprios valores ao decidir como você deve se posicionar nesta ou naquela situação e o que é certo para você fazer ou deixar de fazer. Não deixe que as opiniões dos outros sobreponham as suas próprias crenças e opiniões, por mais abalizadas que esses "outros" lhe pareçam. E

Talvez seja útil você mirar-se, por um tempo, no exemplo e/ou nas opiniões dessa ou daquela CD veterana. Contudo, em nenhuma oportunidade, TENTE IMITAR ou SEGUIR CEGAMENTE o modelo de vida de alguém. O que deu certo para ela pode ser exatamente a sua fonte de desgraça - e vice versa!!! Portanto, acima de tudo, lembre-se sempre de seguir o seu próprio nariz, pois galinha que segue pato, morre afogada.

Sobre Ajuda Profissional

ONDE encontrar e COMO certificar-se de que os profissionais que farão o teu acompanhamento endocrinológico/psiquiátrico/psicológico realmente CONHECEM SUFICIENTEMENTE BEM as múltiplas e complexas dimensões da transgeneridade, suas raízes e implicações biológicas/ neurofisiológicas / históricas/ políticas e psicossociais, dentre outras.

Se o profissional não conhece suficientemente bem os intrincados meandros da condição transgênera, corres três riscos principais:

1) seres discriminado, tratado com descaso, preconceito e até mesmo repulsa, em virtude de simples ignorância da tua condição, de forte viés moral, ou de ambas as coisas.

2) o risco de seres enganada, manipulada, enfim iludida, seja de que maneira for, de modo a acabares sendo "conduzida" a diagnósticos e/ou tratamentos que não têm nada a ver com a tua real condição.

2) teres os teus desejos e necessidades prontamente atendidos, sem nenhum aprofundamento na discussão da tua condição, de tal maneira a veres instantaneamente no teu laudo exatamente as conclusões que gostarias que ali estivessem.



Além desses três enormes riscos, corres inúmeros outros, tão importantes quanto. Em alguns casos a transgeneridade pode ter uma notória coloração patológica, que obriga o profissional a oferecer tratamento ao paciente. Em outros, todavia, é apenas uma condição tão natural quanto andar ou respirar. O perigo aqui é o profissional não saber distinguir "alhos" de "bugalhos" e colocar-te na vala comum das patologias listadas no CID10/DSM-IV.



Sem falar numa coisa importantíssima que é o grau de preconceito (e, naturalmente, de presunção) do profissional que te trata. Com base nas crenças dele, pode muito bem decidir que a tua condição é algo do tipo pecaminoso ou "anormal" ou "fora dos propósitos da natureza, de Deus, etc, etc.

Infelizmente, são raríssimos os profissionais realmente habilitados a entender, discernir e orientar "pacientes" portadores de transgeneridade em algum grau. A maioria, nem nunca ouviu falar a respeito, de modo científico ou no mínimo não preconceituoso até chegar algum caso às suas mãos.

Tenho dois casos em mira, dignos de nota para corroborar minhas colocações acima. No primeiro, o profissional, psicanalista consagrado na região, disse que iria "empreender junto com o paciente um esforço para re-elaborar o seu 'Édipo', visivelmente 'mal-resolvido' pela sua condição transgênera". No segundo caso, ao contrário, o profissional, psiquiatra, resolveu embarcar na compulsividade do paciente e aliar-se a ele no seu imediatismo para mudança de sexo, sem nem ao menos lhe propor qualquer tipo de esforço para conhecer melhor suas próprias motivações, conscientes e sobretudo inconscientes.

Infelizmente, no caso de CDs, existem muitos outros fatores que agravam as dificuldades de se buscar e de se encontrar ajuda.

Sei, sei: - cd é travesti e cd pode também ser transexual. No entanto, existe uma pequena diferença radical na aplicação prática desses conceitos. Enquanto TVs e TSs são invariavelmente PESSOAS QUE ASSUMIRAM SUA CONDIÇÃO TODO O TEMPO OU A MAIOR PARTE DO TEMPO, CDs SÃO PESSOAS QUE PERMANECEM NO ARMÁRIO, O TEMPO TODO OU A MAIOR PARTE DO TEMPO.

Há CD que treme nas bases de pensar que alguém pode ao menos suspeitar da sua condição. Para esses casos, é algo totalmente fora de cogitação buscar e obter "ajuda explícita", como, por ex., abrir-se com médico ou terapeuta ou participar desses grupos estruturados de ajuda que existem para atender travestis e transexuais. O único contato que possuem com o mundo transgênero é o universo virtual.

Talvez, por isso mesmo, os clubes que reúnem CDs no exterior são, antes de mais nada, grupos de apoio e orientação onde, gradativamente, mediante um quase-ritual de iniciação, "noviças" vão conseguindo perder o medo de se expor para "veteranas" e os "segredos" de montagem, relacionamento com esposas, filhos, colegas, dúvidas, medos, hormônios, sexualidade, eventos, saídas en femme, etc, etc, vão sendo transmitidos paulatinamente. Nesse modelo, as CDs mais novas vão "chegando" devagar, criando confiança, avançando nas suas descobertas pessoais com a ajuda e o apoio das mais antigas.

No caso de CDs, esse, creio eu, é o único modelo que pode ter alguma chance de funcionar. Ajuda especializada individual e mais ainda grupos de ajuda explícita, de caráter público têm pouquíssimas chances de ter êxito com CDs. Repito: com o tipo clássico de CD que vive no "armário", o tempo todo ou a maior parte do tempo.

De qualquer maneira, a melhor solução, na falta (e também na presença) de um profissional suficientemente habilitado para lidar com a transgeneridade, ainda me parece a notável inscrição da entrada do templo de Apolo em Delfos, imortalizada na fala de Sócrates: Conhece-te a ti mesmo!

Ser ou não Ser: O Dilema do Crossdresser

Catherine Anderson*

Tradução: Letícia Lanz

"Ser ou não ser. Eis a questão..."

(Shakespeare, Hamlet, ato 3, cena 1)

Todo mundo conhece de cor essas palavras do famoso solilóquio de Hamlet. A peça de Shakespeare é tão famosa porque ela trata de um tema universal. Colocado claramente, a condição trágica de Hamlet era ter que enfrentar um dilema inacreditavelmente difícil - tão complexo que o levou a desafiar a sua própria racionalidade. Hamlet tinha que decidir entre matar Claudius, seu tio, que tinha assassinado o seu pai, casado com sua mãe e usurpado o seu trono, ou não matá-lo – ambas as escolhas para ele inaceitáveis.



O apelo universal de Hamlet decorre do fato do seu conflito ser tão parecido com o que ocorre na vida de toda pessoa confrontada com uma situação onde todas as alternativas de ação parecem ser radicalmente inaceitáveis.



Como CDs (e transgêneros) podemos ver facilmente que isto se aplica totalmente ao nosso caso. Desejamos ser mais femininos. Vestir-nos como mulheres. Possivelmente até mesmo tomar hormônios para nos feminizarmos ainda mais. Mas também queremos manter a nossa masculinidade. Em alguns aspectos é possível conciliar as duas coisas, mas em outros definitivamente não é. (Você quer peitos? Está disposto a ficar estéril para obtê-los?)



Nem uma palavra que eu escrever aqui se destina a deixar você mais próximo da solução do dilema. Este não é o objetivo. O objetivo é modificar a forma como você examina o dilema.



A experiência do Hamlet é universal. Ele é uma parte essencial da condição humana. Cada pessoa viva, ou quem já viveu alguma vez, lutou com um ou vários dilemas igualmente difíceis. O problema é basicamente a própria condição humana de todos nós - não a questão do crossdressing/ transgeneridade. Por favor, tenha isso claro.

Caso você não tenha notado, a vida suga a gente. Pessoalmente, sou uma otimista. Mas sou realista também. Parece evidente que a vida serve muito mais à frustração do que à felicidade, e muitas vezes com notória ironia (como dizendo "bem na sua cara!"). Cada um acaba tirando facilmente suas próprias conclusões e a conclusão mais simplista e comum é de que haveria algum plano ou intenção oculto por trás de tudo que nos acontece.



A vida é complicada. Isto não significa que seja de todo má. Mas significa que não podemos nos permitir acreditar em ilusões infantis ou em finais felizes, como nos contos de fadas. Acima de tudo, significa que devemos ser críticos na abordagem das nossas próprias vidas. Devemos ser sinceros. Devemos entender que há muitas armadilhas, e esperar que, a menos que façamos esforços ativos para evitá-las, muito provavelmente acabaremos caindo nelas.

Acredito que o diabo exista. Não sei os detalhes, mas suspeito que ele seja constituído, em parte, por aspectos reprimidos do próprio ser de cada um de nós, em parte, pela manifestação coletiva das características negativas do gênero humano, e em parte por uma entidade independente, de caráter espiritual. Naturalmente, também acredito em Deus. Às vezes parece que o diabo reina soberano sobre os eventos da nossa vida. Mas duvido que isso seja verdadeiro. O fato é que muitas vezes a gente se pergunta por que Deus parece deixar "coisas más acontecerem com pessoas boas”. Mas não acredito que Deus trabalha no sentido de impedir que as coisas más aconteçam. Em vez disso, penso que Deus trabalha se assegurando de que as más coisas não sejam mais pesadas do que aquilo que podemos suportar.



Em todo caso, seja o diabo o que for, acredito que sua meta seja arruinar a personalidade humana – levar uma pessoa a desistir dos seus projetos, perdendo completamente a fé em si mesma. E o diabo fará exatamente o que for necessário para realizar isto. Uma estratégia característica é permitir que nós fiquemos muito mais preocupados com as coisas do que deveria ser o caso. Isso é uma fraqueza básica da natureza humana: - fazer tempestades em copos d’água. E o diabo habilmente explora esta fraqueza, na medida em que ficamos atormentados com questões insignificantes, especialmente em circunstâncias onde superestimamos a sua importância. Sabendo disso, devemos aprender a conviver de forma mais natural com as pequenas e inevitáveis dificuldades e embaraços que a vida nos apresenta a todo momento.



Uma coisa que me bate muito fortemente sobre o comportamento psicológico dos CDs é como eles entram em conflito e se sentem confusos diante do seu dilema. Muitos se angustiam tremendamente com a sua condição e as suas escolhas. Se você não acreditar em nada mais do que eu lhe disse, acredito nisto: - não se angustie! Como Hamlet nos mostra, faz parte da vida a gente ser confrontado com dilemas aparentemente ou realmente insolúveis. Mas considere: ninguém está apontando uma arma para a sua cabeça e dizendo "decida agora ou morra!" Não há nenhuma pressão para você tomar uma decisão definitiva, exceto a pressão que você se impõe a você mesmo. Em tese, você pode passar o resto da sua vida sem nunca chegar a uma conclusão definitiva. Além do mais, mesmo que você possa de alguma forma resolver esta questão, muito provavelmente algum outro vai aparecer para tomar o seu lugar.



Você pode estar confuso, indeciso e desnorteado com a sua condição de CD. Mas isso não é motivo para se angustiar. Alguém só se angustia se acreditar que (1) as coisas podem ser de outra maneira (elas não podem!) e (2) que a inquietação e a ruminação levarão a uma solução (não levam!). Não se agonize. Você nem deveria se sentir particularmente confuso. Verdade: - você não sabe exatamente o que fazer ou como proceder. Mas isso não é confusão. Não, você sabe exatamente o estado das coisas: você é uma pessoa experimentando um dilema para o qual não há nem uma solução clara, nem uma estratégia especialmente comprovada para se obter uma solução. Se você puder ver e aceitar que, apesar disso, você pode continuar levando sua vida normalmente, então você não irá se sentir tão perdido e confuso.



Aceite a inevitabilidade dos seus conflitos existenciais e você será muito mais feliz. Tome medidas prudentes para clarear seu caminho. Mas não espere que esses expedientes sempre irão funcionar - e certamente eles nunca funcionam de imediato. A nica exigência que você deve se fazer é tentar. Porém jamais confunda “tentar” com “ser necessariamente bem sucedido”.



Não concordo com Hamlet quando ele fala de “sofrer as pedradas e flechadas do destino ultrajante". Mais especificamente é com o verbo "sofrer" que eu realmente não concordo. As pedradas e flechadas machucam de verdade, mas sofrer implica em outra coisa. Qualquer pessoa pode sentir dor, mas sofrer é algo muito diferente da dor que a gente realmente sente. Sofrer implica em fazermos perguntas difíceis, que quando muito só comportam respostas inteiramente vagas ou sem sentido: - Quando a dor terminará? Por que devo suportar isto? O que está acontecendo comigo? Será que eu devo realmente sofrer a dor que estou sentindo? Não é a dor em si, mas perguntas como essas que definitivamente nos causam angústia e aflição. É isso que entendo por sofrimento.



Em outras palavras, não podemos, nem há como, evitar o “destino ultrajante”. Mas podemos minimizar a dor, deixando as pedradas e flechadas passarem naturalmente. Sem sofrer.



O diabo se deleita quando nos vê mergulhados em dúvida e confusão. O conhecimento das coisas nos ajuda a decidir como proceder. Reconheça seus dilemas, mas não deixe que eles frustrarem ou abaterem você; mantenha sua vida em curso. Aprenda a identificar o ponto a partir do qual seus pensamentos e sensações sobre o dilema que você está enfrentando deixa de ser produtivo e se torna venenosamente destrutivo. Observe o ponto a partir do qual isto ocorre; com a prática, você será capaz de se movimentar melhor nele. E quando você fizer isso, simplesmente deixará de pensar nele. Lembre-se que sua preocupação sobre tais coisas é que é o seu verdadeiro problema. Distancie-se. A paciência, já foi dito, é a origem de todas as virtudes. Não fique impaciente para resolver o seu dilema.



Ainda que o diabo possa ter suas próprias razões para precipitar e exagerar nossos dilemas, Deus tem igualmente seus próprios motivos para deixá-los acontecer. A maioria das pessoas age dentro do pressuposto de que há uma significado para a vida, que é sua tarefa descobri-lo, e que a vida ficará muito melhor uma vez que ele for descoberto. De uma forma ou de outra, a verdade é que somos permanentemente colocados diante de dilemas em nossas vidas. Porém o dilema não deve ser visto como algo que foi colocado diante de nós para nos obrigar a fazer essa ou aquela escolha e assim promover o nosso desenvolvimento moral. Em vez disso, penso que o principal objetivo do dilema seja nos levar a concluir sobre a futilidade de tentar resolvê-lo – ajudar-nos a atingir aquele grau de consciência onde eles deixem de ser interessantes e portanto não mereçam mais nenhum pensamento ou atenção da nossa parte. Aquele ponto de consicência em que cada ser humano se torna mais espiritualmente maduro.



Ter desejos conflitantes é uma conseqüência natural e necessária da parte animal das nossas mentes. Tanto quanto nos identificamos com a nossa natureza animal, viveremos num estado de permanente conflito. A única solução é transcendermos essa parte da nossa natureza. Como isto acontece é algo muito mais amplo do que o propósito imediato deste artigo. Mas 90 % do processo pode ser resumido numa única palavra: meditação.



A mesma idéia se aplica aos dilemas existentes na relação entre um crossdresser casado e sua mulher. Um relacionamento, uma vez que está fundado em sensações humanas e emoções, experimentará do mesmo modo dilemas que parecem insolúveis ("aceito o crossdressing por meu marido ou não?"). Semelhantemente, o caminho não deve ser tentar resolver os conflitos, mas modificar a nossa maneira de examiná-los. Uma “crise matriomonial” dessa natureza requer, muito mais do que "soluções" o crescimento espiritual de ambos os parceiros. É uma crise que fatalmente colocará em cena coisas muito mais profundas do que simples questões de ordem material, impulsos animalísticos, segurança patrimonial ou atração sexual entre os cônjuges. Da mesma forma que ela só se resolverá se o relacionamento entre os cônjuges estiver fundamentado e puder evoluir ainda mais em princípios mais duráveis e significativos.

(*) Cathy_L_Anderson@yahoo.com, abril de 2001

Link original:

To Be or Not to Be: The Crossdresser's Dilemma

Crossdresser: Uma Jornada de Descoberta Pessoal

Esconda o mais que puder, adie o quanto quiser, o impulso para se travestir não vai desaparecer nunca da vida de um homem!!! De nenhum homem, se querem saber, porque estamos longe de ser as únicas infelizes nesse mundo que foram obrigadas a reprimir sua "parte mulher", em nome de assumir a carga idealizada do gênero masculino: - TODO HOMEM VIVE ESSE CONFLITO, por mais que a maioria repudie essa idéia de modo radical e até violento. Essa é a conclusão a que cheguei depois de me observar e me acompanhar durante anos, mergulhando fundo em reflexões e pesquisas, além de trocar informações continuamente com outras pessoas e profissionais que, como eu, têm vivido o fenômeno "na própria pele".

Crossdressing não é um mero "impulso sexual" e muito menos um capricho inconseqüente na vida de um homem, como boa parte da sociedade reprimida, alienada, mal informada e mal intencionada acredita e quer nos fazer crer que é. Trata-se de uma necessidade de crescimento, de liberação das potencialidades que ficam recalcadas dentro do macho em virtude da repressão social de que ele é vítima desde o momento que nasce e é rotulado como membro do "gênero masculino".

Todos os aspectos femininos da personalidade de um homem são brutalmente rechaçados pela família, pela escola e pela sociedade, de maneira que tudo no comportamento de um homem que possa estar relacionado com a mulher deve ser inteiramente descartado, a fim de que o menino obtenha a aceitação social de que todos nós seres humanos precisamos e somos carentes.

O problema é que esses tratos femininos, rechaçados pela sociedade, NÃO DESAPARECEM, mas apenas ESMAECEM do comportamento exterior do homem, sendo INTERNALIZADOS, ou seja, reprimidos e recalcados para as áreas mais profundas e obscuras do seu ser.

São relativamente poucos os homens que descobrem ainda muito cedo - de maneira natural e não patológica - essa absurda repressão de que o macho é vítima na sociedade. Para a maioria, é somente com a chegada da "meia idade", já com a vida pela metade - e a morte chegando cada vez mais perto - que as repressões dos aspectos femininos da personalidade realmente começam a causar sérios desconfortos e preocupações.

Muitos homens jamais saberão ou aceitarão que sua irritabilidade crescente, sua permanente ansiedade, sua busca desenfreada por realizações espetaculares ou feitos radicais, ou mesmo que a sua gastrite e a sua pressão alta (para não dizer até mesmo um câncer...) tiveram sua origem no desconforto imenso da repressão que foram obrigados a fazer do trato feminino da sua personalidade.

Na completa ausência de referencial social (o tema é tabu!!!), muitos começam a se perguntar se são gays ou o quê, quando se imaginam "imitando" ou dando vazão a tratos considerados femininos.

Muitos entram em profunda ansiedade e depressão, considerando-se DOENTES, depravados, tarados, ou fetichistas, sem saberem que tal manifestação é perfeitamente NORMAL e SAUDÁVEL, que o impulso para se travestir nada mais é do que mecanismo de adaptação do organismo, que busca assim liberar e desenvolver potencialidades travadas dentro do indivíduo.

Têm sorte os que conseguem deixar seus armários e começam a se travestir com mais liberdade e naturalidade, sem experimentarem a culpa, a vergonha, as restrições morais ou a própria imagem idealizada que desenvolveram do que é SER HOMEM. Eu disse têm sorte - mas não será melhor dizer "coragem"? A Rogéria, uma das mais conhecidas travestis brasileiras, sempre disse que um homem tem que ser muito macho para se vestir de mulher...

Para muitos homens, a crise da descoberta da sua "mulher reprimida" pode parecer (e para muitos realmente é...) o ponto final.

Mesmo os que deixam seus armários, que liberam inclusive seus lances relacionados a uma eventual sexualidade reprimida - mesmo eles podem permanecer anos e décadas no estágio da "dúvida": - quem eu realmente sou? Devo ou não me hormonizar? Devo ou não realizar cirurgia, de modo a "libertar" de maneira definitiva a mulher presa, desde a minha infância, no meu interior?

Desde que comecei a minha jornada, descobri que obter "ajuda especializada" é algo quase impossível: - profissionais mulheres dificilmente conseguem libertar-se das suas próprias amarras sociais para ao menos "legitimar" a aspiração aparentemente anormal e tresloucada dos homens que, quase como última saída, se submetem a procurá-las. Para a esmagadora maioria das profissionais, o "capricho" de um homem "vestir-se de mulher" é só isso mesmo: - um capricho, que poderá "ceder" ou "acomodar-se" com o tempo. Para os profissionais homens, o problema é ainda maior, uma vez que a presença de um macho como eles, solicitando ajuda para libertar a mulher presa em seu interior, faz com que eles próprios tenham que encarar os gritos desesperados das suas próprias mulheres enclausuradas. A maioria dos profissionais homens simplesmente "capitula". A despeito dessa quase impossibilidade de se obter ajuda externa, esse é o conselho que mais se ouve: - busque ajuda especializada. ..

Talvez seja por isso mesmo que a maioria de nós jamais busque qualquer forma de ajuda, talvez sabendo intuitivamente que ela pode mais "atrapalhar" do que "contribuir" para a reorganização de todo o nosso ser, após a "descoberta" de uma "mulher aprisionada" dentro da gente. Mas a questão é que o "lugar interior" onde se encontra a "mulher reprimida" de todo homem não é de maneira nenhuma um local de fácil acesso!!! Poucos conseguirão trilhar sozinhos a dificílima caminhada rumo à auto-aceitação!!! Pior, na busca por "atalhos" que "facilitem" o processo ou tornem a jornada menos dura e mais "prazerosa", muitos acabam se distanciando ainda mais de si mesmos e terminam dando voltas em torno de um eixo imaginário que está sempre mais distante da sua própria realidade.

Para entender o mínimo desse fenômeno crossdressing, que eu própria vivo, tive que mergulhar fundo no meu próprio laboratório, contando, às vezes, unicamente comigo mesma - e às vezes, nem comigo. Tive, eu mesma, que ser o "fio de Ariadne" para que o meu masculino "Teseu" penetrasse fundo no labirinto onde minha "mulher interior" é vigiada noite e dia por uma terrível criatura chamada "civilização, cultura, gênero, moral e sociedade".

É essa terrível e onipresente criatura que impede todo homem de realizar a “outra metade” do seu ser, a metade feminina que foi abafada, negada, reprimida e recalcada em nome da manutenção de uma “fachada socialmente tolerável”.

Vencida, pelo menos em parte, a batalha com o "minotauro da censura interior", representado pelo ideal da masculinidade, estou podendo descortinar cada vez mais a imensa força criativa, o imenso potencial de "cura" existente no crossdressing. Em vez de me envergonhar, fugir, negar ou esconder o meu crossdressing, tenho conseguido transformá-lo no principal mecanismo de crescimento e desenvolvimento do meu ser.

Ser Transgênero é Uma Dádiva ou Uma Maldição?

Volta e meia escuto CDs passando a idéia de que a transgeneridade é uma espécie de praga que a gente tem que aturar e "ir levando", da melhor maneira que puder, até onde a gente agüentar e a vida deixar.



Pessoalmente, eu nunca vi minha transgeneridade dessa maneira.

Mesmo nos meus momentos mais difíceis e sofridos (e olha que não têm sido poucos) eu sempre aceitei a minha transgeneridade como um presente muito especial da Natureza, uma verdadeira Dádiva Divina. Afinal, são pouquíssimas as pessoas que têm, na mesma existência, a chance de experimentar sentimentos e sensações dos dois sexos: - a intensidade e o erotismo próprio do homem e a sensibilidade e paixão que só na pele de uma mulher é possível alguém compreender, traduzir e expressar. Essa combinação é muito especial.



Contudo, para chegarmos a desfrutar inteiramente desse prazer enorme que o crossdressing proporciona, é quase certo que tenhamos que pagar alguns pédágios bem salgados como, por exemplo:



1) Lidar com o fato de apresentarmos um comportamento diferente numa sociedade que insiste em que todos sejam iguais (menos naquilo em que todos deveriam ser iguais como, por exemplo, na questão dos direitos e oportunidades...). A Natureza ama a diferença, mas a sociedade odeia. Carregar, portanto, o peso de ser diferente pode ser muito doloroso e cruel.



2) Lidar com o preconceito e a incompreensão de tantas pessoas que acham que não estamos fazendo as coisas do jeito que eles consideram certo ou que acham que transgeneridade é apenas um mero "capricho" da gente. Pouca gente é capaz de imaginar como é custoso lidar com essa nossa condição. Por mais prazer que ela possa nos oferecer, seu custo é sempre muito alto, acima muitas vezes das nossas próprias e limitadas forças.



3) Lidar com a exclusão, a discriminação e a marginalização que nos é imposta por muitos meios sociais - às vezes pela nossa própria família e círculo de amigos - que sentem um enorme estranhamento e mal-estar com a nossa simples presença.

4) Lidar com sentimentos e escolhas altamente conflitantes, em que definitivamente todo pequeno ganho é muitas vezes acompanhado de enormes perdas.



5) Lidar com a culpa, a vergonha e a auto-condenação constantes, atuando permanentemente dentro da gente feito flagelo.



6) Lidar com um corpo masculino que, na maioria das vezes, não se ajusta nem um pouco ao modelo de mulher que temos introjetado e segundo o qual gostaríamos de nos apresentar ao mundo



7) Lidar com a idade: se muito jovem, por julgarem que ainda não sabemos o que queremos da vida; se já madurecido, por julgarem que não temos mais tempo nem necessidade de expressar a nossa transgeneridade.



8) Para os que são casados, lidar com a expectativa de esposa e filhos, com a imagem de pai e cônjuge, construída e mantida por anos e anos.



A lista é enorme e cada uma deve ter uma dezena de itens para acrescentar a ela.



Contudo, meu desejo aqui não é de listar as nossas dificuldades mas de fazer cada uma pensar se vale a pena pagar esses pedágios em nome do prazer que a prática do crossdressing nos oferece.



A minha pergunta a todas que quiserem responder é:

Afinal, para você, ser transgênero é uma dádiva ou uma maldição?

“Urges” e “Purges” na vida do Crossdresser

Devo dizer que eu “pastei muito” até compreender que “purges” e “urges” são produzidas básica e fundamentalmente pela mesma força psíquica interna. Não existem duas forças diferentes, uma para a “purge” e outra para a “urge”; a força é sempre a mesma em ambos os casos. Por contraditório que pareça à primeira vista, o que leva um CD ao “purgatório” é a mesma energia que a leva ao “céu”, no caso, à montagem. Acontece, porém, que, em virtude das “circunstâncias do momento”, internas e externas, a energia – que é única – passa a atuar numa ou noutra direção. Exatamente como ocorre num automóvel, que pode movimentar-se tanto para frente quanto para trás, dependendo da “marcha” que está engatada num determinado momento.

Muito simplificadamente, podemos dizer que a energia interna que move a todos nós seres humanos chama-se “desejo”. A “marcha” que engata o desejo para a frente, no sentido da sua realização, chama-se “busca de satisfação do desejo”, simplesmente “busca de prazer” – ou “Eros”1. A “marcha” que engata o desejo para trás, no sentido da sua negação, abstenção, adiamento, supressão e recalque, chama-se “auto-repressão”, simplesmente “desprazer” – ou “Tânatos”1.

O que existe no crossdresser é o desejo de se travestir. Continuam muito obscuras as verdadeiras razões da existência desse desejo. O que se sabe é que elas são múltiplas, variáveis e além de tudo, mutáveis, o que torna praticamente impossível fixar-se com precisão a sua verdadeira origem.

Do lado da sociedade, ou seja, no ambiente em que vive todo ser humano, prevalece uma terrível interdição histórica ao travestismo masculino: - a partir da sociedade agrícola-pastoril, surgida há cerca de 10.000 anos, é terminantemente “proibido” ao macho vestir-se ou portar-se como mulher. Veja bem: - essa não é uma proibição legal, desde que não há nenhuma lei especificando tal ato como crime. Porém, muito mais forte do que uma lei de natureza jurídica, é uma lei de natureza cultural, que tem como todos nós sabemos, a força de um tabu insuperável.

Travestir-se é, assim, para todo macho, um ato socialmente vergonhoso, deplorável e vexatório constituindo, portanto, permanente fonte de culpa, angústia e ansiedade para todo homem que vier a praticá-lo, movido pelo seu sempre obscuro “objeto de desejo”.

A “urge” é, então, concretamente, uma “afronta” ao interdito cultural do travestismo. Sua força descomunal na vida de um CD, do tipo “ou faça ou morra” (do it or die), é uma espécie de “esgotamento”, de uma falência geral do mecanismo interno de auto-repressão: - Eros fica imensamente mais poderoso do que Tânatos; a força do desejo torna-se absolutamente superior à força de recalque. A “urge” é uma vitória do desejo sobre o recalque.

Ao contrário, a “purge” é uma rendição ao interdito social do travestismo, quase que invariavelmente sentida de maneira dolorosa e culposa por parte do crossdresser. Muitos CDs chegam a acreditar que “eventos indesejáveis” em suas vidas, como perdas, doenças, separações, problemas financeiros, etc, eventos que são, de resto, comuns à vida de qualquer mortal, estão acontecendo com eles como “castigo dos deuses”, por terem afrontado o tabu do travestismo. A “purge” é, assim, uma vitória do recalque, aqui presente na forma de "purgação dos pecados" cometidos "contra a autoridade inconteste da sociedade", através da renúncia e do abandono do "desejo proibido".

Como nenhum desejo desaparece jamais nem pode ser inteiramente satisfeito, o desejo de se travestir volta a ocorrer, de novo e de novo e sempre, na vida de um crossdresser, produzindo novas “urges”. Da mesma forma, se o crossdresser não se aprofundar – tanto emocional quanto racionalmente – na compreensão e aceitação do seu desejo de se travestir, vai encontrar sempre, de novo e de novo, “novas roupagens para as mesmas velhas razões de vergonha e culpa” que o levarão inevitavelmente para novos dolorosos e sofridos “purges”.

A alternância dolorosa entre “urges” e “purges” só pode ser superada mediante o fortalecimento de um “eixo existencial” próprio, em torno do qual o crossdresser possa se afirmar como pessoa de maneira natural, segura e prazerosa, sem os terríveis fantasmas do estigma social que pairam sobre o travestismo masculino. Isso corresponde ao surgimento de um "olhar próprio" do crossdresser que, se não pode estar de todo isento do "olhar do outro", pelo menos não está mais sujeito à sua reprovação e condenação.

_____________________________________________________________________________________

1 - Embora “Eros” seja uma palavra comumente associada às manifestações da sexualidade, em psicanálise ela tem uma conotação muito mais ampla, conotando a própria satisfação proveniente da realização de algo (o desejo) que a gente quer intensamente. Ao contrário, “Tânatos”, o deus da morte na mitologia grega, conota a terrível insatisfação proveniente da negação, abstenção, adiamento, supressão e recalque proveniente da não-satisfação – frustração – do desejo.

Sobre o ímpeto de se montar (URGE)

Antes de sair do armário, você acha que todo mundo vai estar olhando pra você.

Pior: todo mundo que você ver na rua a conhece e vai denunciar você, mesmo que seja somente o amigo da prima da secretária do médico do síndico do prédio em que sua cunhada morou quando era solteira, há vinte anos atrás.

Você tem aquela certeza íntima de que, a qualquer momento, vai cruzar com sua mulher, sua mãe, sua irmã, sua namorada, sua amiga de infância, sua amante, seu pai, seu irmão, a família toda, reunida em passeata, sob o comando daquela sua tia beata de Limeira, incapaz de perdoar até mesmo prostituta que virou freira e foi pra clausura quanto mais sobrinho "adamado" vestido de mulher!

Pior ainda: você vai se encontrar cara a cara com o chefe do seu chefe acompanhado do seu chefe (seu chefe, sozinho, seria muito pouca desgraça), sendo imediatamente identificada, desmascarada, despedida do emprego por justa causa, ridicularizada, massacrada, conduzida ao xadrez, fotografada, indiciada por crime hediondo (que não dá direito a habeas corpus!) e terá seu retrato amanhã nas manchetes dos principais jornais e telejornais do país (e até do exterior) com dizeres em letras garrafais: FINALMENTE PEGAMOS FULANO DE TAL (SEU NOME DE SAPO) VESTIDO DE MULHER!



Ainda que toda cd e pseudo cd negue, abomine e esconjure, a verdade é que muitas parecem sonhar secretamente com uma cena dessas, a adrenalina vazando por todos os poros do rosto, borrando toda a sua maquiagem (e possivelmente alguma outra coisa sendo borrada...).

Mas, infelizmente, pra decepção das amantes de esportes radicais, sua primeira saída en femme (e a segunda, a terceira e a milhonésina também) vai ser até um perfeito monumento à chatura se for medida pela incrível falta de movimentação, pela normalidade tediosa e bem comportada do mundo à sua volta.

Dificilmente alguém vai notar você. E se notar, fica pra ele (ou ela) pois eu nunca me dei conta de gente comentando qualquer coisa ao meu respeito. E se comentar, também, ficou por lá, pra eles; ninguém me ofende por comentar o que quiser ao meu respeito, nem é da minha conta o que eles falam de mim.

Portanto, queridas amigas dos esportes radicais, que ainda se mantêm nos calabouços por medo do excesso de adrenalina que vão sentir, preparem-se para uma redonda decepção. Tudo que descobrirão é que o resto do mundo anda tão ocupado com ele mesmo que não ligou a mínima pra você, mesmo com o esforço descomunal que você fez, vestindo-se e maquiando-se como mulher.

Agora, se vai ser a sua primeira saída, existem algumas precauções interessantes para se levar em conta, não por causa da impressão que vai gerar nos outros que isso, como eu disse, não é da sua conta, mas para a sua própria auto-confianç a e o seu próprio bem-estar pessoal quando estiver montada.

Assim, se é a primeira vez que você vai sair caminhando em público:

01 – escolha, antes de tudo, um calçado que deixe você à vontade, em cima do qual você consiga se locomover com naturalidade, sem ter que parecer uma canoa tentando se equilibrar sobre as ondas. Se nunca andou de salto alto, nem pense em fazer isso em público porque vai ser derrota de 10 a zero na primeira passada.

02 –Nem pense em se estofar de enchimentos por todos os lados, usando bum-bum artificial, pirellis (enchimentos laterais para as ancas), cintas-liga, barrigueira ou espartilho. Pode acreditar: é muita coisa pra você administrar de uma vez só. É melhor ir acrescentando esses itens pouco a pouco, não só na medida em que ficar mais à vontade para usa-los mas se e somente se eles forem realmente indispensáveis.

03 – A menos que esteja querendo concorrer num campeonato de drag queens ou disputar espaço na pista com nossas irmãs travestis, escolha roupas femininas bem simples, dentro das quais você se sinta bem. Roupas sem quaisquer exageros, seja no corte, seja na padronagem, seja no modelo. Quanto mais despojada, mais à vontade você ficará. Muitas meninas pensam exatamente o contrário e acabam se produzindo de maneira totalmente “over”. E creiam-me, eu não fui nenhuma exceção...

04 – Poucos complementos e adereços, pleeeease! Pra não ficar parecendo uma vitrine ambulante de loja de bijuteria!

05 – Dê uma super atenção à escolha e ao penteado da sua peruca! Se há uma coisa que “derruba” a aparência de uma cd, por mais bem vestida que esteja, é uma peruca que não se ajusta ao formato da sua face, à tonalidade da sua pele ou à sua idade cronológica. Peruca é tudo! E não é por mais nem menos que as mulheres GG passam a vida cuidando dos cabelos (e se queixando dos cabeleireiros. ..)

06 – Junto com a peruca, a “sombra da barba” (fora a atitude, claro!!! Veja o item 11) são capazes de por a nocaute qualquer montagem, por mais refinada que seja. Se você quiser se livrar da barba por mais tempo (por, no mínimo, uns três dias, mesmo pra gente de barba muito espessa) considere a possibilidade de fazer uma depilação com cera a quente em salão especializado (hoje em dia, muitos salões de beleza fazem, mesmo quando não anunciam o serviço). Agora, se for fazer, FAÇA PELO MENOS UM DIA ANTES DA MONTAGEM, POIS PODE IRRITAR SUA PELE INVIABILIZANDO QUALQUER MAQUIAGEM (sobretudo se você nunca fez!). Fora a cera a quente, a outra solução é o velho aparelho de barba. Nesse caso, deixe para fazer a barba o mais próximo possível da hora em que for fazer sua montagem e, se for ficar mais do que quatro horas montada, não se esqueça de levar pó compacto para retocar a inevitável “sombra cinza” que começa a aparecer no rosto lá pelas tantas.



07 - Mesmo se puder contar com a ajuda de um maquiador profissional, não carregue nas tintas!!! Se você observar com atenção, somente em ocasiões muuuuuuuuuuuuuuuito especiais uma mulher gg se deixa seduzir por uma maquiagem “mais carregada”. Fora isso, o que todas elas usam no dia a dia é o santíssima trindade da maquiagem: base, batom e blush. O segredo da boa maquiagem, e o mais difícil por sinal, por incrível que pareça, é fazer uma maquiagem QUE NÃO PAREÇA MAQUIAGEM !!!

08 – Não tente afinar a voz pensando que isso vai fazer você parecer “mais feminina”. Não há coisa mais irritante do que a voz de Pato Donald que muitas cds fazem, anasalando a emissão das palavras, achando que com isso conseguem uma voz mais feminina.. Mais importante do que o timbre da voz é a tonalidade da voz. Uma voz macia e suave, ainda que o timbre seja mais grave, é sempre mais feminina, em todos os sentidos, do que uma voz forte e marcante, mesmo que o timbre seja agudo.

09 – O medo e a ansiedade leva a pessoa a se fechar sobre si mesma, como se imitasse um “caracol”. É como se a pessoa tentasse se esconder dentro de si mesma, elevando os ombros, e contraindo os braços sobre o peito. Esse é um gesto que não passa desapercebido nem para um cego, e que denuncia instantaneamente a total falta de jeito de uma CD. Uma forma de prevenir isso é fazer bastante ginástica para relaxar os ombros e os músculos do peito e das costas, ANTES de se montar.

10 – Álcool e drogas, em vez de ajudar, SÓ ATRAPALHA!!! Muitas cds iniciantes (e até veteranas) acham que o álcool “ajuda a relaxar” e deixa-las mais à vontade. Pode até acontecer que relaxe num primeiro momento. Porém, o efeito relaxante é muito mais breve do que a euforia exagerada ou à pasmaceira deprimente que atinge umas e outras, dependendo da sua reação metabólica ao álcool e outros estimulantes químicos.

11 – Escolha com cuidado o local onde você vai. Um bar ou boite GLS é sempre uma boa pedida para a sua primeira vez. Ruas e avenidas muito movimentadas, embora nos ajudem a passar desapercebidas, causam paradoxalmente muita insegurança quando se vai direto pra elas numa primeira vez.

12 – Vá, de preferência, acompanhada por alguém mais experiente do que você, que já freqüenta as calçadas há mais tempo.



13 - leve pouco dinheiro, no máximo um cartão de crédito desses mais aceitos em toda parte, e ao menos um documento de identidade (se for dirigir ou não, a carteira de motorista basta), e um cartãozinho estratégico, onde você deixe anotado coisas como as pessoas que devem ser contactadas em caso de urgência, o seu plano de saúde, o seu tipo de sangue e condição clínica de que seja portadora (cardiopatia, alergias a certos medicamentos, etc)

14 - A palavra chave é ATITUDE. Por isso é tão fundamental cada CD desenvolver e aprimorar permanentemente o seu PROJETO DE MULHER. Aprendi isso com minha madrinha e querida amiga Jorgete: - Pergunte a si mesma que tipo de mulher você quer ser e o que você busca ao se travestir. Sem respostas convincentes e verdadeiras, para você mesma, a respeito dessas duas questões, é muito pouco provável que você se sinta suficientemente confortável dentro de uma roupa de mulher a fim de sair à rua sem se importar absolutamente com o que vai lhe acontecer.

A PRIMEIRA SAÍDA: Breve Guia de Sobrevivência na Selva Trans

Antes de sair do armário, você acha que todo mundo vai estar olhando pra você.

Pior: todo mundo que você ver na rua a conhece e vai denunciar você, mesmo que seja somente o amigo da prima da secretária do médico do síndico do prédio em que sua cunhada morou quando era solteira, há vinte anos atrás.

Você tem aquela certeza íntima de que, a qualquer momento, vai cruzar com sua mulher, sua mãe, sua irmã, sua namorada, sua amiga de infância, sua amante, seu pai, seu irmão, a família toda, reunida em passeata, sob o comando daquela sua tia beata de Limeira, incapaz de perdoar até mesmo prostituta que virou freira e foi pra clausura quanto mais sobrinho "adamado" vestido de mulher!

Pior ainda: você vai se encontrar cara a cara com o chefe do seu chefe acompanhado do seu chefe (seu chefe, sozinho, seria muito pouca desgraça), sendo imediatamente identificada, desmascarada, despedida do emprego por justa causa, ridicularizada, massacrada, conduzida ao xadrez, fotografada, indiciada por crime hediondo (que não dá direito a habeas corpus!) e terá seu retrato amanhã nas manchetes dos principais jornais e telejornais do país (e até do exterior) com dizeres em letras garrafais: FINALMENTE PEGAMOS FULANO DE TAL (SEU NOME DE SAPO) VESTIDO DE MULHER!



Ainda que toda cd e pseudo cd negue, abomine e esconjure, a verdade é que muitas parecem sonhar secretamente com uma cena dessas, a adrenalina vazando por todos os poros do rosto, borrando toda a sua maquiagem (e possivelmente alguma outra coisa sendo borrada...).

Mas, infelizmente, pra decepção das amantes de esportes radicais, sua primeira saída en femme (e a segunda, a terceira e a milhonésina também) vai ser até um perfeito monumento à chatura se for medida pela incrível falta de movimentação, pela normalidade tediosa e bem comportada do mundo à sua volta.

Dificilmente alguém vai notar você. E se notar, fica pra ele (ou ela) pois eu nunca me dei conta de gente comentando qualquer coisa ao meu respeito. E se comentar, também, ficou por lá, pra eles; ninguém me ofende por comentar o que quiser ao meu respeito, nem é da minha conta o que eles falam de mim.

Portanto, queridas amigas dos esportes radicais, que ainda se mantêm nos calabouços por medo do excesso de adrenalina que vão sentir, preparem-se para uma redonda decepção. Tudo que descobrirão é que o resto do mundo anda tão ocupado com ele mesmo que não ligou a mínima pra você, mesmo com o esforço descomunal que você fez, vestindo-se e maquiando-se como mulher.

Agora, se vai ser a sua primeira saída, existem algumas precauções interessantes para se levar em conta, não por causa da impressão que vai gerar nos outros que isso, como eu disse, não é da sua conta, mas para a sua própria auto-confianç a e o seu próprio bem-estar pessoal quando estiver montada.

Assim, se é a primeira vez que você vai sair caminhando em público:

01 – escolha, antes de tudo, um calçado que deixe você à vontade, em cima do qual você consiga se locomover com naturalidade, sem ter que parecer uma canoa tentando se equilibrar sobre as ondas. Se nunca andou de salto alto, nem pense em fazer isso em público porque vai ser derrota de 10 a zero na primeira passada.

02 –Nem pense em se estofar de enchimentos por todos os lados, usando bum-bum artificial, pirellis (enchimentos laterais para as ancas), cintas-liga, barrigueira ou espartilho. Pode acreditar: é muita coisa pra você administrar de uma vez só. É melhor ir acrescentando esses itens pouco a pouco, não só na medida em que ficar mais à vontade para usa-los mas se e somente se eles forem realmente indispensáveis.

03 – A menos que esteja querendo concorrer num campeonato de drag queens ou disputar espaço na pista com nossas irmãs travestis, escolha roupas femininas bem simples, dentro das quais você se sinta bem. Roupas sem quaisquer exageros, seja no corte, seja na padronagem, seja no modelo. Quanto mais despojada, mais à vontade você ficará. Muitas meninas pensam exatamente o contrário e acabam se produzindo de maneira totalmente “over”. E creiam-me, eu não fui nenhuma exceção...

04 – Poucos complementos e adereços, pleeeease! Pra não ficar parecendo uma vitrine ambulante de loja de bijuteria!

05 – Dê uma super atenção à escolha e ao penteado da sua peruca! Se há uma coisa que “derruba” a aparência de uma cd, por mais bem vestida que esteja, é uma peruca que não se ajusta ao formato da sua face, à tonalidade da sua pele ou à sua idade cronológica. Peruca é tudo! E não é por mais nem menos que as mulheres GG passam a vida cuidando dos cabelos (e se queixando dos cabeleireiros. ..)

06 – Junto com a peruca, a “sombra da barba” (fora a atitude, claro!!! Veja o item 11) são capazes de por a nocaute qualquer montagem, por mais refinada que seja. Se você quiser se livrar da barba por mais tempo (por, no mínimo, uns três dias, mesmo pra gente de barba muito espessa) considere a possibilidade de fazer uma depilação com cera a quente em salão especializado (hoje em dia, muitos salões de beleza fazem, mesmo quando não anunciam o serviço). Agora, se for fazer, FAÇA PELO MENOS UM DIA ANTES DA MONTAGEM, POIS PODE IRRITAR SUA PELE INVIABILIZANDO QUALQUER MAQUIAGEM (sobretudo se você nunca fez!). Fora a cera a quente, a outra solução é o velho aparelho de barba. Nesse caso, deixe para fazer a barba o mais próximo possível da hora em que for fazer sua montagem e, se for ficar mais do que quatro horas montada, não se esqueça de levar pó compacto para retocar a inevitável “sombra cinza” que começa a aparecer no rosto lá pelas tantas.



07 - Mesmo se puder contar com a ajuda de um maquiador profissional, não carregue nas tintas!!! Se você observar com atenção, somente em ocasiões muuuuuuuuuuuuuuuito especiais uma mulher gg se deixa seduzir por uma maquiagem “mais carregada”. Fora isso, o que todas elas usam no dia a dia é o santíssima trindade da maquiagem: base, batom e blush. O segredo da boa maquiagem, e o mais difícil por sinal, por incrível que pareça, é fazer uma maquiagem QUE NÃO PAREÇA MAQUIAGEM !!!

08 – Não tente afinar a voz pensando que isso vai fazer você parecer “mais feminina”. Não há coisa mais irritante do que a voz de Pato Donald que muitas cds fazem, anasalando a emissão das palavras, achando que com isso conseguem uma voz mais feminina.. Mais importante do que o timbre da voz é a tonalidade da voz. Uma voz macia e suave, ainda que o timbre seja mais grave, é sempre mais feminina, em todos os sentidos, do que uma voz forte e marcante, mesmo que o timbre seja agudo.

09 – O medo e a ansiedade leva a pessoa a se fechar sobre si mesma, como se imitasse um “caracol”. É como se a pessoa tentasse se esconder dentro de si mesma, elevando os ombros, e contraindo os braços sobre o peito. Esse é um gesto que não passa desapercebido nem para um cego, e que denuncia instantaneamente a total falta de jeito de uma CD. Uma forma de prevenir isso é fazer bastante ginástica para relaxar os ombros e os músculos do peito e das costas, ANTES de se montar.

10 – Álcool e drogas, em vez de ajudar, SÓ ATRAPALHA!!! Muitas cds iniciantes (e até veteranas) acham que o álcool “ajuda a relaxar” e deixa-las mais à vontade. Pode até acontecer que relaxe num primeiro momento. Porém, o efeito relaxante é muito mais breve do que a euforia exagerada ou à pasmaceira deprimente que atinge umas e outras, dependendo da sua reação metabólica ao álcool e outros estimulantes químicos.

11 – Escolha com cuidado o local onde você vai. Um bar ou boite GLS é sempre uma boa pedida para a sua primeira vez. Ruas e avenidas muito movimentadas, embora nos ajudem a passar desapercebidas, causam paradoxalmente muita insegurança quando se vai direto pra elas numa primeira vez.

12 – Vá, de preferência, acompanhada por alguém mais experiente do que você, que já freqüenta as calçadas há mais tempo.



13 - leve pouco dinheiro, no máximo um cartão de crédito desses mais aceitos em toda parte, e ao menos um documento de identidade (se for dirigir ou não, a carteira de motorista basta), e um cartãozinho estratégico, onde você deixe anotado coisas como as pessoas que devem ser contactadas em caso de urgência, o seu plano de saúde, o seu tipo de sangue e condição clínica de que seja portadora (cardiopatia, alergias a certos medicamentos, etc)

14 - A palavra chave é ATITUDE. Por isso é tão fundamental cada CD desenvolver e aprimorar permanentemente o seu PROJETO DE MULHER. Aprendi isso com minha madrinha e querida amiga Jorgete: - Pergunte a si mesma que tipo de mulher você quer ser e o que você busca ao se travestir. Sem respostas convincentes e verdadeiras, para você mesma, a respeito dessas duas questões, é muito pouco provável que você se sinta suficientemente confortável dentro de uma roupa de mulher a fim de sair à rua sem se importar absolutamente com o que vai lhe acontecer.

Etapas de Compreensão e Aceitação da Própria Transgeneridade

Assumir minha transgeneridade tem sido um processo longo, que me valeu muitas crises pessoais, trabalhadas em muitas e muitas horas de análise.



Ao longo desse processo, posso identificar bem nitidamente algumas etapas pelas quais eu já passei e continuo passando, uma vez que elas não ocorrem nem numa ordem cronológica precisa e exata, nem podem ser consideradas inteiramente superadas uma vez que tenhamos passado por elas pois, volta e meia elas voltam a ocorrer ainda, é claro, que em muito menor intensidade e durando muito menos tempo do que das primeiras vezes.



Baseada na minha vivência comigo mesma, estabeleci uma "tipologia" dessas etapas percorridas no caminho da auto-aceitação, contendo os eventos mais comuns que ocorreram comigo em cada uma delas.



As premissas dessa tipologia são, naturalmente:

1 - que eu nasci um indivíduo macho da espécie humana ou seja, portador de um pênis;

2 - que eu sempre soube e sempre senti conscientemente - ou pelo menos “pressenti” - ser uma pessoa transgênera uma vez que, desde a minha infância, nunca me enquadrei ou me senti plenamente confortável nos papéis de gênero atribuídos ao meu sexo (no caso o gênero masculino que me foi atribuído pela sociedade em virtude de apresentar um "pinto" ao nascer)



Baseada nessas premissas, a descoberta e aceitação da minha transgeneridade passa pelas seguintes etapas

1. NEGAÇÃO TOTAL

- Isto não pode estar acontecendo comigo!

- Eu sou HOMEM, MACHO, NÃO FAZ O MENOR SENTIDO EU ESTAR QUERENDO ME VESTIR OU ME COMPORTAR COMO MULHER!!!



Por formação reativa (aquela defesa do ego em que a pessoa é levada a agir de maneira oposta à direção do seu desejo real), tentei muitas vezes adotar uma postura ainda mais masculina:

- tomei testosterona e malhei muito para criar músculos (em vez de tomar estrogênio...)

- em vez de tentar adquirir formas mais femininas, malhei para adquirir formas ainda mais masculinas;

- em vez de fazer dança ou ballet, que era o meu desejo real, tentei inutilmente me dar bem em artes marciais;



Acredito que muitas das formas machistas de intolerância a mulheres e transgêneros (misoginia, transfobia, homofobia, etc) decorram da negação da própria transgeneridade no homem.



2. NEGAÇÃO PARCIAL

- Eu sou, mas eu não posso nem devo expressar o que eu sou.

- Eu não posso permitir que os outros descubram que eu sou, devendo permanecer em silêncio ou expressando a minha transgeneridade apenas de forma solitária e oculta.




Aqui é a racionalização que passa a operar como o principal mecanismo de defesa do ego. “Eu sou, mas eu não devo nem posso ser – eu não posso manifestar, nem expressar o meu ser por uma série de razões práticas”. Essas razões práticas que fundamentam o processo de racionalização vão desde aspectos bem objetivos da realidade, como uma suposta perda do emprego, indigência financeira e perda de vínculos familiares, até noções altamente subjetivas como “status”, “respeito” e “aprovação social”.



Nesta etapa, a pessoa transgênera pode permanecer “no armário” a vida inteira apenas sonhando em expressar de alguma forma a sua transgeneridade e encontrando todas as razões lógicas do mundo para não faze-lo.



3. CULPA (aceitação culposa)

- Eu sou e expresso o que eu sou, mas me envergonho de ser.



Nesse estágio o mecanismo de defesa do ego é a auto-vitimação e auto-punição: - eu não deveria estar sendo o que eu sou porque eu estou transgredindo alguma regra social que me impede de sê-lo. A culpa resulta, no meu caso, da eliminação das minhas enormes defesas e barreiras intelectuais sem uma correspondente auto-aceitação plena e total da minha transgeneridade. A falta dessa auto-aceitação faz com que a minha "libertação" acabe resultando em mais angústia, vergonha e ansiedade por ser alguém que não corresponde ao modelo de pessoa que eu acho que eu deveria ser, de acordo com os padrões de conduta de gênero estabelecidos pela sociedade. O sentimento predominante é pois de transgressão da ordem vigente o que me torna sujeito, portanto, a algum tipo de punição (que, no caso, eu mesma me aplico magistralmente bem...).



4. ACEITAÇÃO FESTIVA



- Eu sou e tenho mais é aproveitar e festar tudo que tenho direito!



Quando entro nesse estágio, a vergonha e a angústia que sinto na fase anterior são substituídas por um estado de muita euforia, não raramente exagerada e exaltada, mas igualmente neurótica, onde a “defesa” do meu ego é tentar me sentir permanentemente para cima, buscando viver de diversão e festa em tempo integral. Considero este um estágio particularmente perigoso pois, basta eu ter uma leve suspeita de que a festa não é tão festa assim para eu entrar numa regressão súbita às fase anteriores, em geral dentro de um quadro depressivo e com um grau elevadíssimo de ansiedade e sofrimento psíquico, com cogitação até mesmo da possibilidade de suicídio.



5. ACEITAÇÃO TOTAL

Eu sou e assumo ser, tomando todas as decisões e arcando com todas as conseqüências da minha auto-aceitação.



É nesse estágio que eu gostaria de estar a maior parte do tempo pois ele corresponde a minha capacidade de aceitar e expressar confortavelmente a minha transgeneridade. Trata-se de um grau de compreensão e aceitação de mim mesma de uma forma conscientemente resolvida. Os mecanismos de defesa do ego são substituídos por escolhas conscientes do que eu faço, a partir das condições objetivas da realidade em que eu estou vivendo no momento. Eu assumo o comando pleno da minha vida e me encarrego de analisar cada situação, tomando, uma a uma, as decisões que eu preciso tomar para viver a minha transgeneridade da forma mais plena e confortável que a minha realidade me permitir. Eu me torno, por assim dizer, o meu próprio "eixo existencial", com coragem, disposição e vontade para:

1 - olhar-me no espelho e me reconhecer, orgulhando-me de ser quem eu sou;

2 - expor-me às outras pessoas, sem querer me "impor" a elas, mas buscando ocupar efetivamente os espaços que me pertencem nesse mundo, de fato e de direito (levando, inclusive, as devidas porradas por fazê-lo quando forem realmente inevitáveis para que eu exerça meus direitos)

3 - ir adiante na realização do meu DESEJO, sabendo que a alternativa seria a negação, a renúncia e o recalque, essas inimiga mortais da minha saúde psicológica. Pois DESEJO é DESEJO - não pode ser sufocado e não é objeto de OPÇÃO, como a cultura e as religiões querem nos fazer crer.

Crossdresser: Realidade e Fantasia

Ser crossdresser é apenas uma fantasia impossível e completamente irrealizável para a maioria de nós, sobretudo para aquelas que por muitas e diferentes razões enfrentam pesadas dificuldades para deixar seus armários de vez em quando e dar umas voltinhas por aí, montadas.



A questão é que quanto mais uma fantasia é cultivada à distância de qualquer realidade concreta, mais ela se torna dolorosa, mais ela tende a ser forte e poderosa e dominar a pessoa ao ponto de sufocá-la completamente, impedindo-a até mesmo de viver uma vida minimamente normal no seu dia a dia.



Se a fantasia crescer demais, a despeito de se tornar realmente impossível realiza-la, chega num ponto em que a pessoa não pensa em outra coisa a não ser em realizá-la, ao mesmo tempo em que, quanto mais adia começar essa realização, mais encontra dificuldades.



Por experiência pessoal, afirmo que a resistência de alguém em realizar a fantasia de se montar cresce proporcionalmente ao desejo de realizá-la. Ou seja, quanto mais a pessoa pensa no que quer fazer, sem fazer nada para, pelo menos, começar a fazer, menos coragem - e mais medo - tem de fazer.



Naturalmente, alguma coisa só poderá ser feita se a pessoa conseguir romper esse circulo vicioso, o que, na prática, é extremamente difícil. A gente se torna tão viciados em nossas justificativas que sentiríamos um vazio muito grande em deixa-las de lado e partir para a ação.



O contato com outras CDs é a maneira mais efetiva de romper qualquer grande bloqueio pessoal. Ao se ver diante de pessoas de carne e osso, pessoas exatamente como elas, com os mesmos problemas e dificuldades (muitas vezes maiores do que os seus!!!) cai por terra aquela ilusão que muitas CDs de armário têm a respeito das suas irmãzinhas, digamos, mais "desinibidas" .



A primeira coisa que uma CD de armário pensa, alimentando a sua resistência, é que toda CD real é uma mulher maravilhosa, que vive o tempo todo linda e esplendorosa, vendendo charme e glamour por onde passa, a qualquer hora do dia ou da noite. Doce ilusão... Mas isso a gente só descobre quando dá de cara com "sapos" bastante comuns, tentando disfarçar a sua falta de jeito, a sua inibição e os seus enormes limites pessoais em se passar como mulher.



A segunda coisa que uma CD de armário normalmente pensa é que a CD real pode ser um tipo perverso, cheio de costumes, manias "perigosas" e desvios (sobretudo sexuais) de toda ordem. A aproximação com pessoas dessa natureza constitui uma grande ameaça à própria integridade pessoal, um risco que não vale a pena correr, diante de família, carreira e reputação que devem ser preservadas. Essa doce ilusão se desfaz rapidamente ao se descobrir que CD real é igualzinha à gente, tem família, emprego, tralha e tal, como a gente. E também tem tanta dignidade pessoal e é digna de confiança como a gente mesmo se considera.



Em vez de cultivar solidão e medo, as cds podem cultivar aproximação e coragem. Em vez de sonharem sozinhas, podiam fazer muitas coisas juntas. Mas, para isso, é necessário, pelo menos, que dessem um crédito às demais CDs, que abrem sua guarda, expõem-se às mais novas, buscam contato e aproximação. É preciso, no mínimo, UM ESFORÇO PARA SE APROXIMAR e RESPONDER AOS CONVITES E CHAMADOS QUE SÃO FEITOS.



Sem isso, essas CDs vão continuar eternamente no armário, imaginando coisas que nunca existiram e nunca existirão - coisas boas e más - inclusive um super glamour e baladas maravilhosas que poucas CDs, mas muito poucas mesmo, tiveram pelo menos a chance de experimentarem. ..



Uma pena. Uma grande pena. Porque, todas juntas, podíamos estar nos apoiando e nos divertindo muito mais em vez de ficarmos por aí, na sombra, imaginando uma realidade que não corresponde de maneira nenhuma à realidade concreta dos fatos.

Conteúdo sindicalizado